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quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Lugares de Outono 1

Gustav Klimt, Avenue in the Park of Krammer Castle, 1912
 

Descubro a casa de Outono,

as sombras rudes e rápidas,

as águas soltas do rio,

paisagens, aves, silêncios.

 

O tempo força-me a noite,

esconde o mar na memória,

lugares vivos, a cinza

tão triste, a seda dos mortos.

 

Um tordo canta no bosque,

procura o lume na encosta

voltada ao silvo do Sul.

 

O tempo é uma nuvem

sem nome, luz que balança

na espada vil da partida.

 

Setembro de 2026

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Sonhos de Verão 12

William Turner, St. Peter's from the South, 1819

As graças dadas ao entrar na porta do paraíso,

louvores cantados nos átrios abertos ao Sul.

 

O júbilo do Verão concede a luz do espírito

às águas dos oceanos, às estrelas do Mar do Norte.

 

Aclamo o poder dos dias que se aproximam:

graça, louvor e alegria entram no silêncio de mim.

 

Setembro de 2026

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Sonhos de Verão 11

Chaim Soutine, Fig Trees, 1920-21

As genealogias perdem-se na cruz do tempo,

mas imaculada é a que traz a eternidade no ventre.

 

Os figos do Verão chegam como um sonho

sonhado no universo crepuscular da memória.

 

Recebo a dádiva daquilo que sem nome passa,

destilo a alegria no alambique do instante.

 

Setembro de 2026

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Haikai do Viandante (447)

Gustav Klimt, The Church in Cassone, 1913
O sopro das águas
e a sombra dos ciprestes:
voz de Primavera.
 

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Sonhos de Verão 10

Edgar Degas, Plaza de la Concordia, 1875

Na Ágora da loucura, a sabedoria do mundo,

a vã astúcia do láudano do pensamento.

 

As praças enchem-se de palavras e as sombras

cobrem de Verão os que não se calam.

 

Cansei-me de todos os rossios e das palavras

colhidas no calor do mercado da multidão.

 

Setembro de 2026

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Sonhos de Verão 9

Urgell Inglada, Tempestad

O ardil dos sepulcros caiados ecoa

a beleza fabricada na cárie da hipocrisia.

 

Também o Verão soçobra na ira

trazida pelo furúnculo da tempestade.

 

Contemplo os elementos desavindos

e recito uma velha ode ao dia tormentoso.


Agosto de 2026

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Sonhos de Verão 8

Vincent Van Gogh, Barcas de pesca cerca de Saintes-Maries, 1888

Brandirão a espada sobre a luz da tarde

e o esplendor dos teus olhos navegará para longe.

 

Uma traineira arrasta nas suas redes o Verão,

a cintilação do Sol nas águas paradas do porto.

 

Resguardo-me na escuna da ventania,

navego o azul do mar em direcção à luz do Sol.


Agosto de 2026

domingo, 16 de agosto de 2026

Pintura e haikus (50)

Ana Peters, Azul prusi, 1993

Um azul da Prússia
no silêncio do oceano.
O céu de Verão.

sábado, 8 de agosto de 2026

Sonhos de Verão 7

Juan González Alacreu, Contraluz

Da geração incrédula e perversa, não há memória,

mas a voz compassiva curou a criança lunática.

 

Agosto estende as suas redes sobre o azul do mar,

e um grão de mostarda traz um zéfiro pela terra.

 

Sentado à sombra, debito o rol de milagres,

faço-os nascer de um verbo vazio, iluminam a luz.

 

Agosto de 2026

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Sonhos de Verão 6

Carlos de Haes, Playa de Guethary, 1881 (aproximadamente)

São surdos os que se prostram no templo,

corre-lhes o Estio nas veias, o avaro coração.

 

As marés baixas abrem um deserto na praia.

Se as gaivotas grasnam, não há quem as oiça.

 

Caminho pela senda sombria do crepúsculo,

escuto a voz pregada na estreita cruz da surdez.

 

 Julho de 2026

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Sonhos de Verão 5

Paul Cezanne, Bibemus Quarry, 1898-1900

Na grávida luz da graça, uma terra de pomares,

herança contaminada pelo musgo da abominação.

 

A lira da noite cai sobre o fogoso seio do Estio,

as raparigas abrem-se ao contágio do amor.

 

Infectado, murmuro no bálsamo do vento Norte.

Julho cobre-me o zumbir nascido do desejo.

 

Julho de 2026

 

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Sonhos de Verão 4

Otto Scharf, Eifeldorfbrücke, 1908

Raquíticos serão os possantes guerreiros,

tomados pelas convulsões do Verão.

 

A luz cintila nos cardos do Estio,

abre-os à turbina dos olhos do veraneante.

 

Lenhador sem lenha, serrador sem madeira,

fabrico no silvar do Sol o silencio do lar.

 

Julho de 2026

terça-feira, 7 de julho de 2026

Sonhos de Verão 3

Gustave Guillaumet, El Sahara, 1867

O bezerro de Samaria é vento semeado,

espera-o as tempestades de Verão.

 

Entre a infância da cidade cresceu o deserto,

as ruínas soçobram ao peso das areias.

 

Não me consola a água do oceano:

Afasto o olhar, perco-me na linha do horizonte.

 

Julho de 2026

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Pintura e haikus (49)

Alexander Mikhailovich, Composición, 1939
 Cores em tumulto
são gerânios na aurora.
Do vazio ao caos.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Sonhos de Verão 2

Vincent Van Gogh, Campo arado, 1888

Quem espera a manifestação em glória

completou a corrida, combateu o bom combate.

 

O ardor dos dia de Junho trouxe aos campos

o resplendor do mundo por criar.

 

Pego no arco e despeço-me da seta.

O meu combate abre-se ao silêncio do alvo.

 

Junho de 2026

domingo, 21 de junho de 2026

Sonhos de Verão 1

Thomas Cole, A view near Tivoli (morning), 1832

A inquieta provação do homem nasce

da obscura mão do Senhor dos exércitos.

 

O Verão chegou como um enviado.

Cobre a Terra com a folhagem do calor.

 

Elevo na noite uma palavra de pedra

e espero a resposta na seda da aurora.

 

Junho de 2026

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Ecos da Primavera 12

Paul Gauguin, La recogida del heno, 1888

Abominais o que faz correr o sangue

e de casa excluís quem vive no ardil,

quem à mentira ergue um altar.

 

Fecho os olhos e penso na imperfeição:

nasceu em mim, inventei-a pela manhã.

 

O mundo rasga-se no ruído das ruas.

A Primavera abre-se à morte,

sem força para cerzir o que a vida feriu.

 

Junho de 2026

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Ecos da Primavera 11

Ludwig David, Canal Bei Delft, 1902

Onde repousa a taça com o vinho da memória

está a herança sem fim dos dias alegres,

as noites esculpidas na pedra da eternidade.

 

Observo o jardim no solfejo da Primavera,

colho as últimas rosas da melancolia.

 

O universo expande-se para fora de si,

deixando um rasto de estrelas,

para cobrir os céus com a cintilação da luz.

 

Junho de 2026

domingo, 7 de junho de 2026

Ecos da Primavera 10

Howard Hodgkin, Mr. and Mrs. Patrick Caulfield, 1969 – 1970 (Gulbenkian)

Deixar os sacrifícios nas trevas do sangue.

Um jardim no húmus do conhecimento,

a flor-de-lis sob a luz da misericórdia.

 

No fogo da memória, crepitam os meus olhos.

Ávidos de água, toldados de terra.

 

As ruas despiram-se de transeuntes.

São um excesso no sobejo do universo,

a métrica lexical na gramática da errância.

 

Junho de 2026

 

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Ecos da Primavera 9

Mily Possoz, sem título (Gulbenkian)

O princípio da palavra é a voz da verdade,

raiz mergulhada no solo do mistério,

um salto sobre a fronteira do sem sentido.

 

Não desvio os ouvidos do rumor antigo,

do que chega e ilumina a minha casa.

 

O vento fresco da manhã corre nas ruas,

levanta a poeira esquecida,

a verdade na palavra perdida no mundo.

 

Junho de 2026