sábado, 21 de fevereiro de 2026

A memória do ar (46)

Edward Steichen, Balzac, the Open Sky - 11 P.M. 1908
A luz da Lua iluminou o milagre da ascensão do escritor aos céus. O ar envolveu a estátua e, rendido à memória da escrita, sugou-o lentamente, libertando-o das leis da necessidade e do peso iníquo da gravidade. Os deuses receberam o homem no Olimpo, e Eolo, como gratidão, soprou suavemente sobre a Terra, para que as palavras do novo deus não se dispersassem nas areias do deserto.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A sombra da água (46)

L. Primet, Vallée du Giffre, 1899

As águas descem da montanha e são um rio que, na sua vertigem, arrasta a sombra que as gerou, para a estender pelo mundo, até que o mar as receba na voragem das ondas e na paz que reside em toda a dissolução.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Geometrias de fogo (46)

Joaquín Mir, Dia de vent
O fogo suspende-se nos céus, inunda as nuvens e deixa cair, no silêncio da montanha, flocos feitos de pétalas de rosa e flores de jacarandá. Então, o vento toma conta da dádiva e, soprando com a energia de um incêndio, distribui a luz sobre o rochedo das encostas e o verde dos planaltos, para que plantas e animais sintam, no ardor do lume, a promessa de vida.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Viagem de Inverno 8

Ovidio Murguía de Castro, Invierno

Esqueço os dias nas artérias da memória

e abro o corpo à melancolia da luz.

 

Os pobres esperam a bem-aventurança

na cintilação da árvore plantada à beira-rio.

 

A neblina desce dos céus e deixa um rasto

de água nas ervas do caminho, no chão das ruas.

 

Fevereiro de 2025

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O Espírito da Terra (46)

Edouard Hannon, Die letzten schönen Tage, 1897

É secreto, como um coração silencioso, o espírito da terra. Os homens pressentem-no , mas raros são aqueles que o escutam. A multidão teme-o, se ele se revolta, mas não tem ouvidos para escutar a sua música, composta pela transfiguração dos elementos e a demorada respiração dos anos.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Biografias 41. A mãe

Georg Einbeck, Mutter und Kind, 1898
A mãe descobre-se ao oferecer o seio ao filho. Nessa oferta reside o seu mistério mais profundo. Não basta trazê-lo no ventre, mas nutri-lo com o leite nascido no próprio corpo. Abre-o assim ao mundo e oferece-lhe uma possibilidade de resistir às intempéries. E nisto reside a biografia de uma mãe: abrir o caminho para que a nova vida vingue quando se solta do cordão umbilical e entra no território adverso, onde terá de encontrar um caminho, desbravando a selva e enfrentando os perigos que espreitam a cada instante. E, em cada nova conquista do filho, sorri a vitória da mãe, dessa mãe que lhe ofereceu o seio para que no leite ele encontre o segredo da vida. Em cada passo de um filho existe a sombra benfazeja do seio de uma mãe.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Pintura e haikus (48)

Gino Severini, Suburban Train Arriving in Paris, 1915
 Chegam do subúrbio
comboios de cinza e fumo.
Morrem em silêncio.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Viagem de Inverno 7

Francis Picabia, Amanecer en la bruma, Montiguy, 1905
Os sentidos exultam no vestígio de sol

e em mim levanta-se a vegetação do dia.

 

Sois o sal da terra, a luz do mundo, canta-se

na cintilação do fogo, no vidro da candeia.

 

O troar da tempestade cessou: a súplica

da terra, o rumor do céu, a revolta do mar.

 

Fevereiro de 2026

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Câmara discreta (33)

Eve Arnold, Bar girl in a brothel in the red light district. Havana, Cuba, 1954
A câmara esconde a desolação, a raiva e o ódio sob a capa da melancolia. Os sentimentos fortes perturbam quem vê e não aliviam a dor de quem se deixa ver. Então, tudo se compõe numa história de cansaço, de onde a ferida que corrói a alma foi metamorfoseada no silêncio da indiferença. O odor fétido dá lugar a um ambiente inodoro e a ofensa toma o ar vítreo do esquecimento.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Arqueologias do espírito 38

Odilon Redon - Combate de centauros

No centauro converge uma dupla e antiquíssima tradição do olhar humano. Aquela que tomou por objecto a natureza animal e a que elegeu, sem consciência da eleição, o próprio homem. A fusão entre a animalidade e a consciência no ser mitológico é a confissão de que, no embate entre o biológico e o espiritual, o primeiro tem um peso e uma potência que ameaçam, desde a origem da espécie, a fragilidade com que o espírito habita o corpo dos homens, como se fosse um inquilino indesejado, sempre à beira do despejo.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Impressões 133. Cidades

Léonard Misonne, Souvenir de Londres, 1930-1940
Cidades são nostalgias perdidas entre impressões gravadas pelo olhar e o timbre do seu ronronar inscrito no fundo dos ouvidos. O cérebro elabora uma estranha composição, uma pintura que soa e uma sinfonia que se vê. Nessa hora, nasce a cidade, com a sua verdade musical e a singular autenticidade dos seus quadros expostos no museu do mundo.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Viagem de Inverno 6

Fernando Lemos, sem título, 1999 (Gulbenkian)

Habito na voracidade destes dias

sem o cântico do sol e o ofício da luz.

 

Esquecidos da ira final, os homens

caminham nas veredas de aço e fósforo.

 

Enlouquecidas, as aves partiram

para o sol do Sul e as ravinas de luz.

 

Fevereiro de 2026