terça-feira, 26 de julho de 2011

O autor e a obra (2)

O que Paul Ricœur vai sublinhar na sua hermenêutica é a objectividade da obra artística. O que está em jogo não é, como o pensava a hermenêutica e a literatura românticas, a apreensão do génio do autor, mas aquilo que ele chama o mundo da obra. A tese está escorada na ideia de autonomia do texto. Contrariamente a um acto da linguagem falada, o qual está suspenso das condições imediatas da sua produção, as obras escritas autonomizam-se do autor, da sua intenção, inclusive da sua interpretação. A leitura não será então uma forma de encontrar a intenção do autor, mas um processo de decifração do mundo que a obra transporta. Neste mundo haverá, por certo, muito do autor. As suas intenções, a sua cosmovisão, os seus aspectos ideológicos. Mas não é isso o fundamental. O fundamental é o universo proposto ao leitor, através do agenciamento artístico, e o confronto entre os universos da obra e desse leitor. A questão tornar-se-á mais interessante se recolocarmos o conceito de obra numa outra perspectiva. A obra será o suporte não de um mundo mas de um espírito. Entrelaçado à materialidade verbal e técnica da literatura está um dado espírito que se dirige ao espírito do leitor e o confronta. O corpo a corpo, em toda a sua materialidade, que o leitor trava com o romance, o poema, etc. inclui também um, digamos assim, um espírito a espírito, um confronto de espiritualidades. Também a sexualidade é um corpo a corpo, mas o seu fulgor resulta da presença do espírito nessa presença do corpo à alteridade do corpo do outro. A contiguidade dos corpos, assente na dinâmica do desejo, suporta a comunhão dos espíritos. Esta analogia permite compreender a literatura. Mas estamos perante uma analogia e não de processos idênticos. O corpo do leitor confronta-se com o corpo do livro, com a sua materialidade, e não com o corpo do autor. A literatura só existe nessa suspensão do contacto real. Essa suspensão não visa desviar ou transferir o desejo do leitor do corpo do autor para o corpo da obra, nem sequer sublimá-lo. Visa, outrossim, criar o espaço para um novo desejo, um espaço para uma outra emergência de eros. O deus manifesta-se agora em novas formas de desejar, de um desejo que se consuma na comunhão dos espíritos. Deste ponto de vista, as obras literárias, bem como as obras das outras esferas artísticas e, porventura, as da filosofia e da ciência, visam uma eclésia, uma comunhão geral dos espíritos, de espíritos que encontram na obra os motivos, mesmo os símbolos, para o seu reconhecimento.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Poemas do Viandante

 183. INCÊNDIO


a exaltação tardia
dos campos
trazia uma aragem
sobre o rumor
dos teus passos


ias e vinhas
e o meu coração
vivia pobre e incerto
à espera da noite
para incendiar
o pequeno rio
onde nascia
o amor

O autor e a obra (1)

Como olhar para a relação entre autor e obra (poema, romance, tragédia, sinfonia, quator, quadro, escultura, etc.)? Assiste-se, após a retórica da morte do autor, a uma certa recuperação da autoria e da situação do autor na leitura das obras e na sua compreensão. A relação entre autor e obra é equívoca e remete para duas ordens de discurso que não pertencem ao jogo da linguagem artística.

Em primeiro lugar, envia-nos para um questionamento jurídico. A quem imputar aquela obra? Por que razões a produziu? Como determinada idiossincrasia do autor se reflecte ali? O inquérito faz parte assim de um processo que está em julgamento e sobre o qual se deve pronunciar uma sentença. A obra de arte é então, se não a prova de um crime, o vestígio deixado pelo delinquente. A natureza processional e jurídica da intromissão do autor fica bem à vista.

Em segundo lugar, a relação autor – obra coloca-nos perante o discurso médico. A obra não é apenas o vestígio de uma delinquência mas o sintoma de uma dada configuração psicológica ou, melhor, biopsicológica. A partir da leitura das obras de um autor, supostamente, poderei traçar, na conjunção de Nietzsche com a psicanálise, uma leitura das forças vitais e dos processos recalcados de um autor. Força vital e recalcamento psíquico significam trazer para a questão da arte os problemas da patologia e do discurso médico

Introduzir o autor na questão da obra de arte significa, antes do mais, reduzi-la às dimensões do vestígio e do sintoma. O corolário é fácil de observar: os inquéritos que se abrem nada têm a ver com a experiência estética e com o confronto, o corpo a corpo, entre o leitor e a obra.

domingo, 17 de julho de 2011

Poemas do Viandante

182. DÁDIVA

dá-me essa tristeza
sem nome
uma rua de pedras gastas
e a brancura da pele
no sublime dia
dos vinte anos

dá-me a penumbra
onde arde ainda
aquela fogueira
que a noite ateava
no desamparo
dos teus olhos

sábado, 16 de julho de 2011

Poemas do Viandante

181. ESPERANÇA

não esperar de deus
os dias de luz
a radiosa montanha
onde o pássaro
canta

não esperar de deus
a ventura da tarde
ou um sinal breve
na cruz erguida
no caminho

não esperar de deus
o vento suave
na sombra da árvore
a água fria
que a sede pede

não esperar de deus
e ir pela estrada
vazio e louco
seguindo-o no fundo
deste nada

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Poemas do Viandante

180. ESQUECIMENTO

o vasto incêndio
sobre o abismo
as flores secas
pelo cansaço
a pressa
que me toca

não tenho posteridade
nem quem
de mim se lembre
quando o vento
descer da serra
e tudo cantar
ao entardecer

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Poemas do Viandante

179. PROMESSA

a luz do meio-dia cai
sobre a floresta
de casas sombrias
vem do abismo
sem nome
e traz no seio
o rumor da saudade
a promessa de nuvens
na remota
e branca fímbria
com que debrua
o mar

terça-feira, 12 de julho de 2011

Poemas do viandante

178. DESAGRADO

isso que te desagrada
a conversa inútil
sobre o passar
dos dias
as mãos vazias
vindas em sussurro
o chegar agosto
e o sol que despeja
a alma
e abre o corpo
para a sede

o que te desagrada
não é isso
mas o andar frívolo
com que caminho
o silêncio quebrado
para não ouvir
o grito esquecido
sobre a ponte
o sino rasgado
sem as trindades
da infância

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Poemas do viandante

177. DISTÂNCIA

o brusco olhar
sobre a montanha
a água escorre
fragas penedos
um relâmpago
fende a neve
abre a brancura
ao chumbo
ao peso da ira
ao grito consentido
pela distância
do céu à terra
a ergues

domingo, 10 de julho de 2011

Poemas do viandante

176. O SENHOR


não é vã
a palavra
dita
sobre o rio
a água corre
uma ave canta
e o senhor
deixa vir
as nuvens
esconder a luz
do seu
calor

sábado, 9 de julho de 2011

Poemas do Viandante

175. ANJOS

os anjos
que descem
pela tarde
trazem
luz de pedra
no dia brando
que o corpo
encerra

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Poemas do Viandante

174. CAMPOS DE VERÃO

a essa distância
entre mar e água
entre a rosa
e o sombrio coração
tudo fica mais claro

os dias de julho
as buganvílias
o odor da terra
ferido pelo voo
de um pássaro

se abrires os olhos
e os cabelos voarem
ao vento
deixa o fogo apascentar
os campos de verão
 

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Teoria da leitura

Há aquela velha polémica de Platão contra a escrita, contra os livros, contra o silêncio ostensivo com que respondem se forem interrogados sobre o que pretendem significar. O enigma, porém, está do lado de Platão e não dos livros. Por que razão terá escrito tanto? Não é verdade que os livros, no seu silêncio, não respondam. Os livros são um corpo silencioso nas mãos do leitor, e como um corpo precisam de ser tacteados lenta e suavemente, precisam de ser tocados para se abrirem e deixarem ouvir a voz reservada que trazem dentro de si. Ler é um corpo a corpo, um jogo em que as peles se tocam para os espíritos se fundirem. Há porém livros tão especiais, pelo espírito que anunciam, que o leitor se mantém na distância a que se convencionou dar o nome de respeito. Fico sempre perplexo quando vejo alguém excessivamente jovem com certos livros na mão. A profundidade de algumas obras não se compadece com os verdes anos. O respeito, contudo, não é sintoma de ausência de desejo, de falta de vontade de abrir o livro, de o tactear, de deixar correr o corpo que lê pelas páginas que se dão à leitura. O respeito é apenas o sinal de reverência pelo mistério que se pressagia, o sintoma do apreço pela luz que emana do espírito que o corpo do livro suporta. Talvez o respeito esteja ligado ao kairos, esse tempo oportuno que desce do espírito e toca os corpos, que vem do céu para iluminar a terra. O mundo vive um singular paradoxo relativamente à leitura. Ler tornou-se um imperativo generalizado, um indicador de desenvolvimento, um programa de acção. Mas a relação entre leitor e livro não é da ordem da moral, nem da economia ou da política. É uma relação presidida por esse estranho deus a que os gregos deram o nome de eros. O culto do deus – um deus impetuoso e intempestivo – exige essa especial reverência com que um corpo se deve abrir a outro, com que um espírito se funde noutro, com que um leitor se entrega nas mãos de um livro, com que certos livros se abrem para a leitura.

Poemas do Viandante

173. VERDADE

os dias ainda
parecem longos
a nuvem de calor
cobre-os
cola-se à paisagem
adormece
em sobressalto na noite

a verdade
– o corpo que espera
o tremor destes dedos –
canta
agora uma ave
um anjo inocente
a queda da luz
na planície
da solidão

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Poemas do Viandante

172. SONHOS

as coisas simples
presas nos escombros da vida
– flores secas
cadeiras de lona
o velho ringue
vindo do tempo da infância –
renascem entre sonhos

a noite inquieta
os traz consigo
nos dias longos
de um verão sedento
e sôfrego
e ávido
de sombra e mar
 

terça-feira, 21 de junho de 2011

Poemas do Viandante

171. CANTO

a dorida tarde
poisa a mão
sobre o súbito
ondular
do teu ventre

e um canto
de alvoroço
vem dessa boca
soprar fogo e luz
no baldio âmbar
do coração

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Poemas do Viandante

170. MANHÃ


a onda fria vem
toca-te
abre-te
pétala soprada
rosa pura
pura e leve


tão leve
o tremor
sobre o mar
tão leve
a flor
ao vento
tão leve
a névoa
ao cantar


tão pura
a manhã
desenhada
em teus lábios
esperando luz
e tormento


sábado, 4 de junho de 2011

Poemas do Viandante

169. MEMÓRIA
 

frágil como
o voo de um pássaro
a memória
anseia a penumbra
na casa breve
em que um corpo
por outro
em desassossego
espera


sábado, 28 de maio de 2011

Incomodidade e verdade

Volte-se à temática do post anterior, à questão da suspensão da acção. Se recupero uma imagem global da minha vida, constato que, apesar do envolvimento num certo número de actividades e de projectos, a acção sempre me pareceu estranha e contrária à minha índole, algo que, de certa forma, me fazia sofrer. Não é uma dor forte, antes uma incomodidade. O agir é a inscrição de objectivos interiores na exterioridade, no curso do mundo. Não é apenas o incómodo pessoal, mas o incómodo que a minha presença no mundo pode causar aos outros. Daqui a instantes (cerca de duas horas) irei lançar um livro, um conjunto de crónicas escritas em jornal de província, mas esse acto de lançamento é-me completamente estranho, sinto-o como se quisesse impor algo a alguém. A minha expectativa, que por certo será confirmada, será que não haverá grande razão para a incomodidade, devido à mais que provável ausência de público. Mas o simples acto social de chamar pessoas para lhes anunciar algo de meu gera incomodidade. O enigma para mim reside na origem e na verdade desta incomodidade.

Hipnose

Há uma linha de continuidade que perpassa por toda a vida. Muito cedo descobri um certo prazer em observar o escoar do tempo, de um tempo necessário à realização de uma tarefa, de um dever, de qualquer coisa que o mundo requeria de mim. Não fazer o que se exigia ou exige, mas interpor entre mim e a tarefa um espaço hipnótico, espaço que salta para dentro do corpo, se apossa da vontade e suspende toda e qualquer acção. Quantas vezes me perguntei se haveria em mim uma vocação contemplativa ou se não sofreria de uma patologia? O ver o tempo escoar, o deixar-se seduzir por irrelevâncias, o estreitar até à angústia a possibilidade de realizar um certa tarefa, tudo isto não será um sintoma patológico? Se aprofundo a arqueologia, descubro no início da escolaridade esse processo, esse estar fora da corrente da vida, descubro a sua natureza hipnótica. Compreendo, também, que ele se manteve inalterado desde esses tempos. Ao pensar agora sobre o assunto, parece-me claro que o processo já deveria ser anterior, bem anterior, ao início da escolaridade, tendo-se apenas manifestado aí devido a esse ser o momento onde o tempo, através da figura dos deveres a realizar, toma forma perante o espírito. Não se trata de pura procrastinação, pois nesta ainda está presente a intencionalidade de realizar a acção, embora mais à frente. O que sinto, porém, é um estranhamento perante aquilo que há que fazer. Esse estranhamento depressa se transforma em indiferença. O resultado é deveras extraordinário. Se há um momento no processo onde o espírito se sente angustiado pela não realização do que haveria a realizar, a verdade é que o resultado final, a não consumação das tarefas, a não realização de um objectivo, nunca gerou em mim qualquer sentimento de culpa, nem qualquer tendência depressiva. Apenas incomodidade, mais perante os outros que perante mim. Na realidade, esses imperativos que a vida impõe nunca se transformaram, efectivamente, em imperativos íntimos. A clivagem entre a intimidade e a exterioridade, coisa muito menos comum do que se supõe, criou em mim um espaço hipnótico que tende a anular a acção e talvez seja um perigo para o espírito contemplativo. Pior, e se o meu anseio contemplativo não passa de uma ilusão?