sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O fogo

Paul Serusier - The Fire Outside (1893)

Vinham todos os sábados. Um bloco de rocha servia mesa, talvez de altar. A primeira juntava lenha e ateava o fogo. Uma segunda trazia uma antiga panela de tripé e colocava-a sobre o fogo. Depois, vinham as outras, em procissão. O número era variável, mas nunca menos que uma vintena. Chegavam silenciosas, de olhar mortiço. Rodeavam o fogo, olhavam-no intensamente. Chegada a hora estendiam um prato vazio e as primeiras serviam-lhe a comida. Comiam e fitavam o fogo. Nunca uma palavra era dita. Acabada a refeição, iam-se embora como tinham chegado. Os olhos eram então um fogo insaciável.