segunda-feira, 5 de outubro de 2026

A memória do ar (51)

Fred H. Worsley-Benison, Seascape, 1900

Sobre a terra e o mar, existe um império feito de nuvens e vento. Por vezes, as nuvens descem, numa metamorfose que as une aos lugares de onde partiram. O vento, porém, mantém-se fiel à sua última natureza. O ar onde habita e de que a sua essência é feita permanece fiel à mais arcaica das memórias. 

sábado, 3 de outubro de 2026

Lugares de Outono 2

Robert Demachy, Automne, 1899

As folhas juncam o chão,

em queda célere e triste.

Os dias são sombras puras,

vestígios vivos do vácuo.

 

O nada cresce envolto

na capa negra da noite.

A luz soçobra em silêncio,

manhãs tragadas nas ruas.

 

Vazio, o mundo oculta-se

na capa ténue do tempo,

no mal de cada partida.

 

O palco fecha-se agora.

Figuras negras ardem

enquanto o sol se põe.

 

Outubro de 2026

 

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

A sombra da água (51)

Ludwig David, Canal bei Delft, 1901

Os canais oferecem-se como caminhos. Por eles, vagueiam barcos que transportam memórias, desejos, paisagens antigas, cujos nomes se perderam à sombra da água. Ali os dias passam mais devagar. Uma demora visceral apodera-se deles e rouba-os à urgência do tempo. Por vezes, amantes inclinados para o seu amor sentam-se nas margens. Olham e vêem o seu amor entregue ao império líquido da lentidão.