quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

A memória do ar (45)

O. Freiherr von Loudon, Untitled Three-Color Landscape, 1900

A sumptuosidade do céu abre-se como um diamante inscrito no terraço da aurora. As cores rasgam a paisagem e formam uma memória aérea, um devaneio que prende a atenção entre a rosa de bronze e as pétalas de prata nascidas no ar da Primavera.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

A sombra da água (45)

Winslow Homer, A Summer Night, 1890

Das águas, erguem-se sombras e poisam na terra. Descansam e, ao levantarem-se, ganham corpo, forma humana. São mulheres e dançam; dançam levadas pela música do oceano e o ritmo das ondas, dançam envoltas pela fantasia da noite e uma esperança que desponta no luar ao inclinar-se sobre as águas.

domingo, 18 de janeiro de 2026

Geometrias de fogo (45)

Maxfield Parrish, Atlas Landscape, 1907

Um fogo devora silenciosamente o céu e a terra, abre-os à combustão, lançando labaredas inquietas, inebriadas pela púrpura dos deuses, banhadas no ocre das horas e no carmesim do cansaço. Então, sob a música do vento, a paisagem dança ao ritmo do Verão e, arrebatada, entrega-se ao cansaço do mistério solar.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Viagem de Inverno 4

Camille Pissarro, Morning, Sunshine Effect Winter, 1895

Canto uma esquecida canção,

do Oriente vem, ave poisada na voz.

 

O poder de perdoar rasga a noite

e toca o ombro do arqueiro que o alvo errou.

 

A inclinação da Terra esconde a luz

e a seta do Inverno ecoa no sal da manhã.

 

Janeiro de 2026

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

O Espírito da Terra (45)

Paul Gauguin, Breton Village in the Snow, 1894
É sob a visitação do Inverno que a Terra se mostra na sua verdade. A rudeza da vida crestada pela inclemência do vento e o ardor da neve abre o coração à realidade, e esta manifesta-se sem o véu dos dias amenos e as fantasias do Estio.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Biografias 40. O cientista

Lucien Aigner, Albert Einstein, 1940
Toda a ciência começa no cérebro e nele acaba, supõe, no fundo da consciência, o cientista, enquanto medita, através de estranhos algoritmos matemáticos, sobre a natureza da realidade. E para ele a realidade já não é aquela que todos partilhamos, mas uma outra quase invisível, que só ele avista no silêncio da sua meditação, no fumo que se evola do cachimbo para se perder no éter do pensamento. A ciência é um exercício prolongado do pensamento, polvilhado com o sal da imaginação. Um jogo que vai do cérebro que procura ao cérebro que encontra. O resto, o cientista ignora.

sábado, 10 de janeiro de 2026

Diálogos morais 74. Inspiração

Eduardo Zamacois y Zabala, La visita inoportuna

- Pode-se entrar?

- Hum… como?

- Se se pode entrar, passar a porta?

- Não, não estou preparado para visitas.

- Que raio, homem, que preparação precisas para receberes um velho amigo?

- Não é oportuna a visita.

- Estás a pintar?

- Sim, sim, claro, o que estaria aqui a fazer?

- Posso ver o que estás a fazer?

- Não, agora não.

- Uma surpresa, então?

- Surpreender é o desejo de qualquer artista.

- Então a inspiração tocou-te.

- Envolveu-me e eu a ela.

- Óptimo. Casa-te com ela, para não a deixares fugir.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Viagem de Inverno 3

László Meitner, Inverno em Paris (Gulbenkian)

Abro o corpo para o sol da manhã,

um cântico na combustão do silêncio.

 

Os Reis voltaram para o Oriente

iluminados pelo carmesim da Lua.

 

No crocitar do calendário, os dias crescem,

a Terra ecoa no húmus do universo.

 

Janeiro de 2026

 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Haikai do Viandante (446)

Marco Bicci, Paisagem de Inverno

Homens e animais
escutam a voz do vento.
Paisagem de Inverno.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Câmara discreta (32)

Istvan hanga, Ombre et appareil (shadow and camera), ca. 1933
A sombra está para as imagens como o murmúrio, para os sons. Esta incerta equação dá conta da reserva com que, por vezes, se usa a câmara fotográfica. Não se trata, então, de manifestar, sem pudor, aquilo que a máquina capta, mas torná-la num agente da sobriedade no mundo. Fotografar a sombra é, ao mesmo tempo, mostrar um rasto e desenhar uma promessa. Abrir um caminho ao olhar, mas deixar ao pensamento e à imaginação o passeio a dar, para que de uma sombra construam a cintilação da verdade.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Arqueologias do espírito 37

João Queiroz, sem título, 2005 (Gulbenkian)

Desfiladeiros, ravinas, formações rochosas, a terra árida de um deserto antigo. Depois, como se dilacerasse a parede inflexível da matéria, numa abertura luminosa como uma clareira na floresta, irrompe um azul celestial, cintilante, a transbordar de promessas que logo são transformadas em expectativas. Tudo isto se impregnou na consciência dos homens arcaicos, desceu neles descansando nos estratos elementares do inconsciente, para, lentamente, se elevar transformado em espírito, o guia que permite percorrer a multiplicidade das paisagens e descobrir sempre, em cada uma, o lugar cativo da esperança.