domingo, 16 de julho de 2017

Meditação breve (35) - Sombras

Rodney Smith - Gary Descending Stairs, 1995

O sentimento de realidade e de solidez que ostentamos talvez seja apenas uma ilusão do nosso desejo. No lugar de vermos a sombra que somos, projectamo-nos como objectos reais dotados de existência. Até ao dia em que a ilusão se dissipa como a sombra se dissipa na ausência de luz.

sábado, 15 de julho de 2017

Uma bela mulher

Sergio Larraín - London (1959)

Pode dizer que ela era uma delas. Vinha ali algumas vezes por semana. Eu via-a da minha janela. Chegava e as aves envolviam-na, pousavam-lhe nos ombros, esvoaçavam sem inquietação em torno dela. Uma bela mulher. Não se pode dizer que falasse com os pássaros. Cantava e isso era tudo. A sua voz de contralto apaziguava-os. Quando se calava, as aves voavam para longe e ela ia-se embora. Ontem veio como das outras vezes, cantou a mesma ária de sempre, só que as aves em vez de a rodearem, mantiveram-se em bando bem acima dela. Então, ela começou a esbracejar e, pode crer, ergueu-se da terra e foi ao seu encontro. Desapareceram no horizonte.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Haikai do Viandante (327)

Hiroshi Sugitomo - Ligurian Sea, near Saviore, 1993

do céu o silêncio
cai sobre o mover das águas
névoas de verão

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Desdobrar-se

Carel Blazer - Double print, portrait, 1932 

O desejo de se desdobrar é uma revolta contra os limites da condição humana. O corpo impõe-nos a unidade, mas o espírito é múltiplo e incansável na processo de diferenciação. Jamais está apaziguado com a unidade que a materialidade do corpo lhe impõe. Por isso, inventa continuamente novas e novas formas de se tornar outro, de se tornar múltiplo, de ser muitos apesar de possuir apenas um só corpo. Se o corpo lhe impõe que se dobre, ele, o espírito, responde desdobrando-se.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Poemas do Viandante (637)

Kuno Küster - Deserto do silêncio

637. no deserto do silêncio

no deserto do silêncio
desejo a
sílica do olhar
e oiço
o sulco suave
das mãos
soltas
na névoa negra
das noites de novembro

(11/12/2016)

terça-feira, 11 de julho de 2017

O acrobata

Marino Marini - Acrobats (1960)

Pensamos as acrobacias como exercícios de equilíbrio fundados na destreza, agilidade, força e risco. Vale, porém, a pena fazer a arqueologia da palavra. Descobrimos a sua origem no vocábulo grego akróbatos, aquele que anda em bicos dos pés. Há uma certa continuidade de ideia. Andar em bicos dos pés implica equilíbrio. A destreza física do equilibrar-se acaba, todavia, por nos esconder o desejo que se esconde nessa estranha forma de andar. Tem duas características. Por um lado, é uma diminuição da base de apoio do homem, diminuindo o contacto do corpo com a terra. Por outro, é um elevar-se em direcção ao céu. Na essência da acrobacia há, deste modo, um desejo de elevação e de superação da condição terrestre do homem.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Eclipse

Mario Sironi - L'eclisse (1942)

Oiço-a gritar, chamar por mim, dizer coisas que nunca julguei ouvir, mas não a vejo. De um momento para outro deixei de a ver. Se eu a conhecia? Não sei. O facto de ter casado com ela há 20 anos não prova nada. Nós julgamos que conhecemos alguém, mas isso não passa de uma presunção. O surpreendente é que quando a via, quando o seu corpo estava perante os meus olhos, nunca a ouvi gritar ou dizer o que quer que fosse de desagradável. Até que um dia alguma coisa se interpôs entre nós. Tem toda a razão. Um eclipse, um verdadeiro eclipse. Deixei de a ver. Quanto menos visível, mais audível se torna a sua voz. Enlouqueço.

domingo, 9 de julho de 2017

Haikai urbano (16)

Fred Stein - Cobblestones, Paris (1936)

a calçada cresce
sobre o mistério da terra
rua sem raízes

sábado, 8 de julho de 2017

Meditação breve (34) - A espera

Otto Ehrhardt - Waiting (1929)

Toda a espera nasce de uma desadequação perante o presente. Este tornou-se tão insuportável que se é levado a tomar a espera como o momento que antecede a redenção que o futuro trará.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Poemas do Viandante (636)

Modest Cuixart - Boscatge de Varignon (1994)

636. incendeia-se a floresta

incendeia-se a floresta
de vidro
presa na variz
do vento
suada pelo murmúrio
do fogo
adormecida no grito
de um pássaro
de asas de sangue
e folhas como penas a arder

(11/12/2016)

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Noites de Verão

Winslow Homer - Summer Night (1890)

Ao pensar-se em noites de Verão, o pensamento, de imediato, é conduzido à ideia de sonho. Certamente, a peça de Shakespeare - Sonhos de uma Noite de Verão - terá, nessa associação, um papel. No entanto, sempre se pode especular que o nome da peça seja já o resultado de uma experiência primordial da humanidade, muito anterior ao dramaturgo inglês, experiência que liga as noites de Verão ao sonho. Essa ligação é feita através do desejo. A combinação da temperatura cálida e da noite torna-se um poderoso estimulante do desejo. O sonho nasce então desse desejo que perdeu as amarras que a luz e o frio sobre ele faziam cair.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

A sombra

Toni Schneiders - Shadow (1956)

Também eu pensava assim. Temos dificuldade em libertarmo-nos do que aprendemos. Sabida uma coisa, ela torna-se um hábito e este é uma segunda natureza. Durante muitos anos sempre pensei a sombra como um espaço privado de luz devido à interposição de um obstáculo opaco. A tradição ensinava-o e a experiência confirmava-o. Uma dia, porém, vi a minha própria sombra a pairar entre mim e a fonte de luz. Não era possível, mas ela ali estava contra todas as probabilidades. Olhei-a durante muito tempo, até que percebi que ela era apenas a projecção dos meus pensamentos. Nessa altura dissolveu-se, mas volta todos os anos no dia do meu aniversário. 

terça-feira, 4 de julho de 2017

Construtores de pontes

William H. Fox Talbot - Suspension Bridge, Rouen (1846)

Na vida espiritual do homem - seja em que área for - a construção de pontes tem um lugar central. É certo que as diversas artes, no século XX, tentaram eximir-se a esse papel, encerrando-se muitas vezes em si mesmas, erguendo muros que as preservassem do contacto com o outro. Esse encerramento, porém, leva-as ao estiolamento. O espírito - onde se inclui o que anima as artes - é mediação, experiência da alteridade, ruptura com o idêntico e com a clausura. É por isso que todo o homem de espírito é um pontífice, um construtor de pontes.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

A outra viagem

Gustave le Gray - Le Havre, Bateaux quittant le port (1856)

Deixar o porto, fazer-se ao mar para, depois e após múltiplas escalas, voltar a esse mesmo porto. Assim, como um partir e um retornar mediados pelo viajar, podemos resumir a viagem física dos homens. Será diferente a viagem do espírito? Não será, por exemplo, a peregrinação uma viagem espiritual em tudo idêntica àquela que foi descrita? Sim, mas nem toda a peregrinação ou nem toda a viagem espiritual implica sair de onde se está fisicamente. O essencial da viagem não está em deslocar-se no espaço mas em transformar-se continuamente. A viagem espiritual - essa outra e mais decisiva viagem - é uma metamorfose, onde aquele que se transforma é ao mesmo tempo o porto de onde sai, o caminho que faz e o porto aonde regressa como sendo, ao mesmo tempo, o mesmo e já definitivamente outro.

domingo, 2 de julho de 2017

Haikai do Viandante (326)

Caspar David Friedrich - Summer Landscape with a Dead Oak Tree (1805)

um velho carvalho
morre ao sol de verão
sopra o silêncio

sábado, 1 de julho de 2017

Poemas do Viandante (635)

George Blacklock - Blue Pieta (1998)

635. ó blue pietà tão pura

ó blue pietà tão pura
e tão dorida
quanto do teu azul
são lágrimas
de portugal
para te bebermos
quanta água
correu na
                matermatriz
das mil noivas
                tão virgens
tão noivas 
                tão por casar

(11/12/2016)

quinta-feira, 29 de junho de 2017

A espera

Fred Stein - Three Chairs, Paris (1937)

Ainda hoje não creio no que me contaram quando vi, pela primeira vez, as cadeiras vazias. Não seriam eternas, entenda-se, mas durariam tanto quanto a própria humanidade. É difícil de aceitar. Também eu nunca vi ali ninguém sentado. Disseram-me, sem me abalarem o cepticismo, que nelas repousaram Tália, Eufrosina e Aglaia, as três Graças dos antigos gregos. Mais tarde foram o lugar da Fé, da Esperança e da Caridade. Sei pouco de teologia e de mitologia para lhe responder se as Graças e as Virtudes Teologais não seriam a mesma coisa olhadas com outros olhos. Talvez. O que sei é o que vejo e o que vejo é que as cadeiras estão vazias. Esperam.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Meditação breve (33) - O céu estrelado

H. Hirsch - Girl, gazing to the stars (1880)

Olhar as estrelas é a grande experiência humana do confronto com o incomensurável, com o infinto. Este confronto com o desmesurado não nos indica apenas a nossa finitude. Dá-nos a dimensão do desejo que nos habita.

terça-feira, 27 de junho de 2017

A visão pura

Jing Huang - Pure Sight

O olhar sempre me fascinou. Não porque ele permitia discernir uma quantidade sem fim de coisas e de pormenores. Não, pelo contrário. O seu fascínio resultava da frustração, pode crer. Era impossível que, ao olhar fosse o que fosse, não se intrometesse uma espécie de ruído. Claro que treinem longamente os olhos, mas nunca conseguia evitar surpresas. A visão pura foi o graal da minha vida. Encontrei-o? É isso que deseja saber? Foi por acaso. Um dia, estando a olhar o horizonte em busca desse ver puro, fechei os olhos. Talvez estivesse cansado, e persisti nesse fechamento. De súbito, compreendi, tinha encontrado o graal, a visão pura. O que vi de olhos fechados? Nada. Descobri que não havia nada para ver.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Poemas do Viandante (634)

Lee Krasner - Between Two Appearances (1981)

634. de aparência em aparência

de aparência em aparência
visto o avental
de loucura
e componho a gravata
em torno da perfídia
do pescoço
se a voz vozeia
aperto o nó
e espero sentado
o grande veleiro do silêncio

(11/12/2016)

domingo, 25 de junho de 2017

Haikai urbano (15)

Kurt Hielscher - Salt Warehouses, Lübeck, 1931

armazéns de sal
adormecidos nas águas
o tempo flui e pára

sábado, 24 de junho de 2017

Fugas

Jackie Greene, Seminole Park. Model Sailboat Race (1974) 

Há uma tendência para perceber como compensação actividades como aquela que a fotografia nos dá a ver. Não podendo participar em regatas com veleiros a sério, compensa-se a inclinação com corridas de modelos. Se se pensar um pouco mais talvez se faça uma constatação surpreendente. Mais que uma compensação este tipo de actividades mostra-nos a natureza da actividade humana, de grande parte da actividade humana. Na verdade, esta não passa, na generalidade dos casos, de puro divertissement pascaliano, fuga à sua própria e insuportável realidade. A natureza e a dimensão dos modelos são irrelevantes.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

A sombra

Aart Klein - Skater, Holland, 1970s

Padeci desse mal que atormenta muita gente com propensão para a metafísica. Não, não se tratam desses sempre prontos para a arena da argumentação. Essa patologia tem origem diversa. A minha, como a de muitos outros, era fruto das variações sobre o tema quem sou eu? Tem razão, uma patologia musical. Música e metafísica são irmãs, embora já poucos o saibam. Tudo isso, porém, deixou de me interessar. Acertou. Curei-me. A cura? Nasceu da revelação da verdade. Patinava, como todos os anos no Inverno, sobre o lago gelado. De repente, olhei e vi a minha sombra no gelo. Tudo se iluminou. Eu não passava da emanação da minha sombra. Uma sombra de uma sombra, talvez.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Haikai urbano (14)

Robert Doisneau - Place de la Concorde, Paris, c. 1940

manhã de neblina
sobre a praça da concórdia
rumores de inverno

domingo, 11 de junho de 2017

Poemas do Viandante (633)

Manuel Viola - Batalla al amanecer (1979)

633. as labaredas da manhã

as labaredas da manhã
no labor da sombra
deslizam
pela púrpura da noite
e cambaleiam
em céu de cinza
tisnado de escuridão
e cântaros de luz

(11/12/2016)

sábado, 10 de junho de 2017

Haikai do Viandante (325)

Reuben Wu - Light Painting With A Drone

floresta de pedra
sobre o lago do silêncio
luz água e calcário

domingo, 28 de maio de 2017

Viagem para si

Will Faber- Buscándome a mí (1968)

Buscar-se a si mesmo é como a tarefa de retorno de Ulisses à pátria. Múltiplos são os obstáculos que, durante a vida, se interpõem no caminho daquele que empreende a viagem de regresso si. Muitos nem se apercebem que há uma viagem a fazer. Outros soçobram no caminho vítimas de ilusões. Por fim, há os que empreendem a viagem para Ítaca, sabendo-a sempre ali e sempre distante. Sabendo que a Ítaca que encontram, sendo real, ainda é uma imagem e um símbolo da Ítaca a devem chegar. Descobrem que a viagem é infinita.

sábado, 27 de maio de 2017

Poemas do Viandante (632)

Eduardo Gruber - Bajos Fondos (1990)

632. o fundo salitrado da noite

o fundo salitrado da noite
ruge-me nos dedos
se toco a parede
e grãos de areia
e cal deslizam
pelas horas
na praia de poeira
na simetria de salitre

(11/12/2016)

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Mundos voláteis

Toni Schneiders - Karussell, Dom von Hamburg, sd

Mundos voláteis manifestam-se, por breves instantes, e logo desaparecem. Aquilo a que chamamos mundo talvez seja apenas esta volatilidade. Instantes de manifestação, como se fosse uma hierofania, para logo soçobrar no não manifestado.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Haikai urbano (13)

Alfred Ehrhardt, Lauben am altstädter Ring, Prag, Böhmen und Mähren, 1941

na cidade velha
arcadas, sombras, segredos
homens em silêncio