terça-feira, 22 de novembro de 2016

A voz

Giovanni Boldini - La Cantante Mondane (c. 1884)

O público estava em êxtase, preso naquela voz, como se só ela existisse. A diva, porém, tinha o ar de quem já não podia ver o pianista e assustava-se até com a própria voz. Olhava as pessoas como se formassem um bando de harpias e tremia. Por vezes, parecia suspender o canto, emudecer, mas não. O que me espantou foi ninguém ter dado por nada quando o corpo dela ficou hirto. Depois estremeceu e começou a apagar-se. Primeiro, perdeu os contornos, a seguir tornou-se uma sombra, uma névoa e, por fim, desapareceu. Só a voz persistiu, mais bela que nunca, enlouquecendo quem a ouvia.