sábado, 22 de agosto de 2026

Biografias 45. O actor

Napoléon Sarony - Edwin Booth as Richelieu, 1891

Uma vida de metamorfoses. Ontem Hamlet, hoje Richelieu, amanhã, de novo, Hamlet. Aos poucos esqueço-me de mim, do nome que me deram, daquele que me dava, em pequeno, ao olhar o espelho. Prossigo o caminho entre figuras vazias, entre criações da imaginação e fantasmas de mortos que o tempo teima em não esquecer. No palco, sou qualquer um. Fora dele, sou ninguém. Espero a morte para, perante o Juiz Supremo, descobrir quem sou. 

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Câmara discreta (37)

Frederick Sommer, Untitled (Nude out of focus), 1962
A sombra cresce numa sortida esquiva e abre a massa do corpo ao mistério. Onde tudo cintilaria, cegando o espectador com o poder da nudez, a câmara lança, ao desfocar-se, um véu de segredo e fantasia. Então, o corpo fotografado retoma o seu talento originário: ocultar-se para se tornar desejado.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Sonhos de Verão 8

Vincent Van Gogh, Barcas de pesca cerca de Saintes-Maries, 1888

Brandirão a espada sobre a luz da tarde

e o esplendor dos teus olhos navegará para longe.

 

Uma traineira arrasta nas suas redes o Verão,

a cintilação do Sol nas águas paradas do porto.

 

Resguardo-me na escuna da ventania,

navego o azul do mar em direcção à luz do Sol.


Agosto de 2026

domingo, 16 de agosto de 2026

Pintura e haikus (50)

Ana Peters, Azul prusi, 1993

Um azul da Prússia
no silêncio do oceano.
O céu de Verão.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Arqueologias do espírito 42

Felix Vallotton, Le Vent, 1910

Perante o indomável arbítrio do vento, os homens sentiram a presença de uma autonomia nunca subjugável e de uma liberdade que necessidade alguma limitava. Ele sopra de onde quer e para onde quer. Essa força, porém, também a encontraram em si mesmos, no mais íntimo de si. Neles também existe um vento que sopra não sabem de onde, nem para onde os quer levar. Chamaram espírito a essa liberdade que age dentro de cada um. Perante ele, sentem temor e tremor. Aquela liberdade parece-lhes uma deusa caprichosa e irrefreável.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Impressões 137. No jardim

Paul Klee, A garden for Orpheus, 1926

No Jardim dos Mil Segredos, as cores são sons que crescem e decrescem segundo uma ordem secreta. Árvores, grandes composições musicais, e as rosas nascem como as canções breves da Primavera. E tudo se reúne na brancura que se solta da lira do triste Orfeu.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Meditação breve (214) No cais

Franz Goerke, Auf der Mole in Allinge, 1898

No cais, há três espécies de pessoas, para além daquelas que ali exercem o ofício. As que chegam, as que partem e as que ali vão para ver quem chega e quem parte. A estas leva-as a curiosidade e um amor desmedido à contabilidade. Quem chega é creditado e quem parte é debitado. No fim do dia, a diferença entre o deve e o haver indica ganhos ou perdas sofridos por quem se deixa arrastar pelo secreto vício da indiscrição.

sábado, 8 de agosto de 2026

Sonhos de Verão 7

Juan González Alacreu, Contraluz

Da geração incrédula e perversa, não há memória,

mas a voz compassiva curou a criança lunática.

 

Agosto estende as suas redes sobre o azul do mar,

e um grão de mostarda traz um zéfiro pela terra.

 

Sentado à sombra, debito o rol de milagres,

faço-os nascer de um verbo vazio, iluminam a luz.

 

Agosto de 2026

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Micronarrativa (84) Velas brancas

Georges Robard, Départ matinal de Régates, 1890

Levantava-se cedo, uma ânsia inexplicável levava-o ali. Não era o desejo de competir num daqueles barcos, nem o sonho de, um dia, partir num deles para uma viagem. A brancura das velas fascinava-o. Olhava-as intensamente e pensava em si mesmo, na sua consciência, na sua alma. Será que em mim haverá aquela brancura? Para a pergunta não encontrava resposta e isso prendia-o mais aos barcos que desfilavam perante si. Na hora da morte, quando tudo se cerrava, a última coisa que lhe aflorou ao espírito foi a vela branca de um pequeno barco.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Signo sinal 37. Economia do dom

Robert Capa, American troops going from the Chiunzi Pass to Naples. Late Sept, Italy, 1943

Soldados esperam o sinal para atacar um inimigo invisível, levar-lhe a morte como dádiva benevolente. O inimigo recebê-la-á sem rejeição, para a restituir. Aquilo que foi recebido deva ser restituído. A morte é o maior bem em circulação, uma cerimónia de honra e reciprocidade.

domingo, 2 de agosto de 2026

A memória do ar (49)

George Seurat, Evening, Honfleur, 1886

O ar rarefeito é uma memória de outros tempos, quando a navegação à vela levava, pelos mares desconhecidos, aventureiros em busca de um nome, da forma de um corpo, do sentido de uma vida. Agora, os oceanos tornaram-se demasiado frágeis para suportar o peso da atmosfera. Benevolente, o ar rarefaz-se a cada dia, para que amanhã ainda existam mares, e os grandes veleiros os possam cruzar, tomados pela melancolia do que passou.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Sonhos de Verão 6

Carlos de Haes, Playa de Guethary, 1881 (aproximadamente)

São surdos os que se prostram no templo,

corre-lhes o Estio nas veias, o avaro coração.

 

As marés baixas abrem um deserto na praia.

Se as gaivotas grasnam, não há quem as oiça.

 

Caminho pela senda sombria do crepúsculo,

escuto a voz pregada na estreita cruz da surdez.

 

 Julho de 2026

quarta-feira, 29 de julho de 2026

A sombra da água (49)

Georges Balagny, Coucher de Soleil, 1894

Na hora em que o Sol se põe, de velas desfraldadas, os pequenos barcos adormecem sobre as águas, embalados por um suave ondular trazido pelo vento, fascinados pelo murmúrio anunciador da noite. Tudo se aquieta sob o governo inflexível  da necessidade, se a luz se esconde e o oceano se entrega à dança sem nome da escuridão.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Geometrias de fogo (49)

William Turner, Sun Rising Through Vapor, Fisherman Cleaning and Selling Fish, 1807

Ao erguer-se, sob a névoa, o Sol ainda não é uma paisagem de fogo incrustada no horizonte. É apenas uma promessa de calor disfarçada pela água em vapor, a memória de uma canção consoladora, se o dia chega frio e os seres imersos na vida anseiam pelo carmesim do alívio.

sábado, 25 de julho de 2026

O Espírito da Terra (49)

Léonard Misonne, Staubiger Weg, 1897

Os caminhos abrem a Terra para que esta liberte o seu espírito e este paire sobre os homens que a atravessam. Cada trilho é mais que uma cicatriz, mais que a memória de uma dor. É uma promessa, a condição de possibilidade para que o viandante escute o coração do lar que lhe foi dado.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Sonhos de Verão 5

Paul Cezanne, Bibemus Quarry, 1898-1900

Na grávida luz da graça, uma terra de pomares,

herança contaminada pelo musgo da abominação.

 

A lira da noite cai sobre o fogoso seio do Estio,

as raparigas abrem-se ao contágio do amor.

 

Infectado, murmuro no bálsamo do vento Norte.

Julho cobre-me o zumbir nascido do desejo.

 

Julho de 2026

 

terça-feira, 21 de julho de 2026

Biografias 44. O reformador

Autor desconhecido, Carl Schurz, 1889
No prolongamento do olhar do reformador, existe um mundo novo que virá. Reforma após reforma, o que era desmorona-se, e aquilo que não era ganha figura e, depois, realidade. O reformador tem uma aparência humana. Fala como os homens, anda como os homens, come como os homens, mas, na verdade, não é um ser humano. É um agente do tempo, um discípulo secreto do anjo da história. Ninguém sabe se pertence às hostes angelicais celestes ou é um anjo caído. Até hoje, os homens não descobriram se a morte do velho e a vinda do novo é uma bênção ou uma maldição. Para o reformador, é apenas uma tarefa.

domingo, 19 de julho de 2026

Câmara discreta (36)

G. Oury, Au Coin du Feu, 1903
A onda esmeralda do olhar esconde-se do desejo inquisidor da câmara. Esta recua no seu propósito e, amotinada pela nostalgia da transparência, deixa-nos ver apenas a sombra que se dirige dos olhos para o objecto de contemplação, sem que o pensamento daquela que contempla se deixe trair pelo desejo de mostrar o que nunca deve ser mostrado.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Haikai urbano (80)

Peter Turnley, La Brasserie de l'Ile St. Louis, Paris, France, 1993
 Sonhos na cidade,
cerveja, música, amor.
Rude solidão.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Sonhos de Verão 4

Otto Scharf, Eifeldorfbrücke, 1908

Raquíticos serão os possantes guerreiros,

tomados pelas convulsões do Verão.

 

A luz cintila nos cardos do Estio,

abre-os à turbina dos olhos do veraneante.

 

Lenhador sem lenha, serrador sem madeira,

fabrico no silvar do Sol o silencio do lar.

 

Julho de 2026