sexta-feira, 31 de julho de 2026

Sonhos de Verão 6

Carlos de Haes, Playa de Guethary, 1881 (aproximadamente)

São surdos os que se prostram no templo,

corre-lhes o Estio nas veias, o avaro coração.

 

As marés baixas abrem um deserto na praia.

Se as gaivotas grasnam, não há quem as oiça.

 

Caminho pela senda sombria do crepúsculo,

escuto a voz pregada na estreita cruz da surdez.

 

 Julho de 2026

quarta-feira, 29 de julho de 2026

A sombra da água (49)

Georges Balagny, Coucher de Soleil, 1894

Na hora em que o Sol se põe, de velas desfraldadas, os pequenos barcos adormecem sobre as águas, embalados por um suave ondular trazido pelo vento, fascinados pelo murmúrio anunciador da noite. Tudo se aquieta sob o governo inflexível  da necessidade, se a luz se esconde e o oceano se entrega à dança sem nome da escuridão.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Geometrias de fogo (49)

William Turner, Sun Rising Through Vapor, Fisherman Cleaning and Selling Fish, 1807

Ao erguer-se, sob a névoa, o Sol ainda não é uma paisagem de fogo incrustada no horizonte. É apenas uma promessa de calor disfarçada pela água em vapor, a memória de uma canção consoladora, se o dia chega frio e os seres imersos na vida anseiam pelo carmesim do alívio.

sábado, 25 de julho de 2026

O Espírito da Terra (49)

Léonard Misonne, Staubiger Weg, 1897

Os caminhos abrem a Terra para que esta liberte o seu espírito e este paire sobre os homens que a atravessam. Cada trilho é mais que uma cicatriz, mais que a memória de uma dor. É uma promessa, a condição de possibilidade para que o viandante escute o coração do lar que lhe foi dado.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Sonhos de Verão 5

Paul Cezanne, Bibemus Quarry, 1898-1900

Na grávida luz da graça, uma terra de pomares,

herança contaminada pelo musgo da abominação.

 

A lira da noite cai sobre o fogoso seio do Estio,

as raparigas abrem-se ao contágio do amor.

 

Infectado, murmuro no bálsamo do vento Norte.

Julho cobre-me o zumbir nascido do desejo.

 

Julho de 2026

 

terça-feira, 21 de julho de 2026

Biografias 44. O reformador

Autor desconhecido, Carl Schurz, 1889
No prolongamento do olhar do reformador, existe um mundo novo que virá. Reforma após reforma, o que era desmorona-se, e aquilo que não era ganha figura e, depois, realidade. O reformador tem uma aparência humana. Fala como os homens, anda como os homens, come como os homens, mas, na verdade, não é um ser humano. É um agente do tempo, um discípulo secreto do anjo da história. Ninguém sabe se pertence às hostes angelicais celestes ou é um anjo caído. Até hoje, os homens não descobriram se a morte do velho e a vinda do novo é uma bênção ou uma maldição. Para o reformador, é apenas uma tarefa.

domingo, 19 de julho de 2026

Câmara discreta (36)

G. Oury, Au Coin du Feu, 1903
A onda esmeralda do olhar esconde-se do desejo inquisidor da câmara. Esta recua no seu propósito e, amotinada pela nostalgia da transparência, deixa-nos ver apenas a sombra que se dirige dos olhos para o objecto de contemplação, sem que o pensamento daquela que contempla se deixe trair pelo desejo de mostrar o que nunca deve ser mostrado.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Haikai urbano (80)

Peter Turnley, La Brasserie de l'Ile St. Louis, Paris, France, 1993
 Sonhos na cidade,
cerveja, música, amor.
Rude solidão.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Sonhos de Verão 4

Otto Scharf, Eifeldorfbrücke, 1908

Raquíticos serão os possantes guerreiros,

tomados pelas convulsões do Verão.

 

A luz cintila nos cardos do Estio,

abre-os à turbina dos olhos do veraneante.

 

Lenhador sem lenha, serrador sem madeira,

fabrico no silvar do Sol o silencio do lar.

 

Julho de 2026

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Arqueologias do espírito 41

Karel Masek, La Primavera, 1903

É um enigma o momento em que os homens fizeram a estranha descoberta de que as estações do ano eram mais do que divisões de um calendário artificial que dava conteúdo ao vazio do tempo. Quando se olhou o horizonte e se disse estamos na Primavera, nesse instante descobriu-se o princípio de esperança como uma das letras fundamentais do alfabeto onde se declina o espírito humano.

sábado, 11 de julho de 2026

Impressões 136. Esboços

Gertrude Käsebier, The Sketch, 1903

Todo o esboço é uma recolha de impressões. A realidade mostra-se hesitante ao olhar, como se a habitasse um temor que deve esconder. A mão deixa-se contaminar pela hesitação e inscreve no papel não aquilo que a realidade é, mas como esta se sente perante os olhos sem pudor que a perscrutam.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Meditação breve (213) A hora do chá

Columbano Bordalo Pinheiro, A Chávena de Chá, 1898

A hora do chá não é um momento inscrito na linha temporal do dia, tão pouco um instante de descanso das corveias quotidianas. Sentar-se, servir o chá e bebê-lo constituem um exercício de suspensão do tempo, uma tentativa de enfrentar o império despótico de Cronos. Uma expressão do desejo de eternidade.

terça-feira, 7 de julho de 2026

Sonhos de Verão 3

Gustave Guillaumet, El Sahara, 1867

O bezerro de Samaria é vento semeado,

espera-o as tempestades de Verão.

 

Entre a infância da cidade cresceu o deserto,

as ruínas soçobram ao peso das areias.

 

Não me consola a água do oceano:

Afasto o olhar, perco-me na linha do horizonte.

 

Julho de 2026

domingo, 5 de julho de 2026

Micronarrativa (83) Recomeço

Alfred Stieglitz, A Wet Day on the Boulevard, 1895

Saiu de casa sem dizer palavra. Atravessou o boulevard sob a chuva, mas esta ignorava-o. Seguiu cada vez mais depressa. Não era, porém, medo de ser perseguido, apenas uma urgência que não saberia explicar. A certa altura, vê uma porta aberta. É ali, pensa. Entra. Não descobre palavras para o que o esperava. Sente medo, mas logo uma grande alegria se apodera de todo o seu ser. É um mundo novo e inexplorado posto à sua disposição. Pode agora recomeçar.

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Pintura e haikus (49)

Alexander Mikhailovich, Composición, 1939
 Cores em tumulto
são gerânios na aurora.
Do vazio ao caos.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Signo sinal 36. Anunciação

Henry Ossawa Tanner, Anunciação, 1898

Pensa-se que aquele a quem é feita uma anunciação é um sujeito passivo perante a voz que declina o anunciado. Ora, toda a anunciação é, ao mesmo tempo, o signo de uma convocação, de um chamamento à agência de quem foi tocado pela palavra. Anunciar é fazer um apelo à autonomia de quem, em silêncio, escuta.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Sonhos de Verão 2

Vincent Van Gogh, Campo arado, 1888

Quem espera a manifestação em glória

completou a corrida, combateu o bom combate.

 

O ardor dos dia de Junho trouxe aos campos

o resplendor do mundo por criar.

 

Pego no arco e despeço-me da seta.

O meu combate abre-se ao silêncio do alvo.

 

Junho de 2026

sábado, 27 de junho de 2026

A memória do ar (48)

Otto Scharf, Wacholder, 1908

O ar envolve as paisagens, molda-as como um secreto artífice e abre-as para o olhar de quem passa. Se um vento se agita, tudo se inclina à sua leveza feita de crepúsculos de silêncio e tempestades de seda e púrpura. O bramir das corças mistura-se com o canto das aves, propagando-se, como um concerto, em ondas de memória a ecoar pela tarde.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

A sombra da água (48)

Ferdinand Hodler, El lago Léman y el macizo del Mont-Blanc, 1918

Um lago é o lugar onde a água adormece pacificada e se abre aos sonhos mais tranquilos. Ali esquece o tumulto dos rios e a eterna rebelião dos oceanos. Espelha nesse sossego a ordem dos céus e a música de um cântico ancestral de que perdeu a memória.

terça-feira, 23 de junho de 2026

Geometrias de fogo (48)

Oswald Achenbach, Fuegos Artificiales en Nápoles, 1875

Não é um ciência infusa, mas antes uma difusa loucura a que habita o fogo, quando se torna um artifício provocado para se exibir diante de olhos humanos e fazer vibrar as cordas tensas do coração. Procuram submetê-lo a uma rígida geometria, mas ele pertence a uma outra, aquela que não parecendo racional é a raiz de todas as razões.