domingo, 21 de junho de 2026

Sonhos de Verão 1

Thomas Cole, A view near Tivoli (morning), 1832

A inquieta provação do homem nasce

da obscura mão do Senhor dos exércitos.

 

O Verão chegou como um enviado.

Cobre a Terra com a folhagem do calor.

 

Elevo na noite uma palavra de pedra

e espero a resposta na seda da aurora.

 

Junho de 2026

sexta-feira, 19 de junho de 2026

O Espírito da Terra (48)

A. Barbichon, Givre et Brouillard, 1896

Também o espírito da terra é sujeito a metamorfoses. É um nos dias quentes, outro se é a luz da Primavera ou do Outono que ilumina o horizonte, outro ainda se o Inverno traz o seu império. Este é o mais rigoroso dos espíritos, navega entre as geadas e as neblinas e espera o momento em que a neve desça para cobrir a terra com um manto de pureza e uma promessa de redenção.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Biografias 43. O profeta

Clarence Moore, Le Récit d'un Ancien, 1894
O ancião olha o futuro com ar ríspido, pleno de admoestações e um desejo de recriminar quem tiver a ousadia de habitar esse tempo. No entanto, tudo o que vê é o seu passado, as dores que esqueceu, os obstáculos que não ultrapassou, as derrotas que a vida semeou e que ele não aceitou. De dedo em riste, ele profetiza, e como todo o verdadeiro profeta está cego. A luz do passado ofusca-o e prende-o dentro de uma prisão de onde nunca sairá para chegar a esse futuro que abomina.
 

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Ecos da Primavera 12

Paul Gauguin, La recogida del heno, 1888

Abominais o que faz correr o sangue

e de casa excluís quem vive no ardil,

quem à mentira ergue um altar.

 

Fecho os olhos e penso na imperfeição:

nasceu em mim, inventei-a pela manhã.

 

O mundo rasga-se no ruído das ruas.

A Primavera abre-se à morte,

sem força para cerzir o que a vida feriu.

 

Junho de 2026

sábado, 13 de junho de 2026

Câmara discreta (35)

Francesca Woodman, Untitled, 1976
O pudor da nudez revela-se como um silêncio do corpo. A câmara procura-o, ávida do seu espectáculo, mas é impotente perante a recusa branda com que ele se deixa tocar. Então, a máquina dobra-se sobre si e recolhe no chão o rasto desse corpo, uma manifestação fantasmagórica, onde é ainda possível ler o medo, a dor e, na ambiguidade que habita toda a imagem, o ritmo de uma vida exausta.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Ecos da Primavera 11

Ludwig David, Canal Bei Delft, 1902

Onde repousa a taça com o vinho da memória

está a herança sem fim dos dias alegres,

as noites esculpidas na pedra da eternidade.

 

Observo o jardim no solfejo da Primavera,

colho as últimas rosas da melancolia.

 

O universo expande-se para fora de si,

deixando um rasto de estrelas,

para cobrir os céus com a cintilação da luz.

 

Junho de 2026

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Arqueologias do espírito 40

H. R. Taylor, Easton’s Beach, 1891
O bater das ondas rasga o coração, abre-o para a linha do horizonte, para um além que ainda não tem nome. Nome que há-de vir mais tarde, muito mais tarde, séculos, milénios depois de a coisa se tornar presente na consciência. O vento tocava as águas, encapelava-as, as ondas vinham e desfaziam-se contra as rochas. Dentro dos homens que assistiam ao espectáculo ouvia-se o sopro do vento, como se ele viesse do coração e abrisse o corpo ao mistério do espírito, esse que só muito depois ganhou um nome, ardente como o vento, inquieto como as ondas, poderoso como a substância que extrai a vida da matéria inerte.

domingo, 7 de junho de 2026

Ecos da Primavera 10

Howard Hodgkin, Mr. and Mrs. Patrick Caulfield, 1969 – 1970 (Gulbenkian)

Deixar os sacrifícios nas trevas do sangue.

Um jardim no húmus do conhecimento,

a flor-de-lis sob a luz da misericórdia.

 

No fogo da memória, crepitam os meus olhos.

Ávidos de água, toldados de terra.

 

As ruas despiram-se de transeuntes.

São um excesso no sobejo do universo,

a métrica lexical na gramática da errância.

 

Junho de 2026

 

sábado, 6 de junho de 2026

Impressões 135. Na floresta

Moritz Nähr, Waldinneres, 1891
Perder-se no interior da floresta é encontrar um mundo primordial esquecido há muito. A razão tece um calendário de perigos e obstáculos. O instinto, porém, guia o viandante com uma certeza arcaica, vinda não se sabe de onde, mas que o coração reconhece e o corpo aceita como se ali fosse a sua casa.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Ecos da Primavera 9

Mily Possoz, sem título (Gulbenkian)

O princípio da palavra é a voz da verdade,

raiz mergulhada no solo do mistério,

um salto sobre a fronteira do sem sentido.

 

Não desvio os ouvidos do rumor antigo,

do que chega e ilumina a minha casa.

 

O vento fresco da manhã corre nas ruas,

levanta a poeira esquecida,

a verdade na palavra perdida no mundo.

 

Junho de 2026

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Ecos da Primavera 8

Hein Semke, Paisagem, 1957 (Gulbenkian)

Da pedra dura, nasceu a água infinita

e das areias do deserto sem nome

um caminho de sombras sob o punhal solar.

 

Fixo o olhar no horizonte, um silvo abre

o céu primaveril ao azul do Estio.

 

A cidade descansa poisada no calendário,

dormita pelas ruas cobertas de pétalas

caídas em segredo dos jacarandás em flor.

 

Junho de 2026

terça-feira, 2 de junho de 2026

Meditação breve (212) Preparação

John A. Hodges, The Day was Nearly Done, 1895

Antes de terminar, o dia - qualquer dia - entrega-se, na hora crepuscular, a uma breve meditação, suspendendo a agitação, para, em balanço secreto, fazer o cálculo das horas desperdiçadas e das proveitosas, dos momentos de felicidade e dos de tristeza. Prepara-se para a noite, como um crente se prepara para a vida eterna.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Ecos da Primavera 7

Fernando Lemos, Pedras, 1949 (Gulbenkian)

Sob o sol de Junho, a pedra repelida

será no fim do dia exaltada.

Pedra angular no segredo do silêncio.

 

Abro a porta ao êxtase da aurora,

ao orvalho deixado pela fadiga da noite.

 

Os martelos do mundo batem em furor,

abrem o silvo da cidade

ao florescimento das constelações nocturnas.

 

1 de Junho de 2026