![]() |
| Arturo Souto Feijoo, Acordeonista, 1931 |
sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
Meditação breve (210) O fluir da música
Sob a luminosidade secreta da música, os corações em diáspora abrem-se à saudade da pátria e às tentações do amor. A música desliza, abre as janelas do corpo, roda os gonzos da alma e poisa cândida no lugar onde a solidão se abre aos imperativos do desejo.
quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
Micronarrativa (80) Mundo paralelo
![]() |
| A, van Dijk, Een Rustig Uurtje, 1906 |
Suspendia a vida para partir para outra vida. Todas as noites, entrava naquele mundo cuja porta só se abre quando se abre um livro. As leis da natureza são postas entre parêntesis, as regras sociais tornam-se irrelevantes, mesmo os traços de carácter perdem valor. Pois, naquele mundo escrito, a realidade muda e quem nele entra transforma-se, para ali poder viver e encontrar um sentido para a existência que leva fora desse universo feito de papel, tinta e sentidos imaginados.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
Signo sinal 33. Fumo
sábado, 24 de janeiro de 2026
Viagem de Inverno 5
![]() |
| Bernardo Marques, Inverno (Gulbenkian) |
Resguardo-me do frio da intempérie
na incandescência da solidão.
Ouvem-se no golfo da memória
as súplicas pela misericórdia do alto.
E na rasura da floresta dormem
animais presos à escassez do Inverno.
Janeiro de 2026
quinta-feira, 22 de janeiro de 2026
A memória do ar (45)
![]() |
| O. Freiherr von Loudon, Untitled Three-Color Landscape, 1900 |
A sumptuosidade do céu abre-se como um diamante inscrito no terraço da aurora. As cores rasgam a paisagem e formam uma memória aérea, um devaneio que prende a atenção entre a rosa de bronze e as pétalas de prata nascidas no ar da Primavera.
terça-feira, 20 de janeiro de 2026
A sombra da água (45)
![]() |
| Winslow Homer, A Summer Night, 1890 |
Das águas, erguem-se sombras e poisam na terra. Descansam e, ao levantarem-se, ganham corpo, forma humana. São mulheres e dançam; dançam levadas pela música do oceano e o ritmo das ondas, dançam envoltas pela fantasia da noite e uma esperança que desponta no luar ao inclinar-se sobre as águas.
domingo, 18 de janeiro de 2026
Geometrias de fogo (45)
![]() |
| Maxfield Parrish, Atlas Landscape, 1907 |
Um fogo devora silenciosamente o céu e a terra, abre-os à combustão, lançando labaredas inquietas, inebriadas pela púrpura dos deuses, banhadas no ocre das horas e no carmesim do cansaço. Então, sob a música do vento, a paisagem dança ao ritmo do Verão e, arrebatada, entrega-se ao cansaço do mistério solar.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
Viagem de Inverno 4
quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
O Espírito da Terra (45)
segunda-feira, 12 de janeiro de 2026
Biografias 40. O cientista
![]() |
| Lucien Aigner, Albert Einstein, 1940 |
Toda a ciência começa no cérebro e nele acaba, supõe, no fundo da consciência, o cientista, enquanto medita, através de estranhos algoritmos matemáticos, sobre a natureza da realidade. E para ele a realidade já não é aquela que todos partilhamos, mas uma outra quase invisível, que só ele avista no silêncio da sua meditação, no fumo que se evola do cachimbo para se perder no éter do pensamento. A ciência é um exercício prolongado do pensamento, polvilhado com o sal da imaginação. Um jogo que vai do cérebro que procura ao cérebro que encontra. O resto, o cientista ignora.
sábado, 10 de janeiro de 2026
Diálogos morais 74. Inspiração
![]() |
| Eduardo Zamacois y Zabala, La visita inoportuna |
- Pode-se entrar?
- Hum… como?
- Se se pode entrar, passar a porta?
- Não, não estou preparado para visitas.
- Que raio, homem, que preparação precisas para receberes um
velho amigo?
- Não é oportuna a visita.
- Estás a pintar?
- Sim, sim, claro, o que estaria aqui a fazer?
- Posso ver o que estás a fazer?
- Não, agora não.
- Uma surpresa, então?
- Surpreender é o desejo de qualquer artista.
- Então a inspiração tocou-te.
- Envolveu-me e eu a ela.
- Óptimo. Casa-te com ela, para não a deixares fugir.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2026
Viagem de Inverno 3
segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
sábado, 3 de janeiro de 2026
Câmara discreta (32)
![]() |
| Istvan hanga, Ombre et appareil (shadow and camera), ca. 1933 |
A sombra está para as imagens como o murmúrio, para os sons. Esta incerta equação dá conta da reserva com que, por vezes, se usa a câmara fotográfica. Não se trata, então, de manifestar, sem pudor, aquilo que a máquina capta, mas torná-la num agente da sobriedade no mundo. Fotografar a sombra é, ao mesmo tempo, mostrar um rasto e desenhar uma promessa. Abrir um caminho ao olhar, mas deixar ao pensamento e à imaginação o passeio a dar, para que de uma sombra construam a cintilação da verdade.
quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
Arqueologias do espírito 37
![]() |
| João Queiroz, sem título, 2005 (Gulbenkian) |
Desfiladeiros, ravinas, formações rochosas, a terra árida de um deserto antigo. Depois, como se dilacerasse a parede inflexível da matéria, numa abertura luminosa como uma clareira na floresta, irrompe um azul celestial, cintilante, a transbordar de promessas que logo são transformadas em expectativas. Tudo isto se impregnou na consciência dos homens arcaicos, desceu neles descansando nos estratos elementares do inconsciente, para, lentamente, se elevar transformado em espírito, o guia que permite percorrer a multiplicidade das paisagens e descobrir sempre, em cada uma, o lugar cativo da esperança.
Subscrever:
Comentários (Atom)













,%20ca.%201933.jpg)
