quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Signo sinal 34. Fonte da juventude

Joaquín Torres García, La fuente de la juventud, 1906

Não é de uma juventude eterna que a fonte é simbolo, mas do próprio poder da juventude, através da renovação das gerações, ser fonte de novas e infinitas possibilidades, de mundos que, no sonambulismo do presente, não temos o poder de descortinar. A água que sai dessa fonte é tumultuosa, mas os dias dar-lhe-ão a serenidade que a natureza das coisas sempre traz.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Viagem de Inverno 9

Claude Monet, Antibes, Seen from La Salis, 1888

Os dias são a rede que me captura

no mar entrelaçado de névoa e memória.

 

A palavra ergue-se para frutificar

e retorna à sombra vitoriosa do silêncio.

 

O céu cobriu-se de cinza e nuvens,

fruto silente, rede à espera da água.

 

Fevereiro de 2026

sábado, 21 de fevereiro de 2026

A memória do ar (46)

Edward Steichen, Balzac, the Open Sky - 11 P.M. 1908
A luz da Lua iluminou o milagre da ascensão do escritor aos céus. O ar envolveu a estátua e, rendido à memória da escrita, sugou-o lentamente, libertando-o das leis da necessidade e do peso iníquo da gravidade. Os deuses receberam o homem no Olimpo, e Eolo, como gratidão, soprou suavemente sobre a Terra, para que as palavras do novo deus não se dispersassem nas areias do deserto.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A sombra da água (46)

L. Primet, Vallée du Giffre, 1899

As águas descem da montanha e são um rio que, na sua vertigem, arrasta a sombra que as gerou, para a estender pelo mundo, até que o mar as receba na voragem das ondas e na paz que reside em toda a dissolução.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Geometrias de fogo (46)

Joaquín Mir, Dia de vent
O fogo suspende-se nos céus, inunda as nuvens e deixa cair, no silêncio da montanha, flocos feitos de pétalas de rosa e flores de jacarandá. Então, o vento toma conta da dádiva e, soprando com a energia de um incêndio, distribui a luz sobre o rochedo das encostas e o verde dos planaltos, para que plantas e animais sintam, no ardor do lume, a promessa de vida.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Viagem de Inverno 8

Ovidio Murguía de Castro, Invierno

Esqueço os dias nas artérias da memória

e abro o corpo à melancolia da luz.

 

Os pobres esperam a bem-aventurança

na cintilação da árvore plantada à beira-rio.

 

A neblina desce dos céus e deixa um rasto

de água nas ervas do caminho, no chão das ruas.

 

Fevereiro de 2025

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O Espírito da Terra (46)

Edouard Hannon, Die letzten schönen Tage, 1897

É secreto, como um coração silencioso, o espírito da terra. Os homens pressentem-no , mas raros são aqueles que o escutam. A multidão teme-o, se ele se revolta, mas não tem ouvidos para escutar a sua música, composta pela transfiguração dos elementos e a demorada respiração dos anos.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Biografias 41. A mãe

Georg Einbeck, Mutter und Kind, 1898
A mãe descobre-se ao oferecer o seio ao filho. Nessa oferta reside o seu mistério mais profundo. Não basta trazê-lo no ventre, mas nutri-lo com o leite nascido no próprio corpo. Abre-o assim ao mundo e oferece-lhe uma possibilidade de resistir às intempéries. E nisto reside a biografia de uma mãe: abrir o caminho para que a nova vida vingue quando se solta do cordão umbilical e entra no território adverso, onde terá de encontrar um caminho, desbravando a selva e enfrentando os perigos que espreitam a cada instante. E, em cada nova conquista do filho, sorri a vitória da mãe, dessa mãe que lhe ofereceu o seio para que no leite ele encontre o segredo da vida. Em cada passo de um filho existe a sombra benfazeja do seio de uma mãe.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Pintura e haikus (48)

Gino Severini, Suburban Train Arriving in Paris, 1915
 Chegam do subúrbio
comboios de cinza e fumo.
Morrem em silêncio.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Viagem de Inverno 7

Francis Picabia, Amanecer en la bruma, Montiguy, 1905
Os sentidos exultam no vestígio de sol

e em mim levanta-se a vegetação do dia.

 

Sois o sal da terra, a luz do mundo, canta-se

na cintilação do fogo, no vidro da candeia.

 

O troar da tempestade cessou: a súplica

da terra, o rumor do céu, a revolta do mar.

 

Fevereiro de 2026

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Câmara discreta (33)

Eve Arnold, Bar girl in a brothel in the red light district. Havana, Cuba, 1954
A câmara esconde a desolação, a raiva e o ódio sob a capa da melancolia. Os sentimentos fortes perturbam quem vê e não aliviam a dor de quem se deixa ver. Então, tudo se compõe numa história de cansaço, de onde a ferida que corrói a alma foi metamorfoseada no silêncio da indiferença. O odor fétido dá lugar a um ambiente inodoro e a ofensa toma o ar vítreo do esquecimento.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Arqueologias do espírito 38

Odilon Redon - Combate de centauros

No centauro converge uma dupla e antiquíssima tradição do olhar humano. Aquela que tomou por objecto a natureza animal e a que elegeu, sem consciência da eleição, o próprio homem. A fusão entre a animalidade e a consciência no ser mitológico é a confissão de que, no embate entre o biológico e o espiritual, o primeiro tem um peso e uma potência que ameaçam, desde a origem da espécie, a fragilidade com que o espírito habita o corpo dos homens, como se fosse um inquilino indesejado, sempre à beira do despejo.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Impressões 133. Cidades

Léonard Misonne, Souvenir de Londres, 1930-1940
Cidades são nostalgias perdidas entre impressões gravadas pelo olhar e o timbre do seu ronronar inscrito no fundo dos ouvidos. O cérebro elabora uma estranha composição, uma pintura que soa e uma sinfonia que se vê. Nessa hora, nasce a cidade, com a sua verdade musical e a singular autenticidade dos seus quadros expostos no museu do mundo.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Viagem de Inverno 6

Fernando Lemos, sem título, 1999 (Gulbenkian)

Habito na voracidade destes dias

sem o cântico do sol e o ofício da luz.

 

Esquecidos da ira final, os homens

caminham nas veredas de aço e fósforo.

 

Enlouquecidas, as aves partiram

para o sol do Sul e as ravinas de luz.

 

Fevereiro de 2026

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Meditação breve (210) O fluir da música

Arturo Souto Feijoo, Acordeonista, 1931

Sob a luminosidade secreta da música, os corações em diáspora abrem-se à saudade da pátria e às tentações do amor. A música desliza, abre as janelas do corpo, roda os gonzos da alma e poisa cândida no lugar onde a solidão se abre aos imperativos do desejo.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Micronarrativa (80) Mundo paralelo

A, van Dijk, Een Rustig Uurtje, 1906
Suspendia a vida para partir para outra vida. Todas as noites, entrava naquele mundo cuja porta só se abre quando se abre um livro. As leis da natureza são postas entre parêntesis, as regras sociais tornam-se irrelevantes, mesmo os traços de carácter perdem valor. Pois, naquele mundo escrito, a realidade muda e quem nele entra transforma-se, para ali poder viver e encontrar um sentido para a existência que leva fora desse universo feito de papel, tinta e sentidos imaginados.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Signo sinal 33. Fumo

Pablo Picasso, Humo en Vallauris, 1951

Mais do que de fogo, o fumo é um sinal da dança do vento. Eleva-se negro aos céus, mas contorce-se em estranhas acrobacias, como um corpo amadurecido numa escola de bailado, como uma árvore tocada pela incerteza de um vendaval.
 

sábado, 24 de janeiro de 2026

Viagem de Inverno 5

Bernardo Marques, Inverno (Gulbenkian)

Resguardo-me do frio da intempérie

na incandescência da solidão.

 

Ouvem-se no golfo da memória

as súplicas pela misericórdia do alto.

 

E na rasura da floresta dormem

animais presos à escassez do Inverno.

 

Janeiro de 2026

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

A memória do ar (45)

O. Freiherr von Loudon, Untitled Three-Color Landscape, 1900

A sumptuosidade do céu abre-se como um diamante inscrito no terraço da aurora. As cores rasgam a paisagem e formam uma memória aérea, um devaneio que prende a atenção entre a rosa de bronze e as pétalas de prata nascidas no ar da Primavera.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

A sombra da água (45)

Winslow Homer, A Summer Night, 1890

Das águas, erguem-se sombras e poisam na terra. Descansam e, ao levantarem-se, ganham corpo, forma humana. São mulheres e dançam; dançam levadas pela música do oceano e o ritmo das ondas, dançam envoltas pela fantasia da noite e uma esperança que desponta no luar ao inclinar-se sobre as águas.