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terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O peso da palavra

Max Ernst - A primeira palavra límpida (1923)

Naquele tempo, Jesus falou assim à multidão e aos seus discípulos: «Os doutores da Lei e os fariseus instalaram-se na cátedra de Moisés. Fazei, pois, e observai tudo o que eles disserem, mas não imiteis as suas obras, pois eles dizem e não fazem. Atam fardos pesados e insuportáveis e colocam-nos aos ombros dos outros, mas eles não põem nem um dedo para os deslocar. Tudo o que fazem é com o fim de se tornarem notados pelos homens. Por isso, alargam as filactérias e alongam as orlas dos seus mantos. Gostam de ocupar o primeiro lugar nos banquetes e os primeiros assentos nas sinagogas. Gostam das saudações nas praças públicas e de serem chamados 'mestres’ pelos homens. Quanto a vós, não vos deixeis tratar por 'mestres’, pois um só é o vosso Mestre, e vós sois todos irmãos. E, na terra, a ninguém chameis 'Pai’, porque um só é o vosso 'Pai’: aquele que está no Céu. Nem permitais que vos tratem por 'doutores’, porque um só é o vosso 'Doutor’: Cristo. O maior de entre vós será o vosso servo. Quem se exaltar será humilhado e quem se humilhar será exaltado. (Mateus 23,1-12) [Comentário extraído das Sentenças dos Padres do Deserto aqui]

O texto de Mateus, em muitos dos comentários que sobre ele são feitos, parece ter como centro temático a questão da humildade, a crítica ao desejo de exaltação orgulhosa de si mesmo. Contudo, a tensão entre humildade e orgulho é, na orgânica textual, apenas derivada. Não é ela que surge em primeiro lugar, mas emerge como consequência de uma outra temática mais fundamental.

Essa temática é a da autenticidade, a qual se funda num problema relacionado com o estatuto do discurso de fariseus e doutores da lei. Este discurso tem uma relação ambígua com a verdade. Do ponto de vista do conteúdo, o discurso é verdadeiro, está de acordo com a instância de veridicção autorizada, a qual é simbolizada pela expressão “cátedra de Moisés”. O que fariseus e doutores da lei dizem inscreve-se na verdade da tradição mosaica, por isso deve ser feito e observado.

O problema é que a verdade, no caso de fariseus e doutores da lei, não tomou corpo e não se inscreveu no curso do mundo através da acção. Tornou-se numa abstracção, em letra morta, em exercício de vanglória ou em exaltação da razão erudita. Logos e praxis, verbo e acção, razão teórica e razão prática não coincidem. A inautenticidade reside nesta não coincidência.

As várias figuras que no texto retratam o orgulho ou a exaltação encontram a sua raiz na inautenticidade. Só a partir daqui poderemos compreender o que são a humilhação e a conduta humilde. A humilhação é a tarefa de recuperação da autenticidade, e a humildade é a conduta autêntica. Isto significa fazer coincidir a palavra e a acção, recuperar a integralidade de si-mesmo, ao praticar a palavra que se profere. Palavra que fariseus e doutores da lei tinham rompido, ao descarregar de si mesmos o peso deontológico que ela transporta consigo.

domingo, 3 de maio de 2009

Liberdade

O espírito dispersa-se nos afazeres quotidianos, mas isto é apenas o sinal de um espírito ainda incapaz da liberdade. Que entender por liberdade aqui? Talvez um fazer como se não estivesse fazendo, um fazer desapegado e, ao mesmo tempo, atento ao que se faz e à fonte de onde jorra essa liberdade. O sentimento amargo de que, com as tarefas que o dever impõe, estamos a perder tempo, um tempo essencial, é ainda a ilusão de um espírito que se deixa prender nas artimanhas do eu. Fazer como se não se esperasse nada. Estar plenamente nesse fazer como na ausência do fazer. Mas o meu espírito ainda é incapaz de tal liberdade. A amargura é o sintoma dessa impotência e o sinal de que se está ainda demasiado preso ao mundo.