terça-feira, 29 de setembro de 2026

Geometrias de fogo (51)

Gregorio Prieto, Aranjuez, 1918-1919

Para lá das chamas e das labaredas, das danças inquietantes movidas pelo vento, o fogo ainda é cor, um rasto de tonalidades que repousam sobre o arvoredo, os campos e o casario. Ali, ele repousa da vida árdua que é sua e sonha longamente com a eternidade.

domingo, 27 de setembro de 2026

O Espírito da Terra (51)

James Leon Williams, Brushing with Hasty Steps the Dews Away, 1891

Só quem passeia com demora pode escutar o murmúrio do espírito da terra. Passos apressados ocultam o rumor que se desprende do solo, escondem as palavras que sobem em direcção ao céu e matam a sabedoria que o apressado caminhante podia adquirir. O espírito exige a lentidão para nela viver e se manifestar, ali mesmo onde o silêncio se abra para os primeiros e definitivos sons.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Biografias 46. O leiteiro

Hans Baumgartner, Der Milchmann. Zürich, 1938

Enquanto as crianças se purificam na espera matinal, o leiteiro empurra o seu carro pelas ruas da cidade. Traz com ele a pacificação de uma fome sem nome, a brancura que se derrama em bocas expectantes, um milagre para quem habita o vazio das grandes cidades. Mulheres sem rosto esperam a sua chegada e as portas de casas inconstantes abrem-se à voz daquele que distribui esse leite que fará o delírio de alguns e o tormento de outros. O homem do leite, porém, não pensa em prazeres ou dores, mas no carro que deve empurrar com a força dos braços. É um exercício solitário trasformado num espectáculo para transeuntes distraídos. Caminha. Empurra. Vai de casa em casa, como um marinheiro transita entre portos. Contudo, a presse move-o, e em lugar algum encontra porto de abrigo.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Lugares de Outono 1

Gustav Klimt, Avenue in the Park of Krammer Castle, 1912
 

Descubro a casa de Outono,

as sombras rudes e rápidas,

as águas soltas do rio,

paisagens, aves, silêncios.

 

O tempo força-me a noite,

esconde o mar na memória,

lugares vivos, a cinza

tão triste, a seda dos mortos.

 

Um tordo canta no bosque,

procura o lume na encosta

voltada ao silvo do Sul.

 

O tempo é uma nuvem

sem nome, luz que balança

na espada vil da partida.

 

Setembro de 2026

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Câmara discreta (38)

Eve Arnold, A baby’s first five minutes. Mother holds her child’s hand, 1959
Onde um milagre sucedeu, a câmara oculta os rostos, oferecendo ao espectador uma imagem metonímica da ligação visceral entre mãe e bebé acabado de nascer. O pudor da ocultação da face de cada um dos intervenientes é uma abertura para o enigma que reside nessas mãos que se tocam, como se fossem ainda uma só mão, mas sendo já e definitivamente duas.

sábado, 19 de setembro de 2026

Arqueologias do espírito 43

William Turner, Interior en Petworth, 1830

Talvez aquilo que é meramente privado e singular se tenha descoberto ao mesmo tempo que a casa, o lar onde alguém se pode resguardar do espaço público e dos olhos que o habitam. Terá sido uma descoberta muito tardia na história da espécie humana. Também a vida interior terá nascido da experiência rara e fugaz de espaços fechados, onde a vida se esconde daquilo que a devassa. Também o pensamento se oculta no interior da consciência, para poder florescer como espírito que guia quem por ele quer ser guiado.
 

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Impressões 138. Caminhos rurais

Léonard Misonne, Auf der Landstrasse, 1899

Eram plácidos aqueles dias, a terra rasgava-se em caminhos que levavam de um mundo ao outro. Tudo se dissolvia na penumbra, e quem percorria as estradas rurais era tomado pelo ritmo do coração. Não se sentia personagem, nem portador de uma máscara. Caminhava apenas sobre a poeira e fazia do silêncio a sua música. E era inteiro em tudo isso.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Sonhos de Verão 12

William Turner, St. Peter's from the South, 1819

As graças dadas ao entrar na porta do paraíso,

louvores cantados nos átrios abertos ao Sul.

 

O júbilo do Verão concede a luz do espírito

às águas dos oceanos, às estrelas do Mar do Norte.

 

Aclamo o poder dos dias que se aproximam:

graça, louvor e alegria entram no silêncio de mim.

 

Setembro de 2026

domingo, 13 de setembro de 2026

Meditação breve (215) O Rei de Copas

Harold Edgerton, Bullet Cutting Through Playing Card, 1960


Ao Rei de Copas roubaram a imagem de si mesmo. Uma bala perdida levou-a e deixou o pobre monarca só e sem saber de si. As copas transformaram-se em espadas e o reino tornou-se sombrio e sem governo. Não há Rei sem um duplo de si mesmo. 

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Sonhos de Verão 11

Chaim Soutine, Fig Trees, 1920-21

As genealogias perdem-se na cruz do tempo,

mas imaculada é a que traz a eternidade no ventre.

 

Os figos do Verão chegam como um sonho

sonhado no universo crepuscular da memória.

 

Recebo a dádiva daquilo que sem nome passa,

destilo a alegria no alambique do instante.

 

Setembro de 2026

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Haikai do Viandante (447)

Gustav Klimt, The Church in Cassone, 1913
O sopro das águas
e a sombra dos ciprestes:
voz de Primavera.
 

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Micronarrativa (85) Jogar aos dados

Comte Aleksander von Tyszkiewicz, La Partie de Dés, 1899

Póquer de ases, diz o jogador, e brilham-lhe os olhos. Joga aos dados pois, perdido no nevoeira da vida, não sabe o que fazer do tempo. Não lhe interessa saber o que está em jogo. O seu desejo é ocupar as horas e tentar a deusa Fortuna. E no entanto, perca ou ganhe, é sempre a si que entrega àquele que administra, com mão de ferro, o casino deste mundo.

sábado, 5 de setembro de 2026

Signo sinal 38. Conversação

André Hambourg, La Conversation, 1929

Entre a comunicação e a conversão estabelece-se o território áspero da conversação. Trocam-se palavras para estabelecer uma comunicação entre espíritos. Por vezes, como antecâmara de uma comunhão. Contudo, as conversas mais secretas são aquelas que são o signo que abre a mente a uma conversão. Uma palavra e vêem-se as coisas como nunca até aí tinham sido vistas. 
 

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Sonhos de Verão 10

Edgar Degas, Plaza de la Concordia, 1875

Na Ágora da loucura, a sabedoria do mundo,

a vã astúcia do láudano do pensamento.

 

As praças enchem-se de palavras e as sombras

cobrem de Verão os que não se calam.

 

Cansei-me de todos os rossios e das palavras

colhidas no calor do mercado da multidão.

 

Setembro de 2026

terça-feira, 1 de setembro de 2026

A memória do ar (50)

Vicente Vela, Bodegón del aire, 1998
O ar é uma natureza morta, suave como um arquipélago do Sul, ameaçador como a escuridão na floresta, benigno quando se deixa prender em longos haustos nos corpos vivos, que dele extraem a roda da existência e a oblíqua memória do vazio. 

domingo, 30 de agosto de 2026

A sombra da água (50)

John Constable, Brighton beach with colliers. 1824
A água é sempre uma ameaça de desordem, a secreta trama onde se segrega o tremor do mundo e o temor dos homens. Uma borbulha de azul sobre a terra, um espelho de aço sob os céus. Se o sol a toca, resplandece, como se tecesse uma armadilha onde os incautos mergulharão em busca da púrpura perdida. 

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Geometrias de fogo (50)

Ernest Biéler, L'Automne et le Vin, 1917
O vinho é o fogo trazido pelo Outono. Por ele iluminados, os corpos ardem em labaredas de segredo e mistério, entregam-se aos cânticos de eros e, arrastados pelas chamas líquidas, dançam a primeira e a última das danças, a que une o prazer e a dor, o desejo e a saciedade, a vida e a morte.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Sonhos de Verão 9

Urgell Inglada, Tempestad

O ardil dos sepulcros caiados ecoa

a beleza fabricada na cárie da hipocrisia.

 

Também o Verão soçobra na ira

trazida pelo furúnculo da tempestade.

 

Contemplo os elementos desavindos

e recito uma velha ode ao dia tormentoso.


Agosto de 2026

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

O Espírito da Terra (50)

P. H. Emerson, A Winter’s Sunrise, Marsh Leaves, 1895

É nas horas de maior abandono que a terra se abre para deixar o seu espírito flutuar, cobrindo-se com o linho fresco da névoa, libertando o rude odor das coisas decisivas. 

sábado, 22 de agosto de 2026

Biografias 45. O actor

Napoléon Sarony - Edwin Booth as Richelieu, 1891

Uma vida de metamorfoses. Ontem Hamlet, hoje Richelieu, amanhã, de novo, Hamlet. Aos poucos esqueço-me de mim, do nome que me deram, daquele que me dava, em pequeno, ao olhar o espelho. Prossigo o caminho entre figuras vazias, entre criações da imaginação e fantasmas de mortos que o tempo teima em não esquecer. No palco, sou qualquer um. Fora dele, sou ninguém. Espero a morte para, perante o Juiz Supremo, descobrir quem sou. 

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Câmara discreta (37)

Frederick Sommer, Untitled (Nude out of focus), 1962
A sombra cresce numa sortida esquiva e abre a massa do corpo ao mistério. Onde tudo cintilaria, cegando o espectador com o poder da nudez, a câmara lança, ao desfocar-se, um véu de segredo e fantasia. Então, o corpo fotografado retoma o seu talento originário: ocultar-se para se tornar desejado.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Sonhos de Verão 8

Vincent Van Gogh, Barcas de pesca cerca de Saintes-Maries, 1888

Brandirão a espada sobre a luz da tarde

e o esplendor dos teus olhos navegará para longe.

 

Uma traineira arrasta nas suas redes o Verão,

a cintilação do Sol nas águas paradas do porto.

 

Resguardo-me na escuna da ventania,

navego o azul do mar em direcção à luz do Sol.


Agosto de 2026

domingo, 16 de agosto de 2026

Pintura e haikus (50)

Ana Peters, Azul prusi, 1993

Um azul da Prússia
no silêncio do oceano.
O céu de Verão.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Arqueologias do espírito 42

Felix Vallotton, Le Vent, 1910

Perante o indomável arbítrio do vento, os homens sentiram a presença de uma autonomia nunca subjugável e de uma liberdade que necessidade alguma limitava. Ele sopra de onde quer e para onde quer. Essa força, porém, também a encontraram em si mesmos, no mais íntimo de si. Neles também existe um vento que sopra não sabem de onde, nem para onde os quer levar. Chamaram espírito a essa liberdade que age dentro de cada um. Perante ele, sentem temor e tremor. Aquela liberdade parece-lhes uma deusa caprichosa e irrefreável.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Impressões 137. No jardim

Paul Klee, A garden for Orpheus, 1926

No Jardim dos Mil Segredos, as cores são sons que crescem e decrescem segundo uma ordem secreta. Árvores, grandes composições musicais, e as rosas nascem como as canções breves da Primavera. E tudo se reúne na brancura que se solta da lira do triste Orfeu.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Meditação breve (214) No cais

Franz Goerke, Auf der Mole in Allinge, 1898

No cais, há três espécies de pessoas, para além daquelas que ali exercem o ofício. As que chegam, as que partem e as que ali vão para ver quem chega e quem parte. A estas leva-as a curiosidade e um amor desmedido à contabilidade. Quem chega é creditado e quem parte é debitado. No fim do dia, a diferença entre o deve e o haver indica ganhos ou perdas sofridos por quem se deixa arrastar pelo secreto vício da indiscrição.

sábado, 8 de agosto de 2026

Sonhos de Verão 7

Juan González Alacreu, Contraluz

Da geração incrédula e perversa, não há memória,

mas a voz compassiva curou a criança lunática.

 

Agosto estende as suas redes sobre o azul do mar,

e um grão de mostarda traz um zéfiro pela terra.

 

Sentado à sombra, debito o rol de milagres,

faço-os nascer de um verbo vazio, iluminam a luz.

 

Agosto de 2026

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Micronarrativa (84) Velas brancas

Georges Robard, Départ matinal de Régates, 1890

Levantava-se cedo, uma ânsia inexplicável levava-o ali. Não era o desejo de competir num daqueles barcos, nem o sonho de, um dia, partir num deles para uma viagem. A brancura das velas fascinava-o. Olhava-as intensamente e pensava em si mesmo, na sua consciência, na sua alma. Será que em mim haverá aquela brancura? Para a pergunta não encontrava resposta e isso prendia-o mais aos barcos que desfilavam perante si. Na hora da morte, quando tudo se cerrava, a última coisa que lhe aflorou ao espírito foi a vela branca de um pequeno barco.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Signo sinal 37. Economia do dom

Robert Capa, American troops going from the Chiunzi Pass to Naples. Late Sept, Italy, 1943

Soldados esperam o sinal para atacar um inimigo invisível, levar-lhe a morte como dádiva benevolente. O inimigo recebê-la-á sem rejeição, para a restituir. Aquilo que foi recebido deva ser restituído. A morte é o maior bem em circulação, uma cerimónia de honra e reciprocidade.

domingo, 2 de agosto de 2026

A memória do ar (49)

George Seurat, Evening, Honfleur, 1886

O ar rarefeito é uma memória de outros tempos, quando a navegação à vela levava, pelos mares desconhecidos, aventureiros em busca de um nome, da forma de um corpo, do sentido de uma vida. Agora, os oceanos tornaram-se demasiado frágeis para suportar o peso da atmosfera. Benevolente, o ar rarefaz-se a cada dia, para que amanhã ainda existam mares, e os grandes veleiros os possam cruzar, tomados pela melancolia do que passou.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Sonhos de Verão 6

Carlos de Haes, Playa de Guethary, 1881 (aproximadamente)

São surdos os que se prostram no templo,

corre-lhes o Estio nas veias, o avaro coração.

 

As marés baixas abrem um deserto na praia.

Se as gaivotas grasnam, não há quem as oiça.

 

Caminho pela senda sombria do crepúsculo,

escuto a voz pregada na estreita cruz da surdez.

 

 Julho de 2026

quarta-feira, 29 de julho de 2026

A sombra da água (49)

Georges Balagny, Coucher de Soleil, 1894

Na hora em que o Sol se põe, de velas desfraldadas, os pequenos barcos adormecem sobre as águas, embalados por um suave ondular trazido pelo vento, fascinados pelo murmúrio anunciador da noite. Tudo se aquieta sob o governo inflexível  da necessidade, se a luz se esconde e o oceano se entrega à dança sem nome da escuridão.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Geometrias de fogo (49)

William Turner, Sun Rising Through Vapor, Fisherman Cleaning and Selling Fish, 1807

Ao erguer-se, sob a névoa, o Sol ainda não é uma paisagem de fogo incrustada no horizonte. É apenas uma promessa de calor disfarçada pela água em vapor, a memória de uma canção consoladora, se o dia chega frio e os seres imersos na vida anseiam pelo carmesim do alívio.

sábado, 25 de julho de 2026

O Espírito da Terra (49)

Léonard Misonne, Staubiger Weg, 1897

Os caminhos abrem a Terra para que esta liberte o seu espírito e este paire sobre os homens que a atravessam. Cada trilho é mais que uma cicatriz, mais que a memória de uma dor. É uma promessa, a condição de possibilidade para que o viandante escute o coração do lar que lhe foi dado.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Sonhos de Verão 5

Paul Cezanne, Bibemus Quarry, 1898-1900

Na grávida luz da graça, uma terra de pomares,

herança contaminada pelo musgo da abominação.

 

A lira da noite cai sobre o fogoso seio do Estio,

as raparigas abrem-se ao contágio do amor.

 

Infectado, murmuro no bálsamo do vento Norte.

Julho cobre-me o zumbir nascido do desejo.

 

Julho de 2026

 

terça-feira, 21 de julho de 2026

Biografias 44. O reformador

Autor desconhecido, Carl Schurz, 1889
No prolongamento do olhar do reformador, existe um mundo novo que virá. Reforma após reforma, o que era desmorona-se, e aquilo que não era ganha figura e, depois, realidade. O reformador tem uma aparência humana. Fala como os homens, anda como os homens, come como os homens, mas, na verdade, não é um ser humano. É um agente do tempo, um discípulo secreto do anjo da história. Ninguém sabe se pertence às hostes angelicais celestes ou é um anjo caído. Até hoje, os homens não descobriram se a morte do velho e a vinda do novo é uma bênção ou uma maldição. Para o reformador, é apenas uma tarefa.

domingo, 19 de julho de 2026

Câmara discreta (36)

G. Oury, Au Coin du Feu, 1903
A onda esmeralda do olhar esconde-se do desejo inquisidor da câmara. Esta recua no seu propósito e, amotinada pela nostalgia da transparência, deixa-nos ver apenas a sombra que se dirige dos olhos para o objecto de contemplação, sem que o pensamento daquela que contempla se deixe trair pelo desejo de mostrar o que nunca deve ser mostrado.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Haikai urbano (80)

Peter Turnley, La Brasserie de l'Ile St. Louis, Paris, France, 1993
 Sonhos na cidade,
cerveja, música, amor.
Rude solidão.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Sonhos de Verão 4

Otto Scharf, Eifeldorfbrücke, 1908

Raquíticos serão os possantes guerreiros,

tomados pelas convulsões do Verão.

 

A luz cintila nos cardos do Estio,

abre-os à turbina dos olhos do veraneante.

 

Lenhador sem lenha, serrador sem madeira,

fabrico no silvar do Sol o silencio do lar.

 

Julho de 2026

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Arqueologias do espírito 41

Karel Masek, La Primavera, 1903

É um enigma o momento em que os homens fizeram a estranha descoberta de que as estações do ano eram mais do que divisões de um calendário artificial que dava conteúdo ao vazio do tempo. Quando se olhou o horizonte e se disse estamos na Primavera, nesse instante descobriu-se o princípio de esperança como uma das letras fundamentais do alfabeto onde se declina o espírito humano.

sábado, 11 de julho de 2026

Impressões 136. Esboços

Gertrude Käsebier, The Sketch, 1903

Todo o esboço é uma recolha de impressões. A realidade mostra-se hesitante ao olhar, como se a habitasse um temor que deve esconder. A mão deixa-se contaminar pela hesitação e inscreve no papel não aquilo que a realidade é, mas como esta se sente perante os olhos sem pudor que a perscrutam.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Meditação breve (213) A hora do chá

Columbano Bordalo Pinheiro, A Chávena de Chá, 1898

A hora do chá não é um momento inscrito na linha temporal do dia, tão pouco um instante de descanso das corveias quotidianas. Sentar-se, servir o chá e bebê-lo constituem um exercício de suspensão do tempo, uma tentativa de enfrentar o império despótico de Cronos. Uma expressão do desejo de eternidade.

terça-feira, 7 de julho de 2026

Sonhos de Verão 3

Gustave Guillaumet, El Sahara, 1867

O bezerro de Samaria é vento semeado,

espera-o as tempestades de Verão.

 

Entre a infância da cidade cresceu o deserto,

as ruínas soçobram ao peso das areias.

 

Não me consola a água do oceano:

Afasto o olhar, perco-me na linha do horizonte.

 

Julho de 2026

domingo, 5 de julho de 2026

Micronarrativa (83) Recomeço

Alfred Stieglitz, A Wet Day on the Boulevard, 1895

Saiu de casa sem dizer palavra. Atravessou o boulevard sob a chuva, mas esta ignorava-o. Seguiu cada vez mais depressa. Não era, porém, medo de ser perseguido, apenas uma urgência que não saberia explicar. A certa altura, vê uma porta aberta. É ali, pensa. Entra. Não descobre palavras para o que o esperava. Sente medo, mas logo uma grande alegria se apodera de todo o seu ser. É um mundo novo e inexplorado posto à sua disposição. Pode agora recomeçar.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Pintura e haikus (49)

Alexander Mikhailovich, Composición, 1939
 Cores em tumulto
são gerânios na aurora.
Do vazio ao caos.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Signo sinal 36. Anunciação

Henry Ossawa Tanner, Anunciação, 1898

Pensa-se que aquele a quem é feita uma anunciação é um sujeito passivo perante a voz que declina o anunciado. Ora, toda a anunciação é, ao mesmo tempo, o signo de uma convocação, de um chamamento à agência de quem foi tocado pela palavra. Anunciar é fazer um apelo à autonomia de quem, em silêncio, escuta.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Sonhos de Verão 2

Vincent Van Gogh, Campo arado, 1888

Quem espera a manifestação em glória

completou a corrida, combateu o bom combate.

 

O ardor dos dia de Junho trouxe aos campos

o resplendor do mundo por criar.

 

Pego no arco e despeço-me da seta.

O meu combate abre-se ao silêncio do alvo.

 

Junho de 2026

sábado, 27 de junho de 2026

A memória do ar (48)

Otto Scharf, Wacholder, 1908

O ar envolve as paisagens, molda-as como um secreto artífice e abre-as para o olhar de quem passa. Se um vento se agita, tudo se inclina à sua leveza feita de crepúsculos de silêncio e tempestades de seda e púrpura. O bramir das corças mistura-se com o canto das aves, propagando-se, como um concerto, em ondas de memória a ecoar pela tarde.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

A sombra da água (48)

Ferdinand Hodler, El lago Léman y el macizo del Mont-Blanc, 1918

Um lago é o lugar onde a água adormece pacificada e se abre aos sonhos mais tranquilos. Ali esquece o tumulto dos rios e a eterna rebelião dos oceanos. Espelha nesse sossego a ordem dos céus e a música de um cântico ancestral de que perdeu a memória.

terça-feira, 23 de junho de 2026

Geometrias de fogo (48)

Oswald Achenbach, Fuegos Artificiales en Nápoles, 1875

Não é um ciência infusa, mas antes uma difusa loucura a que habita o fogo, quando se torna um artifício provocado para se exibir diante de olhos humanos e fazer vibrar as cordas tensas do coração. Procuram submetê-lo a uma rígida geometria, mas ele pertence a uma outra, aquela que não parecendo racional é a raiz de todas as razões.