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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Da dificuldade

Chris Killip - Cookie in the Snow, Seacoal Beach, Lynemouth, Northumberland, UK, 1991

Onde não existem condições adversas não há vida espiritual. Seja em que dimensão for, a ascese não é um exercício de invenção de dificuldades, mas uma resposta com que o espírito enfrenta a adversidade da via. Tudo se resume na palavra de Platão: o belo é difícil.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Vida espiritual

Rodney Smith - Skyline, New York, 1992

O que nos ensina esta fotografia sobre a vida do espírito? Para o percebermos é necessário compreender o que ela faz. Toda a fotografia é um corte no tempo, um momento que foi subtraído ao fluxo da duração. Ao olhar a fotografia, percebe-se de imediato que os figurantes estão a encenar esse momento excluído do decurso da temporalidade. Aquilo que qualquer fotografia faz espontaneamente esta fá-lo deliberadamente, como se retornasse sobre si mesma e transformasse a inocência original e espontânea numa virtude adquirida por um longo exercício de ascese. A vida espiritual é essa ascese para tornar deliberado aquilo que um dia foi espontâneo.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Disciplinar-se a si

Pierre Bonnard - O exercício (1890)

Também a vida do espírito tem uma dimensão militar. Quantas vezes, mesmo na religião, se fala em milícia. Esta dimensão militar da vida espiritual não visa fazer a guerra ao outro, mas aprender a disciplinar-se a si. Também esta disciplina não significa a rigidez do hábito. Pelo contrário, a disciplina do exercício - da ascese - é o caminho para acolher esse vento que sopra onde quer.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Olhar a natureza

Hiro Yamagata - Folhas caídas (1982)

Tempos de Outono. Como as árvores se despem das folhas agora inúteis, também o homem, para persistir no caminho que o espírito lhe indica, se deve despir de todas as ilusões e inutilidades que vida deposita nele. Olhar para a natureza torna-se um imperativo. Aprender com ela a ascese e a purificação é uma necessidade, para que se abre à voz que o chama e lhe indicou a senda do Outono.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Ano sabático

Vincent Van Gogh - Cabañas con tejado de paja en Chaponval (1890)

Hoje, nos países civilizados, há um desmedido orgulho num mundo de onde as pobres cabanas foram banidas da vida do homem. Citadino, rico mesmo se considerado estatisticamente pobre, o homem perdeu a relação com o essencial, com a terra, com os elementos da natureza, com a necessária contenção que o respeito pela criação deveria trazer. Não é que o homem deva retroceder no conforto que construiu, mas não lhe faria mal que, a cada sete anos, tivesse o seu ano sabático, um ano numa pobre cabana com telhado de palha.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Os dias frios

Lucien Lévy-Dhurmer - Bruxelas, sob o efeito da neve (1900)

São os dias frios os mais propícios para o espírito se recolher dentro de si. A exuberância do calor é substituída pela austeridade que o frio traz e nos leva a centrar no mundo interior. Libertos da distracções que o tempo quente sempre exige, entregamo-nos à mais pura das asceses, aquela que nos leva ao silêncio e deixa falar em nós a voz que nos chama.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A ascese do jardineiro

JCM - Heimat I. TN (2007)

As analogias trazem sempre um perigo. Por exemplo, podemos dizer: a vida do espírito é como um jardim. O perigo reside em perceber a vida espiritual como algo organizado e cosmético, como são os jardins aos olhos daqueles que fruem deles. A verdade da analogia, porém, reside noutro lado. Todo o jardim é uma viagem dura e trabalhosa em que a tendência para o caos e a força do espontâneo são substituídos por um mundo organizado e ordenado a um fim. E sempre que a força natural e a espontaneidade caótica se manifestam, o que preserva e faz perseverar o jardim na sua condição é a ascese do jardineiro, cortando aqui, podando acolá, limpando mais à frente, regando o que clama água. A vida espiritual a que o viandante - quem quer que ele seja - é chamado não é outra senão a da ascese do jardineiro.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

A viagem e o ócio

Edward Burne Jones - Peregrino à porta da ociosidade (1875-1893)

Um dos grandes perigos que assaltam o viandante nasce da confusão entre a viagem e o ócio. A viagem não é uma excursão turística, o deambular onde preenchemos a mente ociosa com a alteridade do desconhecido. A viagem é o exercício da pobreza de espírito, a prática do despojamento, a ascese que leva ao esquecimento de si. Não há porta que seja fim, pois todo o tempo é tempo de milícia.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Bavardage

Federico Zandomeneghi - Bavardage

Talvez o maior perigo para o espírito seja a bavardage. A tagarelice infinita toma conta da alma e apodera-se do espírito, derramando as suas seduções no sentimento e na vontade. A bavardage é o sintoma de uma impotência, a impotência de nos calarmos, de fazer imperar o silêncio interior. Não há bavardage mais fútil do que aquela que se passa em nós, quando estamos calados. A barvardage não precisa de duas poessoas. Basta uma, basta que nos entreguemos à corrente da consciência e deixemos que as nossas associações criem um universo paralelo, tecido de palavras e imagens, um universo onde a desatenção àquilo que é se torna a característica central. Há quem pense que aqueles que silenciosamente se entregam aos seus pensamentos são pessoas muito espirituais. Um puro equívoco. São apenas pessoas que se distraem do essencial entregues a um universo onde, narcisicamente, tagarelam consigo mesmas, são pessoas em que o ruído e a poluição sonora passou de fora para dentro.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Poder e tentação

Ivan N. Kramsko - Cristo no Deserto (1872)

Naquele tempo, Jesus, cheio do Espírito Santo, retirou-se do Jordão e foi levado pelo Espírito ao deserto, onde esteve durante quarenta dias, e era tentado pelo diabo. Não comeu nada durante esses dias e, quando eles terminaram, sentiu fome. Disse-lhe o diabo: «Se és Filho de Deus, diz a esta pedra que se transforme em pão.» Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: Nem só de pão vive o homem.» Levando-o a um lugar alto, o diabo mostrou-lhe, num instante, todos os reinos do universo e disse-lhe: «Dar-te-ei todo este poderio e a sua glória, porque me foi entregue e dou-o a quem me aprouver. Se te prostrares diante de mim, tudo será teu.» Jesus respondeu-lhe: «Está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto.» Em seguida, conduziu-o a Jerusalém, colocou-o sobre o pináculo do templo e disse-lhe: «Se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo, pois está escrito: Aos seus anjos dará ordens a teu respeito, a fim de que eles te guardem; e também: Hão-de levar-te nas suas mãos, com receio de que firas o teu pé nalguma pedra.» Disse-lhe Jesus: «Não tentarás ao Senhor, teu Deus.» Tendo esgotado toda a espécie de tentação, o diabo retirou-se de junto dele, até um certo tempo. (Lucas 4,1-13) [Comentário de Rafael Arnaiz Baron aqui]

A meditação sobre as tentações de Cristo no deserto não pode ser desligada do seu contexto. Este é o de um exercício ascético de purificação e autodomínio. Olhadas deste ponto de vista, e tendo em conta o carácter das tentações descritas, elas mostram o perigo que este domínio de si representa. Esse perigo é o da vontade de poder. O poder sobre a natureza, o poder político e social e o poder metafísico sobre o mundo espiritual e divino. Esta vontade de poder pode ser pensada em ligação com a ideia de errância e de falhar o alvo existencial (ver aqui). Seria o aspecto mais tenebroso dessa errância e dessa falência.

O texto de Lucas é uma crítica ao anseio da dominação fundado numa autodominação. O desejo do poder é visto como uma tentação fundada no poder sobre si mesmo. O que Cristo veio mostrar é que a ascese espiritual não é, não deve ser, uma via para a constituição de um poderio sobre o real. Ao associar a tentação à questão do poder, o texto de Lucas sublinha um aspecto que passa muitas vezes despercebido. O carácter negativo do próprio poder, a sua origem tenebrosa. Ele é uma coisa que tenta o homem, a tentação mostra-o como aquilo que infringe a norma essencial que deve reger a existência dos homens.

O cristianismo rejeita desde a sua origem o mito prometaico, o desejo de dominação sobre o real. Essa rejeição, todavia, não visa, como pretende a leitura nietzschiana do cristianismo, a afirmação de uma vontade de poder dos que são fracos e débeis para dominarem os fortes e poderosos, os transbordantes de vida. Se se quer apresentar um texto que refute a interpretação nietzschiana este é um deles. O que é mostrado é que toda a vontade de poder é uma patologia da própria vontade, o sintoma de uma doença existencial, o sinal de que se perdeu o alvo.

A ascese, o sacrifício, a resistência aos desejos e necessidades fazem sentido, mas não como exercício propedêutico a uma dominação. Eles são um princípio de instauração de uma outra relação do self com aquilo que o rodeia, uma forma de perder as ilusões e de se abrir à verdade, à sua e à dos outros, à verdade também desse totalmente Outro, que não se deixa envolver pelas maquinações de um ego errante e incapaz de encontrar um horizonte, que se perverte no desejo de tudo poder. Ir para o deserto é o caminho para descobrir essa norma essencial, a norma que nos diz que devemos abandonar todas as pretensões ilusórias acerca da glória do nosso pequeno eu empírico.