segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Câmara discreta (38)

Eve Arnold, A baby’s first five minutes. Mother holds her child’s hand, 1959
Onde um milagre sucedeu, a câmara oculta os rostos, oferecendo ao espectador uma imagem metonímica da ligação visceral entre mãe e bebé acabado de nascer. O pudor da ocultação da face de cada um dos intervenientes é uma abertura para o enigma que reside nessas mãos que se tocam, como se fossem ainda uma só mão, mas sendo já e definitivamente duas.

sábado, 19 de setembro de 2026

Arqueologias do espírito 43

William Turner, Interior en Petworth, 1830

Talvez aquilo que é meramente privado e singular se tenha descoberto ao mesmo tempo que a casa, o lar onde alguém se pode resguardar do espaço público e dos olhos que o habitam. Terá sido uma descoberta muito tardia na história da espécie humana. Também a vida interior terá nascido da experiência rara e fugaz de espaços fechados, onde a vida se esconde daquilo que a devassa. Também o pensamento se oculta no interior da consciência, para poder florescer como espírito que guia quem por ele quer ser guiado.
 

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Impressões 138. Caminhos rurais

Léonard Misonne, Auf der Landstrasse, 1899

Eram plácidos aqueles dias, a terra rasgava-se em caminhos que levavam de um mundo ao outro. Tudo se dissolvia na penumbra, e quem percorria as estradas rurais era tomado pelo ritmo do coração. Não se sentia personagem, nem portador de uma máscara. Caminhava apenas sobre a poeira e fazia do silêncio a sua música. E era inteiro em tudo isso.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Sonhos de Verão 12

William Turner, St. Peter's from the South, 1819

As graças dadas ao entrar na porta do paraíso,

louvores cantados nos átrios abertos ao Sul.

 

O júbilo do Verão concede a luz do espírito

às águas dos oceanos, às estrelas do Mar do Norte.

 

Aclamo o poder dos dias que se aproximam:

graça, louvor e alegria entram no silêncio de mim.

 

Setembro de 2026

domingo, 13 de setembro de 2026

Meditação breve (215) O Rei de Copas

Harold Edgerton, Bullet Cutting Through Playing Card, 1960


Ao Rei de Copas roubaram a imagem de si mesmo. Uma bala perdida levou-a e deixou o pobre monarca só e sem saber de si. As copas transformaram-se em espadas e o reino tornou-se sombrio e sem governo. Não há Rei sem um duplo de si mesmo. 

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Sonhos de Verão 11

Chaim Soutine, Fig Trees, 1920-21

As genealogias perdem-se na cruz do tempo,

mas imaculada é a que traz a eternidade no ventre.

 

Os figos do Verão chegam como um sonho

sonhado no universo crepuscular da memória.

 

Recebo a dádiva daquilo que sem nome passa,

destilo a alegria no alambique do instante.

 

Setembro de 2026

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Haikai do Viandante (447)

Gustav Klimt, The Church in Cassone, 1913
O sopro das águas
e a sombra dos ciprestes:
voz de Primavera.
 

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Micronarrativa (85) Jogar aos dados

Comte Aleksander von Tyszkiewicz, La Partie de Dés, 1899

Póquer de ases, diz o jogador, e brilham-lhe os olhos. Joga aos dados pois, perdido no nevoeira da vida, não sabe o que fazer do tempo. Não lhe interessa saber o que está em jogo. O seu desejo é ocupar as horas e tentar a deusa Fortuna. E no entanto, perca ou ganhe, é sempre a si que entrega àquele que administra, com mão de ferro, o casino deste mundo.

sábado, 5 de setembro de 2026

Signo sinal 38. Conversação

André Hambourg, La Conversation, 1929

Entre a comunicação e a conversão estabelece-se o território áspero da conversação. Trocam-se palavras para estabelecer uma comunicação entre espíritos. Por vezes, como antecâmara de uma comunhão. Contudo, as conversas mais secretas são aquelas que são o signo que abre a mente a uma conversão. Uma palavra e vêem-se as coisas como nunca até aí tinham sido vistas. 
 

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Sonhos de Verão 10

Edgar Degas, Plaza de la Concordia, 1875

Na Ágora da loucura, a sabedoria do mundo,

a vã astúcia do láudano do pensamento.

 

As praças enchem-se de palavras e as sombras

cobrem de Verão os que não se calam.

 

Cansei-me de todos os rossios e das palavras

colhidas no calor do mercado da multidão.

 

Setembro de 2026

terça-feira, 1 de setembro de 2026

A memória do ar (50)

Vicente Vela, Bodegón del aire, 1998
O ar é uma natureza morta, suave como um arquipélago do Sul, ameaçador como a escuridão na floresta, benigno quando se deixa prender em longos haustos nos corpos vivos, que dele extraem a roda da existência e a oblíqua memória do vazio.