quinta-feira, 23 de julho de 2026

Sonhos de Verão 5

Paul Cezanne, Bibemus Quarry, 1898-1900

Na grávida luz da graça, uma terra de pomares,

herança contaminada pelo musgo da abominação.

 

A lira da noite cai sobre o fogoso seio do Estio,

as raparigas abrem-se ao contágio do amor.

 

Infectado, murmuro no bálsamo do vento Norte.

Julho cobre-me o zumbir nascido do desejo.

 

Abril de 2026

 

terça-feira, 21 de julho de 2026

Biografias 44. O reformador

Autor desconhecido, Carl Schurz, 1889
No prolongamento do olhar do reformador, existe um mundo novo que virá. Reforma após reforma, o que era desmorona-se, e aquilo que não era ganha figura e, depois, realidade. O reformador tem uma aparência humana. Fala como os homens, anda como os homens, come como os homens, mas, na verdade, não é um ser humano. É um agente do tempo, um discípulo secreto do anjo da história. Ninguém sabe se pertence às hostes angelicais celestes ou é um anjo caído. Até hoje, os homens não descobriram se a morte do velho e a vinda do novo é uma bênção ou uma maldição. Para o reformador, é apenas uma tarefa.

domingo, 19 de julho de 2026

Câmara discreta (36)

G. Oury, Au Coin du Feu, 1903
A onda esmeralda do olhar esconde-se do desejo inquisidor da câmara. Esta recua no seu propósito e, amotinada pela nostalgia da transparência, deixa-nos ver apenas a sombra que se dirige dos olhos para o objecto de contemplação, sem que o pensamento daquela que contempla se deixe trair pelo desejo de mostrar o que nunca deve ser mostrado.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Haikai urbano (80)

Peter Turnley, La Brasserie de l'Ile St. Louis, Paris, France, 1993
 Sonhos na cidade,
cerveja, música, amor.
Rude solidão.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Sonhos de Verão 4

Otto Scharf, Eifeldorfbrücke, 1908

Raquíticos serão os possantes guerreiros,

tomados pelas convulsões do Verão.

 

A luz cintila nos cardos do Estio,

abre-os à turbina dos olhos do veraneante.

 

Lenhador sem lenha, serrador sem madeira,

fabrico no silvar do Sol o silencio do lar.

 

Julho de 2026

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Arqueologias do espírito 41

Karel Masek, La Primavera, 1903

É um enigma o momento em que os homens fizeram a estranha descoberta de que as estações do ano eram mais do que divisões de um calendário artificial que dava conteúdo ao vazio do tempo. Quando se olhou o horizonte e se disse estamos na Primavera, nesse instante descobriu-se o princípio de esperança como uma das letras fundamentais do alfabeto onde se declina o espírito humano.

sábado, 11 de julho de 2026

Impressões 136. Esboços

Gertrude Käsebier, The Sketch, 1903

Todo o esboço é uma recolha de impressões. A realidade mostra-se hesitante ao olhar, como se a habitasse um temor que deve esconder. A mão deixa-se contaminar pela hesitação e inscreve no papel não aquilo que a realidade é, mas como esta se sente perante os olhos sem pudor que a perscrutam.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Meditação breve (213) A hora do chá

Columbano Bordalo Pinheiro, A Chávena de Chá, 1898

A hora do chá não é um momento inscrito na linha temporal do dia, tão pouco um instante de descanso das corveias quotidianas. Sentar-se, servir o chá e bebê-lo constituem um exercício de suspensão do tempo, uma tentativa de enfrentar o império despótico de Cronos. Uma expressão do desejo de eternidade.

terça-feira, 7 de julho de 2026

Sonhos de Verão 3

Gustave Guillaumet, El Sahara, 1867

O bezerro de Samaria é vento semeado,

espera-o as tempestades de Verão.

 

Entre a infância da cidade cresceu o deserto,

as ruínas soçobram ao peso das areias.

 

Não me consola a água do oceano:

Afasto o olhar, perco-me na linha do horizonte.

 

Julho de 2026

domingo, 5 de julho de 2026

Micronarrativa (83) Recomeço

Alfred Stieglitz, A Wet Day on the Boulevard, 1895

Saiu de casa sem dizer palavra. Atravessou o boulevard sob a chuva, mas esta ignorava-o. Seguiu cada vez mais depressa. Não era, porém, medo de ser perseguido, apenas uma urgência que não saberia explicar. A certa altura, vê uma porta aberta. É ali, pensa. Entra. Não descobre palavras para o que o esperava. Sente medo, mas logo uma grande alegria se apodera de todo o seu ser. É um mundo novo e inexplorado posto à sua disposição. Pode agora recomeçar.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Pintura e haikus (49)

Alexander Mikhailovich, Composición, 1939
 Cores em tumulto
são gerânios na aurora.
Do vazio ao caos.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Signo sinal 36. Anunciação

Henry Ossawa Tanner, Anunciação, 1898

Pensa-se que aquele a quem é feita uma anunciação é um sujeito passivo perante a voz que declina o anunciado. Ora, toda a anunciação é, ao mesmo tempo, o signo de uma convocação, de um chamamento à agência de quem foi tocado pela palavra. Anunciar é fazer um apelo à autonomia de quem, em silêncio, escuta.