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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Autoridade espiritual e poder temporal

Albert Gleizes - Autoridade espiritual e poder temporal (1939-40)

Ao considerar a velha expressão autoridade espiritual e poder temporal no âmbito da divisão das funções de governo do mundo perde-se aquilo que ela diz em si e por si mesma, para além das esferas privadas da religião e da política. O poder, pela sua natureza temporal, traz em si a marca da sua finitude. Todo o poder é temporal e, por isso mesmo, temporário. O que marca o espírito é, por seu turno, a autoridade e nesta o que está a ser pensado não é o mando ou a ordenação, a não ser como sentido derivado, mas a autoria. O espírito é autor e é nessa e dessa autoria que tem e lhe advém a autoridade. O poder é sempre caduco, o espírito cria e cria-se continuamente.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Da autoridade do autor

Albert Gleizes - Autoridade espiritual e poder temporal (1939-40)

Quando Jesus acabou de falar, a multidão ficou vivamente impressionada com os seus ensinamentos, porque Ele ensinava-os como quem possui autoridade e não como os doutores da Lei. (Mateus, 7:28-29)

Surge muitas vezes, na opinião publicada, o delicado problema da autoridade dos professores. Por norma, as respostas dadas são insípidas e falham o alvo. De onde provém a autoridade daquele que ensina, seja ou não professor? Os  versículos citados de Mateus são uma porta por onde podemos penetrar no mistério da autoridade daquele que ensina. O que impressiona a multidão no ensino de Cristo é a diferença que apresenta relativamente aos doutores da lei, aos escribas. No escriba encontramos um certo tipo de autoridade. Eles têm a autoridade de quem conhece a lei, porque a interpreta, e os livros sagrados. Numa sociedade teocrática, têm ainda uma autoridade legitimada pelo poder político (mesmo que este esteja, como era o caso, submetido aos representantes de Roma). No entanto, nem a autoridade proveniente do poder nem a fundada na erudição constituem uma verdadeira autoridade (sobre isto ver o post de ontem).

Se não é nos livros nem no poder, onde residirá a autoridade que sustenta o ensino de Cristo? A palavra grega usada e traduzida por autoridade (ἐξουσίαν) tem um amplo campo semântico. Ela conjuga a energia, a capacidade, a competência e a liberdade do sujeito que possui a autoridade e, ao mesmo tempo, o direito, o poder, o domínio e a força que objectivamente lhe é reconhecida (ver aqui). Em síntese, pode-se dizer que esta autoridade reside na liberdade do autor, na liberdade da autoria. Cristo era o autor da ordem do mundo que ele próprio anunciava e, por isso, as suas palavras tinham autoridade que, ao serem escutadas, logo era reconhecida. Elas, as Suas palavras, não vinham de um exercício hermenêutico sancionado pelos poderes político-religiosos e académicos, mas da própria essência daquele que fala. A fragilidade dos doutores la lei reside na distância que vai entre aqueles que interpretam racionalmente a lei e aqueles que, ao vivê-la e ao torná-la vida, se tornam os seus autores. A verdadeira e única autoridade é aquela que nasce da autoria.

domingo, 24 de março de 2013

Da natureza do servir

Aubrey Vincent Beardsley - The Kiss of Judas, illustration for The Pall Mall Magazine (1893)

«No entanto, vede: a mão daquele que me vai entregar está comigo à mesa! O Filho do Homem segue o seu caminho, como está determinado; mas ai daquele por meio de quem vai ser entregue!» Começaram a perguntar uns aos outros qual deles iria fazer semelhante coisa. Levantou-se entre eles uma discussão sobre qual deles devia ser considerado o maior. Jesus disse-lhes: «Os reis das nações imperam sobre elas e os que nelas exercem a autoridade são chamados benfeitores. Convosco, não deve ser assim; o que for maior entre vós seja como o menor, e aquele que mandar, como aquele que serve. Pois, quem é maior: o que está sentado à mesa, ou o que serve? Não é o que está sentado à mesa? Ora, Eu estou no meio de vós como aquele que serve. (Lucas 22,21-27) [Comentário de Cirilo de Alexandria aqui] [Nota: o texto do evangelho de Lucas de hoje tem uma dimensão incomportável para o comentário num blogue. Escolheu-se apenas uma pequena passagem para comentário. Consultar o texto de Lucas completo aqui (deverá ser necessário pesquisar, depois, na data correspondente)]

Este excerto pode ser lido no cruzamento de duas temáticas. A primeira cruza traição e missão. A segunda meditação centra-se no problema da autoridade. A transição entre os dois temas é obscura. Perante o anúncio de que um dos discípulos iria praticar a traição, surgiu a questão de qual deles seria o traidor. De imediato, porém, o texto resvala para uma outra questão: qual deveria ser considerado o maior. Neste texto de Lucas descobre-se, de imediato, que aqueles discípulos escolhidos são humanos, demasiado humanos. Não parecem ser pessoas especialmente espirituais, mas homens comuns que podem trair e que, movidos pela vaidade, se questionam pelo seu lugar e pela sua preeminência. Talvez este apontamento sociológico dos discípulos permita ligar os dois temas em causa.

O Filho do Homem deverá realizar a sua missão, cumprir o seu serviço, efectivar a sua destinação. Que esta missão, para que seja consumada, dependa de um acto de traição não é das menores perplexidades que se encontram nos textos evangélicos. Contudo, a traição inscreve de imediato aquela missão no espaço humano, embora não lhe retire o carácter providencial que ela encerra. Uma estranha dialéctica está aqui inscrita: a traição tem por fim evitar a consumação da missão, mas é ela que desencadeia a sua efectiva realização. Ora, como se poderá avaliar o acto de traição? Do ponto de vista objectivo, ele permitiu que a missão se realizasse. Do ponto de vista subjectivo, não deixa de ser um serviço vil. A missão de Cristo não se realizou devido ao acto de traição mas com e apesar dele. Independentemente das consequências, há formas de servir que são absolutamente vis (ai daquele por meio de quem (o Filho do Homem) vai ser entregue!)

O segundo tema do texto de Lucas é o da autoridade. Contrariamente à autoridade política, que reside no poder e na dominação, a autoridade representada pela figura de Cristo reside no serviço. Maior é aquele que serve os outros, não o que os domina e coage. Servir significa então um exercício de libertação. Será tanto maior, terá tanto mais autoridade, quanto maior for a disponibilidade para servir. No cerne da autoridade (o ser maior) está então o servir. É neste conceito que se encontra a ligação com a traição, a qual também é um serviço.

Servir é o essencial, mas nem todas as formas de servir são dignas de valor. O texto traz assim a necessidade de perscrutar as razões por que nos dispomos a servir os outros. Esse perscrutar é também um caminho de purificação. Os homens são frágeis, vaidosos e dissimulados. Por isso, a sua forma de servir pode ser muita idêntica à daquele cujo serviço foi trair. O texto confronta-nos com o núcleo central das razões que nos conduzem a determinadas opções, e confronta-nos na sua máxima dureza. Serves por que razão? Não será o teu serviço um acto de traição?

segunda-feira, 11 de junho de 2012

O espírito e a obediência

Hans Baldung Grien - Adan (1520-1523)

O acto que está na origem da desordem espiritual do homem foi um acto pelo qual Adão se separou de Deus, de si mesmo e da realidade que o envolvia. Foi a ruptura deliberada da comunhão existencial que dava a Adão a sua plena realidade e o fazia participar naquela que existia à sua volta. Por um acto de puro orgulho, sem o menor traço de sensualidade, de paixão, de fraqueza, de erotismo ou de medo, Adão põe um abismo entre Deus, ele e os outros. [Thomas Merton (1969). Le Nouvel Homme. Paris: Éditions du Seuil, p. 82]

Como compreender a insistência a outrance da Igreja Católica no princípio de obediência? A obediência, entendida como submissão a uma autoridade, é um elemento estrutural de múltiplas instituições. Sem ela, sem a submissão dos cidadãos à autoridade politicamente constituída, um Estado não funciona. Um exército estará condenado à derrota se o princípio de obediência à hierarquia não for seguido de forma indiscutível. Outras instituições, como escolas, empresas, clubes desportivos, etc., só funcionam fundadas, ainda que de forma matizada, no princípio de submissão à autoridade.

Poder-se-ia pensar que todas estas relações de obediência à autoridade são idênticas às relações de obediência que a Igreja Católica exige dentro de si. No entanto, isso não é verdade. Em todas as instituições onde o princípio de obediência tem um papel, ele é sempre, apesar de estruturante, instrumental. A obediência do cidadão à lei, do soldado à hierarquia, dos jogadores ao treinador, dos alunos aos professores, em todos estes casos visa-se sempre outra coisa: a ordem cívica, a vitória militar ou desportiva, a aprendizagem. A obediência no campo espiritual, aquela que é exigida pela Igreja Católica, contudo é um fim em si mesmo e não um mero meio para se atingir alguma coisa..

Só se pode compreender essa obediência, se se entender o que está em jogo. Ao colocar de lado as leituras pueris do mito de Adão e Eva, Thomas Merton, no trecho supra citado, abre um caminho para compreender essa obediência. O pecado original, como ressalta do texto, não tem nada de erótico ou sensual. O que, na mitologia judaica, perdeu o homem foi a revolta e o orgulho. O que significa esta revolta e este orgulho? A perda da verdadeira realidade do homem, a sua diminuição ontológica, o que é figurado por um corpo frágil e mortal, por uma vontade fraca e corruptível. A obediência é o exercício contrário ao acto de orgulho de Adão. Aqui a obediência não é um comportamento estratégico que vise, no fim, uma reintegração no estado anterior à revolta adâmica. A obediência, do ponto de vista espiritual, é símbolo e prática efectiva desse estado que Adão recusou. 

A submissão à autoridade espiritual é o elemento estrutural da viagem do espírito, porque ela é o exercício e a vivência do estado prévio à Queda. Tudo isto não significa que a Igreja Católica não use a obediência de forma instrumental, mas, contrariamente a outras instituições, ela fá-lo porque a obediência à autoridade é o princípio central do cristianismo, cujo arquétipo reside na submissão de Cristo, o Filho, à vontade do Pai, submissão até à morte, e morte de cruz. Isto, porém, só é inteligível a partir da compreensão da Queda adâmica e da perda ontológica que ela significa.