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| Alfred Eisenstaedt, View of Midtown Manhattan. Circa 1939 |
segunda-feira, 30 de março de 2026
A memória do ar (47)
A gramática aérea é a mais inquietante das gramáticas. A sua sintaxe é imprevisível, pois todas as combinações são possíveis. Não tem sequer modelos que permitam perceber a regra e o desvio. Da morfologia, existem desconsoladoras alusões, pois ninguém sabe como se formam as suas palavras, nem que classes as ordenam. Sopros, murmúrios, rumores, sonoridades esquivas formam uma fonética sem rumo previsível nem origem conhecida.
sábado, 28 de março de 2026
A sombra da água (47)
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| Charles Job, Drifting, 1907 |
A água é como um espírito oblíquo. Enviesa o olhar para que as sombras poisem sobre ela, alimentando-a com uma vagarosa exaltação. Corre sem pressa, transportando os sonhos que não sonhou. Cansada, repousa trémula quando a noite se abre no horizonte. Sabe o seu destino, pois de onde veio ali voltará, num eterno retorno determinado pela natureza do espírito que a habita.
terça-feira, 24 de março de 2026
Geometrias de fogo (47)
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| Andrew Dasburg, Chantet Lane (1926) |
Uma alameda de árvores em fogo. Não o fogo que consome e a tudo reduz a cinzas, mas o incêndio que nasce do desejo e se espalha desde as raízes até aos ramos. As árvores também desejam. Desejam a luz do dia e o calor das longas tardes de Verão. Então metamorfoseiam-se e chamam os raios solares com a cor das suas folhas, certas que a oferenda chegará e elas continuarão a ser quem são.
sábado, 21 de março de 2026
Ecos da Primavera 1
quinta-feira, 19 de março de 2026
O Espírito da Terra (47)
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| Vincent van Gogh, Casa de campo con árboles, 1885 |
Sob o vermelho do céu ao crepúsculo, a terra prepara-se para adormecer. O seu espírito vacila entre o sono e a vigília, mas já um sonho dela se desprende, para se elevar à morada dos imortais. Espera-o o silêncio dos grandes acontecimentos, o cenário onde todas as viagens se tornam possíveis.
terça-feira, 17 de março de 2026
Biografias 42. A mulher-arbusto
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| Imogen Cunningham - Dream Walking, 1968 |
Não chegara ainda aos 20 anos quando, numa visão que nunca conseguiu explicar, lhe foi comunicado que a dor que a habitava nascia da sua falta de enraizamento. Sem raízes, ouviu na intimidade do coração, nenhum lugar será o teu lugar, nenhum lar será a morada onde descansarás dos trabalhos e dos dias. Então, ela procurou o sítio onde lançaria raízes. Por um acaso, encontrou-o numa floresta. Escolheu uma clareira e ali permaneceu noite e dia, até que percebeu que os seus pés se prolongavam por dentro da terra e que ela pertencia ali. A surpresa maior, porém, foi quando viu que do seu corpo nascia uma ramagem que o vento embalava. Dos ramos, nasceram-lhe folhas. Era um arbusto e todas as Primaveras florescia. Encontrara as suas raízes.
domingo, 15 de março de 2026
Câmara discreta (34)
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| Edward Steichen, Portrait, 1905 |
As sombras confluem sobre o rosto, desenham uma silhueta onde a vida e a morte se escondem. Presa nessa máscara tecida pela retirada da luz, a mulher deixa os mais secretos pensamento chegar aos olhos, pois não haverá quem consiga lê-los e descobrir o texto que ali se escreve. Nem a dor nem a alegria, nem o desejo nem o cansaço fendem a muralha anunciadora da noite. Tudo é ocultação, um secreto exercício, a marca de um ser que esboça a representação do seu apagamento.
sexta-feira, 13 de março de 2026
Viagem de Inverno 12
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| Manuel Filipe, Inverno-Primavera , 1978 (Gulbenkian) |
Nuvens no céu tecem-me a nostalgia
do corpo mergulhado na poeira do calor.
Virá o espírito na opulência da oliveira
e derramará perfumes do Líbano.
O Inverno soletra as últimas palavras.
A voz do tempo abre-se ao júbilo da alvorada.
Março de 2026
quarta-feira, 11 de março de 2026
Arqueologias do espírito 39
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| Anónimo Bizantino, Pentecostes, 1537 |
Foi uma longa caminhada dos homens até chegarem a Pentecostes e encontrarem no vento impetuoso e nas línguas de fogo a manifestação do espírito. Ao longo de milénios, espantadas pela voz do vento e fascinados pela ondulação do fogo, as suas mentes, no segredo do não dito, foram construindo um porto sem nome. Chegada a hora, o vento que varre e o fogo que queima abriram uma clareira. Nela, aquilo que era particular, pelo dom das línguas, tornou-se universal, e o que era ignorância, sabedoria. O vento varreu o particular e descobriu o comum. O fogo queimou a ignorância e desvelou o sentido. O espírito encontrara o porto que o esperava.
segunda-feira, 9 de março de 2026
Impressões 134. Um olhar
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| William Henry Jackson, El Capitan, Yosemite, 1889 |
É um lugar de água ou de sombra. A névoa do mundo dança na música do silêncio. Os olhos abrem-se e, sobre eles, cai um exército de impressões, mensagens de luz que rompem a cerca da escuridão e alumiam, com a sílaba da cintilação, a trémula voracidade do espírito.
sexta-feira, 6 de março de 2026
Viagem de Inverno 11
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| Miguel Flávio, A cidade ao pôr-do-sol, 1967 (Gulbenkian) |
O corpo solicita-me a erva das ruas
e o saibro ígneo do entardecer.
A parábola dos vinhateiros abre um tonel
de sangue no caminho da inocência.
O mundo respira sob o saibro das ervas
o vinho da morte e o vítreo vento das glicínias.
Março de 2026
quarta-feira, 4 de março de 2026
Meditação breve (211) O gato
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| Oskar Kokoschka, Amantes con gato, 1917 |
Entre os amantes, o amor cedeu ao cansaço, e na luz do hábito o desejo ensombreceu. Então veio o gato, e cada amante passou a amar o talento do felino. E o amor ao animal era tanto que o cansaço e o hábito foram esquecidos. Não era a velha paixão, mas um amor comum que transbordava para o império dos seus corpos.
segunda-feira, 2 de março de 2026
Viagem de Inverno 10
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