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sábado, 21 de março de 2026

Ecos da Primavera 1

Henri Cross, Arbres au bord de la mer, 1906-1907

Ele é aquele que é e paira

sobre as águas do rio

e as ondas dos oceanos.

 

Ouço-o no tamborilar da chuva,

no ressoar do relâmpago.

 

O mundo ilumina-se na voz

vinda das águas,

no eco do candelabro aceso.

 

Março de 2026

 

sexta-feira, 13 de março de 2026

Viagem de Inverno 12

Manuel Filipe, Inverno-Primavera , 1978 (Gulbenkian)

Nuvens no céu tecem-me a nostalgia

do corpo mergulhado na poeira do calor.

 

Virá o espírito na opulência da oliveira

e derramará perfumes do Líbano.

 

O Inverno soletra as últimas palavras.

A voz do tempo abre-se ao júbilo da alvorada.

 

Março de 2026

sexta-feira, 6 de março de 2026

Viagem de Inverno 11

Miguel Flávio, A cidade ao pôr-do-sol, 1967 (Gulbenkian)

O corpo solicita-me a erva das ruas

e o saibro ígneo do entardecer.

 

A parábola dos vinhateiros abre um tonel

de sangue no caminho da inocência.

 

O mundo respira sob o saibro das ervas

o vinho da morte e o vítreo vento das glicínias.

 

Março de 2026

 

segunda-feira, 2 de março de 2026

Viagem de Inverno 10

Rockwell Kent, Admiralty Inlet, 1922

Sigo pela luz da árvore do silêncio,

deixo germinar a semente da ciência infusa.

 

A voz terrível da rosa da benevolência

troa sob a tempestade de um mandamento.

 

Um céu quaresmal feito de cinza cobre

os campos onde a tempestade se silencia.

 

Março de 2026

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Viagem de Inverno 9

Claude Monet, Antibes, Seen from La Salis, 1888

Os dias são a rede que me captura

no mar entrelaçado de névoa e memória.

 

A palavra ergue-se para frutificar

e retorna à sombra vitoriosa do silêncio.

 

O céu cobriu-se de cinza e nuvens,

fruto silente, rede à espera da água.

 

Fevereiro de 2026

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Viagem de Inverno 8

Ovidio Murguía de Castro, Invierno

Esqueço os dias nas artérias da memória

e abro o corpo à melancolia da luz.

 

Os pobres esperam a bem-aventurança

na cintilação da árvore plantada à beira-rio.

 

A neblina desce dos céus e deixa um rasto

de água nas ervas do caminho, no chão das ruas.

 

Fevereiro de 2025

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Pintura e haikus (48)

Gino Severini, Suburban Train Arriving in Paris, 1915
 Chegam do subúrbio
comboios de cinza e fumo.
Morrem em silêncio.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Viagem de Inverno 7

Francis Picabia, Amanecer en la bruma, Montiguy, 1905
Os sentidos exultam no vestígio de sol

e em mim levanta-se a vegetação do dia.

 

Sois o sal da terra, a luz do mundo, canta-se

na cintilação do fogo, no vidro da candeia.

 

O troar da tempestade cessou: a súplica

da terra, o rumor do céu, a revolta do mar.

 

Fevereiro de 2026

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Viagem de Inverno 6

Fernando Lemos, sem título, 1999 (Gulbenkian)

Habito na voracidade destes dias

sem o cântico do sol e o ofício da luz.

 

Esquecidos da ira final, os homens

caminham nas veredas de aço e fósforo.

 

Enlouquecidas, as aves partiram

para o sol do Sul e as ravinas de luz.

 

Fevereiro de 2026

sábado, 24 de janeiro de 2026

Viagem de Inverno 5

Bernardo Marques, Inverno (Gulbenkian)

Resguardo-me do frio da intempérie

na incandescência da solidão.

 

Ouvem-se no golfo da memória

as súplicas pela misericórdia do alto.

 

E na rasura da floresta dormem

animais presos à escassez do Inverno.

 

Janeiro de 2026

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Viagem de Inverno 4

Camille Pissarro, Morning, Sunshine Effect Winter, 1895

Canto uma esquecida canção,

do Oriente vem, ave poisada na voz.

 

O poder de perdoar rasga a noite

e toca o ombro do arqueiro que o alvo errou.

 

A inclinação da Terra esconde a luz

e a seta do Inverno ecoa no sal da manhã.

 

Janeiro de 2026

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Viagem de Inverno 3

László Meitner, Inverno em Paris (Gulbenkian)

Abro o corpo para o sol da manhã,

um cântico na combustão do silêncio.

 

Os Reis voltaram para o Oriente

iluminados pelo carmesim da Lua.

 

No crocitar do calendário, os dias crescem,

a Terra ecoa no húmus do universo.

 

Janeiro de 2026

 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Haikai do Viandante (446)

Marco Bicci, Paisagem de Inverno

Homens e animais
escutam a voz do vento.
Paisagem de Inverno.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Viagem de Inverno 2

Oscar Monet, Two-Path at Argenteuil, Winter, 1875

Caminho na solidão de Dezembro,

abro portas no sigilo da memória.

 

Passou como uma sombra o Natal,

o esplendor da noite, a quietação do dia.

 

O frio envolve de geadas a manhã,

promete neve que a noite não trará.

 

Dezembro de 2025

 

domingo, 21 de dezembro de 2025

Viagem de Inverno 1

Caspar David Friedrich, Winter Landscape with Church, 1811

Sonho-me na sombra de sal do dia,

na súplica aberta na lava da exaltação.

 

Como um barco na melancolia do mar,

o Advento aproxima-se da candura do cais.

 

Move-se a geometria dos dias e das noites:

triunfais, as trevas cantam feridas de morte.

 

Dezembro de 2025

 

domingo, 14 de dezembro de 2025

Silêncio de Outono (12)

H. L. Brusse, Herfstmorgen, 1906

Caem ainda das acácias

folhas vergadas

pelo tempo.

Juncam os caminhos,

o advento, a aurora.

 

Uma exaltação adormece

em mim, se apanho

do chão as folhas mortas.

 

Dezembro de 2025

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Silêncio de Outono (11)

Alfred Sisley, Bank of the Seine in Autumn, 1876

Sem mácula, a paisagem

desdobra-se

nas cores de Outono

e na virginal

concepção do Inverno.

 

Percorro a senda dos dias:

espero a súbita

revelação da eternidade.

 

Dezembro de 2025


quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Pintura e haikus (47)

Júlio Pomar, Varina Comendo Melancia, 1942 (Gulbenkian)

 Frutos do Estio:

O vermelho da varina,

azul de paixão.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Silêncio de Outono (10)

Aurélia de Souza - Visitação

Secreta, chegou a luz

do Advento.

Veio no húmido

odor da terra,

nas folhas pelo chão.

 

Retenho na memória a voz

vinda  na água

dos dias de sol e névoa.


Dezembro de 2025

 

segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Silêncio de Outono (9)

Tomás Viver Aymerich, Apunte de paisaje

A vida recolhe-se

na sonolência

dos dias, no sangue

dos mártires

vivos na viragem da morte.

 

Ergo o lume da tarde,

um cântico preso

no coral de quem dorme.

 

Novembro de 2025