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| Henri Michaux, sem título, 1939 |
quarta-feira, 4 de junho de 2025
Impressões 128. Transfiguração
Estranhas metamorfoses ocorrem no interior da terra. Uma semente germina e, quando se manifesta à luz do sol, o que os olhos vêem é um novo animal, uma espécie ainda não catalogada, um ser que não se enquadra em nenhuma taxinomia. Tão espantosas são essas transformações que delas ninguém fala. Uns por medo, outros por reverência, outros porque não sabem o que dizer perante a desordem que irrompe no mundo e rasga o cenário onde todos habitam.
segunda-feira, 2 de junho de 2025
Histórias sem nexo 36. Tragédia
sábado, 31 de maio de 2025
Meditação breve (205) Acusação
quinta-feira, 29 de maio de 2025
Pulsar de Primavera (10)
terça-feira, 27 de maio de 2025
Micronarrativa (75) Imperativos
domingo, 25 de maio de 2025
Signo sinal 28. Sem raízes
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| Giorgio de Chirico, La recompesa del Adivino, 1913 |
Haverá um momento em que sobre a Terra já não haverá seres humanos, mas persistirão ainda as suas cidades, as casas, as ruas, as praças. Ninguém, porém, pensará sobre elas, olhará para a arquitectura e entregar-se-á ao prazer de as contemplar. Tudo terá entrado no nada, não porque tenha deixado de existir, mas porque não há pensamento que enraíze as coisas ao solo da Terra.
sexta-feira, 23 de maio de 2025
quarta-feira, 21 de maio de 2025
Pulsar de Primavera (9)
segunda-feira, 19 de maio de 2025
O sal do silêncio (124)
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| Robert Liep, Gewittersturm, 1900 |
Uma tempestade assombra o silêncio, quebra-lhe as raízes, abre-o ao devir, como um amante intrépido se entrega ao cândido pavor de uma paixão. A terra treme e um trovão crava os dedos no ritmo errático do coração, onde o murmúrio da pulsação se oculta na glicínia da mudez.
sábado, 17 de maio de 2025
A memória do ar (40)
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| Todd Webb, Broadway at Wall Street, New York, 1959 |
O ar nocturno despe-se das memórias luminosas e paira sobre as suas presas como uma ave de rapina. Indiferentes ao perigo, homens e mulheres fendem o muro da escuridão, passam absortos sem olhar o próximo que com eles se cruza, entregando-se, não sem um secreto prazer, na tormentosa vertigem das trevas.
quinta-feira, 15 de maio de 2025
Pulsar de Primavera (8)
terça-feira, 13 de maio de 2025
A sombra da água (40)
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| Claude Monet, Water Lilies (The Clouds), 1903 |
Um vestígio do céu penetra nas águas, como uma sombra nublada feita de hábitos ancestrais. Também a natureza tem uma linhagem e uma herança. Por vezes, toma a forma de lei, outras é um jogo artístico, uma composição musical, onde a água que corre na Terra chama a que voa pelos céus.
domingo, 11 de maio de 2025
Geometrias de fogo (40)
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| Paula Rego, O Gigante de Minsky, 1958 (Gulbenkian) |
O fogo é um animal selvagem: talvez um leão, talvez um leopardo, talvez um tigre. Tem garras afiadas para ferir aquilo em que toca, para queimar a pele da terra e incendiar os horizontes. Como o olhar de um grande felino, o fogo vibra na escuridão da noite. E, onde leva a luz, oferece também a escuridão das cinzas.
sexta-feira, 9 de maio de 2025
O Espírito da Terra (40)
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| Jaime Morera y Galicia, Cabeza de Hierro. Guadarrama, 1891-97 |
Será nas montanhas que o espírito da Terra se refugia, quando a acção dos homens, tocados pela impiedade da dominação, abre, na frágil pele do planeta, escaras hediondas. O coração sangra. O corpo, rasgado pela dor, recolhe-se no alto. O espírito contempla então o desvario e entrega-se a uma terapia feita de distância e solidão.
quarta-feira, 7 de maio de 2025
Pulsar de Primavera (7)
segunda-feira, 5 de maio de 2025
Biografias 35. O pintor perdido
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| André Kertész, Piet Mondrian, Paris, 1926 |
O pintor oferece os seus olhos à câmara fotográfica para que esta, no fundo deles, encontre as linhas, as cores e as formas que o habitam. Ela, porém, teme o seu olhar, perde-se na rigidez da postura, no temor que o habita perante um mundo maquinal, e devolve-nos um artista sem a sua arte, um pintor sem a cor da sua pintura, um homem tomado no oceano da convenção.
sábado, 3 de maio de 2025
Diálogos morais 69. Mercado
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| Dorothea Lange, Consumer relations, San Francisco, 1952 |
- Despacha-te, não podemos chegar atrasados.
- Dá-me colo.
- Os homens não andam ao colo.
- Sou uma criança e tu és a minha mãe.
- As crianças, também não. Estão à nossa espera.
- Não quero ir.
- Vamos...
- Vamos a onde?
- Vamos à loja comprar...
- Vamos, mesmo?
- Sim.
- E lá também se vendem mães?
quinta-feira, 1 de maio de 2025
Pulsar de Primavera (6)
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| José Pedro Croft, Et Sic In Infinitum, sd (Gulbenkian) |
pelas ruelas sem nome
passa o vento da primavera
traz o aroma do oceano
ao portfolio vazio da cidade
preso na passagem sem saída
abro o coração à tempestade
Maio de 2025
terça-feira, 29 de abril de 2025
Câmara discreta (27)
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| Edward Steichen, On George Baher’s yacht, 1928 |
O mar coberto pela bruma fascina o olhar. Tudo se torna, então, um mistério. O balancear do barco, o ruído das águas, o bater apressado dos corações. Enquanto as mulheres se deixam enredar no silêncio da fantasia, nas mil possibilidades que aquela hora lhes apresenta à vertigem da vontade, o fotógrafo evita a indiscrição: esconde-lhes o olhar para não lhes prescrutar as almas. Respeita a imersão no sonho e a combustão do corpo. Evita desocultar as flores monstruosas do pensamento ou o latejar da vontade perdida na imensidão inominável do oceano.
domingo, 27 de abril de 2025
Arqueologias do espírito 32
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| Herbert Boeckl, Der Wörthersee, 1928 |
A vibração da cor e a sua multiplicidade e variabilidade sem fim são um indício do nascimento do espírito. A exuberância com que a paisagem se apresenta é o sinal de uma gravidez prestes a chegar ao fim. Então, nasce, na consciência do homem, um murmúrio, como se um vento suave lhe soprasse a face e o chamasse para dentro de si mesmo. Não, aquelas cores não são um fim, apenas a mediação entre aquele que olha a voz que o chama.
sexta-feira, 25 de abril de 2025
terça-feira, 22 de abril de 2025
Pulsar de Primavera (5)
domingo, 20 de abril de 2025
Impressões 127. Um coração terrível
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| Émile-René Ménard, La Bañista, 1913 |
Era como se um coração terrível sentisse, de repente, um torpor, a necessidade de oferecer o corpo è contemplação e esquecer a combustão de cada dia. No rumor matinal, a nudez é apenas a matéria friável do sossego, um desejo obscuro de pertença ao grande segredo da terra quando se abre ao silêncio do céu.
sexta-feira, 18 de abril de 2025
Histórias sem nexo 35. Fatalidades
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| Francisco Suñer, A la fiesta, 1981 |
Na
fonte à fábrica dos fanqueiros, Felisberto e Feliciana falavam de Fernando,
filho de faustosa família, ferrado em Fez. Falta, fez? O fungo do flagelo e o fogo
das ferozes forças forraram a fidelidade da fábula. Ficou a famosa fé e a ferida
funesta do fado. Foi-se, frisou Felisberto. Forte frente à falida fraqueza dos
fregueses, fundamentou Feliciana. Fim fatal.
quarta-feira, 16 de abril de 2025
Meditação breve (204) O corpo nu
segunda-feira, 14 de abril de 2025
Pulsar de Primavera (4)
sábado, 12 de abril de 2025
Micronarrativa (74) Indistinção
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| Gustav Klimt, Schubert ao Piano, 1899 |
O que move aquelas mulheres? O amor da música ou o desejo do músico? Elas não o sabem, pois o seu ser é incapaz de distinguir o ritmo musical da gramática com que o ele se apresenta ao seu olhar. Conforme, os acordes irrompem, elas fecham os olhos e o que vêem é apenas aquela figura, que não é mais do que o desenrolar do ritmo com que o som vem à existência, paira por instantes e se desvanece no fundo dos seus corações.
quinta-feira, 10 de abril de 2025
Signo sinal 27. Sentido
| Marc Chagall, Cain and Abel, 1911 |
A
tragédia humana nasce não daquilo que meramente acontece, mas do poder que os
homens trazem consigo de dar sentido ao que acontece. Se o assassinato de Abel
por Caim fosse um mero evento, não haveria qualquer tragédia, apenas um facto
no mundo natural. Mas é mais do que isso, pois foi transformado em signo que dá
um sentido, que ilumina o acto e permite ver o que nele há de perverso.
terça-feira, 8 de abril de 2025
O sal do silêncio (123)
| Benvenutu Benvenuti, Alba em Padule, 1926 |
Sobre o paul, a aurora desliza com a serenidade das coisas geradas no silêncio. Nem o tumulto do dia, nem a perturbação do ocaso, nem a insegurança da noite: nada toca a irrupção da luz, que, no sossego inefável do mistério onde habita, se prepara para dissolver as trevas e serenar os corações tolhidos pela inquietação.
domingo, 6 de abril de 2025
Pulsar de Primavera (3)
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