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terça-feira, 15 de março de 2016

Desrealização da luz

Albert Bloch - Figures in silver light

A vida do espírito é, antes de mais, uma aprendizagem da visão. Começa com a descoberta de que a visão, para a qual fomos educados e nos dá um mundo, não passa de um artifício, no qual nos prendemos submissos ao que etiquetamos como realidade. Esta, porém, não é mais do que uma realização. A realidade quotidiana não passa de uma realização embotada, que perdeu vigor e repousa na preguiça. O primeiro passo é des-realizar o real, para aprendermos a ver sob uma nova luz. O passo definitivo é descobrir que cada nova luz é sempre um artifício que há que des-realizar. Para o homem não há uma claridade última. A cada etapa ele precisa de aprender a olhar de novo.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Infância e poesia

Manuel Moral - Coche de mi infancia (1978)

Um dos lugares comuns, quando se fala sobre poesia ou sobre determinada obra poética, é o de ela ser uma espécie de retorno ou de visita ao lugar encantado da infância. Isto significaria que essa infância se constituiria como a fonte de uma mitologia privada, a qual se manifestaria na simbologia e na metafórica da obra. Tudo isto, porém, não passa de um equívoco. Se alguma infância é importante na obra poética, essa não é aquela que ficou para trás na história pessoal do poeta, mas a que está para vir, a que se constitui como horizonte a alcançar. Escrever como uma criança, como Picasso falava em pintar como uma criança. Não como uma criança tal como ela é, mas como uma criança enquanto símbolo da simplicidade, da inocência e da autenticidade. Também aqui estamos num território equívoco. Nem as crianças são simples, inocentes e autênticas, nem a simplicidade, a inocência e a autenticidade poéticas são frutos da espontaneidade natural que o senso comum associa à infância. Pelo contrário, são artifício, o mais puro e refinado artifício.