sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Viagem de Inverno 4

Camille Pissarro, Morning, Sunshine Effect Winter, 1895

Canto uma esquecida canção,

do Oriente vem, ave poisada na voz.

 

O poder de perdoar rasga a noite

e toca o ombro do arqueiro que o alvo errou.

 

A inclinação da Terra esconde a luz

e a seta do Inverno ecoa no sal da manhã.

 

Janeiro de 2026

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

O Espírito da Terra (45)

Paul Gauguin, Breton Village in the Snow, 1894
É sob a visitação do Inverno que a Terra se mostra na sua verdade. A rudeza da vida crestada pela inclemência do vento e o ardor da neve abre o coração à realidade, e esta manifesta-se sem o véu dos dias amenos e as fantasias do Estio.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Biografias 40. O cientista

Lucien Aigner, Albert Einstein, 1940
Toda a ciência começa no cérebro e nele acaba, supõe, no fundo da consciência, o cientista, enquanto medita, através de estranhos algoritmos matemáticos, sobre a natureza da realidade. E para ele a realidade já não é aquela que todos partilhamos, mas uma outra quase invisível, que só ele avista no silêncio da sua meditação, no fumo que se evola do cachimbo para se perder no éter do pensamento. A ciência é um exercício prolongado do pensamento, polvilhado com o sal da imaginação. Um jogo que vai do cérebro que procura ao cérebro que encontra. O resto, o cientista ignora.

sábado, 10 de janeiro de 2026

Diálogos morais 74. Inspiração

Eduardo Zamacois y Zabala, La visita inoportuna

- Pode-se entrar?

- Hum… como?

- Se se pode entrar, passar a porta?

- Não, não estou preparado para visitas.

- Que raio, homem, que preparação precisas para receberes um velho amigo?

- Não é oportuna a visita.

- Estás a pintar?

- Sim, sim, claro, o que estaria aqui a fazer?

- Posso ver o que estás a fazer?

- Não, agora não.

- Uma surpresa, então?

- Surpreender é o desejo de qualquer artista.

- Então a inspiração tocou-te.

- Envolveu-me e eu a ela.

- Óptimo. Casa-te com ela, para não a deixares fugir.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Viagem de Inverno 3

László Meitner, Inverno em Paris (Gulbenkian)

Abro o corpo para o sol da manhã,

um cântico na combustão do silêncio.

 

Os Reis voltaram para o Oriente

iluminados pelo carmesim da Lua.

 

No crocitar do calendário, os dias crescem,

a Terra ecoa no húmus do universo.

 

Janeiro de 2026

 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Haikai do Viandante (446)

Marco Bicci, Paisagem de Inverno

Homens e animais
escutam a voz do vento.
Paisagem de Inverno.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Câmara discreta (32)

Istvan hanga, Ombre et appareil (shadow and camera), ca. 1933
A sombra está para as imagens como o murmúrio, para os sons. Esta incerta equação dá conta da reserva com que, por vezes, se usa a câmara fotográfica. Não se trata, então, de manifestar, sem pudor, aquilo que a máquina capta, mas torná-la num agente da sobriedade no mundo. Fotografar a sombra é, ao mesmo tempo, mostrar um rasto e desenhar uma promessa. Abrir um caminho ao olhar, mas deixar ao pensamento e à imaginação o passeio a dar, para que de uma sombra construam a cintilação da verdade.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Arqueologias do espírito 37

João Queiroz, sem título, 2005 (Gulbenkian)

Desfiladeiros, ravinas, formações rochosas, a terra árida de um deserto antigo. Depois, como se dilacerasse a parede inflexível da matéria, numa abertura luminosa como uma clareira na floresta, irrompe um azul celestial, cintilante, a transbordar de promessas que logo são transformadas em expectativas. Tudo isto se impregnou na consciência dos homens arcaicos, desceu neles descansando nos estratos elementares do inconsciente, para, lentamente, se elevar transformado em espírito, o guia que permite percorrer a multiplicidade das paisagens e descobrir sempre, em cada uma, o lugar cativo da esperança.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Viagem de Inverno 2

Oscar Monet, Two-Path at Argenteuil, Winter, 1875

Caminho na solidão de Dezembro,

abro portas no sigilo da memória.

 

Passou como uma sombra o Natal,

o esplendor da noite, a quietação do dia.

 

O frio envolve de geadas a manhã,

promete neve que a noite não trará.

 

Dezembro de 2025

 

domingo, 28 de dezembro de 2025

Impressões 132. Penumbra

Lyonel Feininger, Calle en penumbras

Caminham em ondas com a penumbra impressa no rosto. Não a penumbra que anuncia o crepúsculo e a noite, mas aquela que nasce dentro da alma e, fugindo à vigilância do espírito, inunda o corpo com o peso desmedido da sombra e a ríspida pulsação da melancolia.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Meditação breve (209) Os tempos mudaram

John Everett Millais, The Knight Errant, 1870
Houve um tempo em que para cada donzela em perigo havia um cavaleiro errante para a salvar. Os tempo mudaram radicalmente, mas não se sabe ao certo se foram as donzelas em perigo que acabaram, ou se os cavaleiros errantes abandonaram a sua vocação.

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Micronarrativa (79) A casa do silêncio

Pierre Bonnard, La Casa de Misia

Há casas varridas pelo vento da discórdia. Nelas, o espírito recolhe-se e o corpo mirra. Outras há habitadas pelo silêncio. Ali, os corpos respiram longamente e os espíritos encontram o seu lugar, fluindo entre as páginas de um livro, a memória acolhedora do passado e a esperança resplandecente de que tudo se mantenha nessa antecipação do paraíso.

domingo, 21 de dezembro de 2025

Viagem de Inverno 1

Caspar David Friedrich, Winter Landscape with Church, 1811

Sonho-me na sombra de sal do dia,

na súplica aberta na lava da exaltação.

 

Como um barco na melancolia do mar,

o Advento aproxima-se da candura do cais.

 

Move-se a geometria dos dias e das noites:

triunfais, as trevas cantam feridas de morte.

 

Dezembro de 2025

 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Signo sinal 32. Abandono

Giorgio de Chirico, Italian Piazza

A estátua jacente no seio de uma praça vazia é o signo não da solidão, mas do abandono. Não de alguém que foi abandonado, mas de um mundo que, exausto, expulsou de si os homens, abandonando-os à extinção, deixando permanecer, por instantes, o sinal da sua efémera e inútil passagem.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

A memória do ar (43)

Edward Leaming, Moonrise in the Catskills, 1890

Se o luar cinde a muralha das nuvens, então o ar resplandece e abre-se como uma velha memória perdida na gramática dos corpos. O ar é, então, a folha leve de um pensamento, a mancha imaculada na assimetria do mundo, a promessa de uma beleza avassaladora inscrita nos olhos presos à Lua.

domingo, 14 de dezembro de 2025

Silêncio de Outono (12)

H. L. Brusse, Herfstmorgen, 1906

Caem ainda das acácias

folhas vergadas

pelo tempo.

Juncam os caminhos,

o advento, a aurora.

 

Uma exaltação adormece

em mim, se apanho

do chão as folhas mortas.

 

Dezembro de 2025

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

A sombra da água (44)

E.H. de Saint-Senoch, Vieux Pont de Quimperlé, 1895

A água adormece à sombra da ruína. Esqueceu o destino que a moveu, os obstáculos que deixou para trás, o desejo que a impelia sempre para mais longe. Imobilizou-se e tornou-se um espelho, onde um Narciso faminto se há-de olhar sem escutar o eco do mar trazido pela incontinência do vento.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Geometrias de fogo (44)

Eduardo Nery, Longos Caminhos, 1980 (Gulbenkian)

Um fogo estelar floresce nos céus, rompe a cercadura das nuvens, desliza pelos ares, tocado pelo vento, e deposita-se nas águas. Arde, então, lentamente, uma chama misteriosa, uma labareda sem nome. É um fogo virginal, com a pureza das coisas singulares, com a textura enlouquecida de uma mão de aço que se agarra à raiz da terra.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Silêncio de Outono (11)

Alfred Sisley, Bank of the Seine in Autumn, 1876

Sem mácula, a paisagem

desdobra-se

nas cores de Outono

e na virginal

concepção do Inverno.

 

Percorro a senda dos dias:

espero a súbita

revelação da eternidade.

 

Dezembro de 2025


sábado, 6 de dezembro de 2025

O Espírito da Terra (44)

Frenchman and American advancing in to No-man’s land with Sacks of Hand Grenades, France, 1918

Sob o peso das botas cardadas, a terra geme. E nesta dor descobre-se nua, pois o véu do espírito que a cobria desfez-se ao toque do clarim, ao avanço dos soldados em direcção à morte que, naquela lugar sem nome, será a deles.