quinta-feira, 30 de novembro de 2023

Sonetos de Outono (8)

Caspar David Friedrich, Autumn, 1826

 As cegas sombras do Outono pairam

sobre as ruas vazias da cidade velha.

O tempo corre entre folhas secas

presas nos ramos de cansadas árvores.

 

Ouvem-se gritos de amargura tensa,

rasgam a tarde como corvos tintos

pela tristeza de perdidas guerras,

velhos ardores dum império findo.

 

Deixo o espírito vogar nas sombras,

a tarde as traz presas ao corpo gélido,

ao abandono da memória breve.

 

Passo o cabo das tormentas, ergo

as mãos aos astros no licor amargo

dos dias de chuva, no frio mar da morte.


Novembro de 2023


terça-feira, 28 de novembro de 2023

Geometrias de fogo (22)

Hans Thoma, The War, 1907

O fogo é o pólen da guerra, fecunda o solo para que seja um pasto sem fim de chamas, um incêndio que atravessa dia e noite, rompe a muralha dos anos e se instala no coração com o ardor de um ódio tão persistente que nem o passar das gerações apagará. Nas planícies, os corpos calcinados são estátuas em honra da devastação trazida pela ira vulcânica dos homens.

domingo, 26 de novembro de 2023

Signo sinal 15. Suspensão

Rudolf Schlichter, O mundo inanimado, 1926

Suspender o movimento do mundo, abolir os efeitos do tempo, proibir a mobilização contínua dos homens. Então, pode-se contemplar a imagem diluída da eternidade, uma imagem sem vida, mas que é o signo que abre a porta ao que é sempre vivo, àquilo de onde a morte foi expulsa e a que não poderá retornar, pois ali não é a sua pátria, nem o poder dos seus exércitos pretorianos é suficiente para derrubar as invisíveis muralhas e conquistar uma praça que nunca lhe pertencerá.

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Sonetos de Outono (7)

Camille Pissarro, Outono, 1876

Sol de Outono, matinal promessa

de novos mundos, novas terras, nova

luz no orvalho da aurora pálida,

nos desavindos corações sombrios.

 

Traz o fulgor a estes dias cegos,

às noites frias onde o musgo verde

amadurece na memória muda

de um presépio esquecido, morto.

 

Oiço o silêncio da floresta viva.

Vejo-o dançar na cornucópia alegre

destas cidades de cristal e pedra.

 

Canto o devir vão da manhã de bruma,

o abandono do jardim perene

ao sal de fogo, aos sinais de Inverno.

 

Novembro de 2023


quarta-feira, 22 de novembro de 2023

A sombra da água (22)

Karl Schmidt-Rottluff, Lua sobre a costa, 1956

Uma solidão construída com a minúcia das coisas vagarosas abre-se nas águas que se acolhem na fantasia da costa. Ilumina-a uma lua feita de promessas vagas e juras eternas. Então, a água move-se e rompe a linha do horizonte, onde o dia e a noite se tocam, e o céu e a terra se confundem.

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Pintura e haikus (35)

Bodil Obberg Pettersson, Early Autumn, 1980 (aqui)

As cores de Outono
deslizam na tela fria.
São sombras sonâmbulas.


sábado, 18 de novembro de 2023

A memória do ar (21)

Thomas Cole, A tornado, 1835

O invisível ar faz-se vento e vendaval, coluna que se ergue ciclónica e arrasta consigo o sinal da destruição e o símbolo do terror. Os animais escondem-se em abrigos frágeis, as árvores, porém, entregam o seu corpo à carícia devastadora do deus irado.

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Sonetos de Outono (6)

Wassily Kandinsky, Autumn in Bavaria, 1908

Dança comigo esta valsa viva.

Os corações tão desejosos cantam

os dias de Outono, a chegada alegre

do vinho novo, sangue, sol e água.

 

No céu, os pássaros desenham símbolos,

inscrevem letras na paisagem fria,

presos no voo entre terra e nuvens,

soltos no fogo que alastra trémulo.

 

Oiço o silêncio no rugir do vento

ou no rumor das tuas mãos abertas,

leves, na dádiva da noite escura.

 

Toco os teus lábios com o vinho novo,

bebo-te, casta, no deserto árido.

Viajamos ébrios na vertigem muda.


Novembro de 2023


terça-feira, 14 de novembro de 2023

Impressões 114. Lugares de dor

Mario Sironi, Paesaggio urbano, 1942

O olhar entristece perante a cinza sem nome da paisagem. O coração não canta as grandes fábricas do mundo, as chaminés erguidas aos céus como punhais de tijolo, os telhados que as nuvens evitam purificar com as suas águas lustrais. Os viandantes evitam esses lugares de dor e os peregrinos sabem que não é ali que passa o caminho para o santuário onde o divino os espera.

domingo, 12 de novembro de 2023

Geometrias de fogo (21)

Hans Baldung Grien, Two Witches, 1523
A ficção das feiticeiras nasce na ardência do fogo. Imagina-se no despudor do seu corpo poderes nascidos na fímbria dos infernos e trazidos por artes mágicas à superfície da terra, para incendiar imaginações e atear as labaredas onde os seus corpos arderão em nome da purificação das almas.

sexta-feira, 10 de novembro de 2023

Sonetos de Outono (5)

William B. Post, White Mountains, N. H. from Fryeburg Maine, 1900-1910

Folhas de Outono, caminhamos livres

na liberdade da floresta rude.

Vamos curvados no carril do tempo

e levantamos aos céus olhos lívidos.

 

Na cornucópia da abundância vemos

as velhas árvores caídas, mortas

no desmedido desejar dos dias.

Sinais do vento que passou silente.

 

Estreitas ruas levam do mar à morte,

onde os anjos te aguardam cegos

para a terrível luz das ervas secas.

 

Pela penumbra avistamos luas,

pequenos sóis de gelo e âmbar,

a cintilante flor de luz e fogo.


Novembro de 2023

quarta-feira, 8 de novembro de 2023

No limiar (12)

Fernando Calhau, S/título #169, 1974 (Gulbenkian)

Todo o mundo começa com um trabalho de memória. Na viscosidade da penumbra, na porosa fronteira entre a vigília e o sonho, os tambores da recordação trabalham furiosamente, espalham memórias pelos campos a vir, pelos rios e lagos não nascidos, ordenam-se em batalhões impiedosos para que dessa crueldade nasça o poder da floresta sobre as encostas das grandes montanhas ou a esperança de um oceano que se deixe navegar pelos grandes veleiros da misericórdia. Então a memória flui e o mundo convocado por ela reúne-se sob o seu império e, submisso, dispõe-se a acolher a primeira luz e a semente sanguínea da vida.

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

O sal do silêncio (106)

Emilio Sánchez Cayuella, Silencio, 1985
O abandono é o sal que abre o corpo ao silêncio, como a terra abre os sentidos ao murmúrio dos céus. As águas rumorejam na sua passagem, as árvores erguem os ramos, enquanto as raízes se afundam. Se um pássaro canta é porque chama pela nuvem onde um deus se esconde.

sábado, 4 de novembro de 2023

Sonetos de Outono (4)

Camille Corot, Italian Landscape near Marino in Autumn, 1826 – 1827

Dias de Outubro. Uma ave canta

e eu medito na ruína próxima,

a casa pobre, o nome ferido

por entre sombras e silêncios secos.

 

Erguem-se pássaros de luz e trevas.

Os rios deslizam devagar, sem rumo.

Subitamente, o mar cala a voz

nas ondas frias, no vagar do vento.

 

Não tenho herança a deixar na morte,

nem a memória reterá o nome

por mim herdado ou talvez roubado.

 

Oiço-te, pássaro da noite a vir.

És a renúncia ao fulgor dos dias.

És os escombros duma vida vã.

 

Outubro de 2023