quinta-feira, 19 de março de 2026

O Espírito da Terra (47)

Vincent van Gogh, Casa de campo con árboles, 1885
Sob o vermelho do céu ao crepúsculo, a terra prepara-se para adormecer. O seu espírito vacila entre o sono e a vigília, mas já um sonho dela se desprende, para se elevar à morada dos imortais. Espera-o o silêncio dos grandes acontecimentos, o cenário onde todas as viagens se tornam possíveis.

terça-feira, 17 de março de 2026

Biografias 42. A mulher-arbusto

Imogen Cunningham - Dream Walking, 1968

Não chegara ainda aos 20 anos quando, numa visão que nunca conseguiu explicar, lhe foi comunicado que a dor que a habitava nascia da sua falta de enraizamento. Sem raízes, ouviu na intimidade do coração, nenhum lugar será o teu lugar, nenhum lar será a morada onde descansarás dos trabalhos e dos dias. Então, ela procurou o sítio onde lançaria raízes. Por um acaso, encontrou-o numa floresta. Escolheu uma clareira e ali permaneceu noite e dia, até que percebeu que os seus pés se prolongavam por dentro da terra e que ela pertencia ali. A surpresa maior, porém, foi quando viu que do seu corpo nascia uma ramagem que o vento embalava. Dos ramos, nasceram-lhe folhas. Era um arbusto e todas as Primaveras florescia. Encontrara as suas raízes.

domingo, 15 de março de 2026

Câmara discreta (34)

Edward Steichen, Portrait, 1905

As sombras confluem sobre o rosto, desenham uma silhueta onde a vida e a morte se escondem. Presa nessa máscara tecida pela retirada da luz, a mulher deixa os mais secretos pensamento chegar aos olhos, pois não haverá quem consiga lê-los e descobrir o texto que ali se escreve. Nem a dor nem a alegria, nem o desejo nem o cansaço fendem a muralha anunciadora da noite. Tudo é ocultação, um secreto exercício, a marca de um ser que esboça a representação do seu apagamento. 

sexta-feira, 13 de março de 2026

Viagem de Inverno 12

Manuel Filipe, Inverno-Primavera , 1978 (Gulbenkian)

Nuvens no céu tecem-me a nostalgia

do corpo mergulhado na poeira do calor.

 

Virá o espírito na opulência da oliveira

e derramará perfumes do Líbano.

 

O Inverno soletra as últimas palavras.

A voz do tempo abre-se ao júbilo da alvorada.

 

Março de 2026

quarta-feira, 11 de março de 2026

Arqueologias do espírito 39

Anónimo Bizantino, Pentecostes, 1537

Foi uma longa caminhada dos homens até chegarem a Pentecostes e encontrarem no vento impetuoso e nas línguas de fogo a manifestação do espírito. Ao longo de milénios, espantadas pela voz do vento e fascinados pela ondulação do fogo, as suas mentes, no segredo do não dito, foram construindo um porto sem nome. Chegada a hora, o vento que varre e o fogo que queima abriram uma clareira. Nela, aquilo que era particular, pelo dom das línguas, tornou-se universal, e o que era ignorância, sabedoria. O vento varreu o particular e descobriu o comum. O fogo queimou a ignorância e desvelou o sentido. O espírito encontrara o porto que o esperava.

segunda-feira, 9 de março de 2026

Impressões 134. Um olhar

William Henry Jackson, El Capitan, Yosemite, 1889
É um lugar de água ou de sombra. A névoa do mundo dança na música do silêncio. Os olhos abrem-se e, sobre eles, cai um exército de impressões, mensagens de luz que rompem a cerca da escuridão e alumiam, com a sílaba da cintilação, a trémula voracidade do espírito.

sexta-feira, 6 de março de 2026

Viagem de Inverno 11

Miguel Flávio, A cidade ao pôr-do-sol, 1967 (Gulbenkian)

O corpo solicita-me a erva das ruas

e o saibro ígneo do entardecer.

 

A parábola dos vinhateiros abre um tonel

de sangue no caminho da inocência.

 

O mundo respira sob o saibro das ervas

o vinho da morte e o vítreo vento das glicínias.

 

Março de 2026

 

quarta-feira, 4 de março de 2026

Meditação breve (211) O gato

Oskar Kokoschka, Amantes con gato, 1917

Entre os amantes, o amor cedeu ao cansaço, e na luz do hábito o desejo ensombreceu. Então veio o gato, e cada amante passou a amar o talento do felino. E o amor ao animal era tanto que o cansaço e o hábito foram esquecidos. Não era a velha paixão, mas um amor comum que transbordava para o império dos seus corpos.

segunda-feira, 2 de março de 2026

Viagem de Inverno 10

Rockwell Kent, Admiralty Inlet, 1922

Sigo pela luz da árvore do silêncio,

deixo germinar a semente da ciência infusa.

 

A voz terrível da rosa da benevolência

troa sob a tempestade de um mandamento.

 

Um céu quaresmal feito de cinza cobre

os campos onde a tempestade se silencia.

 

Março de 2026

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Micronarrativa (81) A noiva

Julia Margaret Cameron, Enid, 1874
A noiva, presa na brancura do vestido, abre lentamente o roupeiro. Não procura uma peça de vestuário que lhe falte, tão pouco pretende mudar de roupa. Encontrou ali o abrigo, onde se esconderá antes que, no altar, o casamento seja declarado e ela deixe de ser noiva e passe a ser outra coisa que não quer imaginar.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Signo sinal 34. Fonte da juventude

Joaquín Torres García, La fuente de la juventud, 1906

Não é de uma juventude eterna que a fonte é simbolo, mas do próprio poder da juventude, através da renovação das gerações, ser fonte de novas e infinitas possibilidades, de mundos que, no sonambulismo do presente, não temos o poder de descortinar. A água que sai dessa fonte é tumultuosa, mas os dias dar-lhe-ão a serenidade que a natureza das coisas sempre traz.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Viagem de Inverno 9

Claude Monet, Antibes, Seen from La Salis, 1888

Os dias são a rede que me captura

no mar entrelaçado de névoa e memória.

 

A palavra ergue-se para frutificar

e retorna à sombra vitoriosa do silêncio.

 

O céu cobriu-se de cinza e nuvens,

fruto silente, rede à espera da água.

 

Fevereiro de 2026

sábado, 21 de fevereiro de 2026

A memória do ar (46)

Edward Steichen, Balzac, the Open Sky - 11 P.M. 1908
A luz da Lua iluminou o milagre da ascensão do escritor aos céus. O ar envolveu a estátua e, rendido à memória da escrita, sugou-o lentamente, libertando-o das leis da necessidade e do peso iníquo da gravidade. Os deuses receberam o homem no Olimpo, e Eolo, como gratidão, soprou suavemente sobre a Terra, para que as palavras do novo deus não se dispersassem nas areias do deserto.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A sombra da água (46)

L. Primet, Vallée du Giffre, 1899

As águas descem da montanha e são um rio que, na sua vertigem, arrasta a sombra que as gerou, para a estender pelo mundo, até que o mar as receba na voragem das ondas e na paz que reside em toda a dissolução.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Geometrias de fogo (46)

Joaquín Mir, Dia de vent
O fogo suspende-se nos céus, inunda as nuvens e deixa cair, no silêncio da montanha, flocos feitos de pétalas de rosa e flores de jacarandá. Então, o vento toma conta da dádiva e, soprando com a energia de um incêndio, distribui a luz sobre o rochedo das encostas e o verde dos planaltos, para que plantas e animais sintam, no ardor do lume, a promessa de vida.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Viagem de Inverno 8

Ovidio Murguía de Castro, Invierno

Esqueço os dias nas artérias da memória

e abro o corpo à melancolia da luz.

 

Os pobres esperam a bem-aventurança

na cintilação da árvore plantada à beira-rio.

 

A neblina desce dos céus e deixa um rasto

de água nas ervas do caminho, no chão das ruas.

 

Fevereiro de 2025

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O Espírito da Terra (46)

Edouard Hannon, Die letzten schönen Tage, 1897

É secreto, como um coração silencioso, o espírito da terra. Os homens pressentem-no , mas raros são aqueles que o escutam. A multidão teme-o, se ele se revolta, mas não tem ouvidos para escutar a sua música, composta pela transfiguração dos elementos e a demorada respiração dos anos.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Biografias 41. A mãe

Georg Einbeck, Mutter und Kind, 1898
A mãe descobre-se ao oferecer o seio ao filho. Nessa oferta reside o seu mistério mais profundo. Não basta trazê-lo no ventre, mas nutri-lo com o leite nascido no próprio corpo. Abre-o assim ao mundo e oferece-lhe uma possibilidade de resistir às intempéries. E nisto reside a biografia de uma mãe: abrir o caminho para que a nova vida vingue quando se solta do cordão umbilical e entra no território adverso, onde terá de encontrar um caminho, desbravando a selva e enfrentando os perigos que espreitam a cada instante. E, em cada nova conquista do filho, sorri a vitória da mãe, dessa mãe que lhe ofereceu o seio para que no leite ele encontre o segredo da vida. Em cada passo de um filho existe a sombra benfazeja do seio de uma mãe.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Pintura e haikus (48)

Gino Severini, Suburban Train Arriving in Paris, 1915
 Chegam do subúrbio
comboios de cinza e fumo.
Morrem em silêncio.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Viagem de Inverno 7

Francis Picabia, Amanecer en la bruma, Montiguy, 1905
Os sentidos exultam no vestígio de sol

e em mim levanta-se a vegetação do dia.

 

Sois o sal da terra, a luz do mundo, canta-se

na cintilação do fogo, no vidro da candeia.

 

O troar da tempestade cessou: a súplica

da terra, o rumor do céu, a revolta do mar.

 

Fevereiro de 2026