sábado, 7 de novembro de 2015

Um ofício sem fim

Salvador Dali - Voyeur (1921)

Mulheres que se despem, casais movidos pelo desejo e que se abraçam como se a morte os espreitasse, nada disso o interessava. Deixava-se ficar não porque estivesse interessado nos múltiplos espectáculos que a vida dos homens lhe traziam, mas porque estar ali fazia parte do ofício. Um café forte e quente iluminava-lhe a alma e deixava-o a meditar naqueles corpos que, no descuido da noite, se ofereciam à sua visão. Seria um voyeur? Claro que não. Por vezes dormitava e, quando a temperatura descia, acordava. Apesar da sua fama, sempre odiara o frio. E lá estavam as mesmas mulheres a despirem-se, os mesmos casais a abraçarem-se, a mesma agonia perante a morte. Olhava. Teria de escolher alguém. Também ele tinha livre-arbítrio. No seu olhar não havia desejo mas apenas o tédio de uma missão cumprida uma e outra vez, numa repetição sem fim.