Mark Tobey, Coming and Going, 1970 |
a solidão dos domingos é caruma
caída no pinhal da primavera
seca e quebradiça cobre o chão
com o lençol agudo do tédio
a sangrar os pés põem-se a caminho
sobre o grito das agulhas dos pinheiros
Abril de 2025
Charles Lapicque, Lagune Bretonne, 1959 |
Gustav Klimt, Moving Water, 1898 |
Mário Cesariny, Figuras de sopro, 1947 (Gulbenkian) |
Bernardo Marques, Primavera (Gulbenkian) |
nas ruas repletas de gente
queima o sol quaresmal
despidas as árvores floriram
num acesso de ânimo
espero a luz da ressurreição
na manhã do domingo de páscoa
Março de 2025
Gustav E. B. Trinks, Farbige Schatten, 1902 |
James Van Der Zee, Barefoot Prophet: Elder Clayhorn Martin, Prophet Martin, 1929 |
Eugene Robert Richee, Betty Grable, 1930s |
Ray K. Metzker, City Whispers, Los Angeles, 1981 |
Cruzeiro Seixas, O Quarto do Gatuno, 1972 (Gulbenkian) |
Giorgio Morandi, Paisaje, 1913 |
Rafael Estrany, Cursa de cavalls |
José Manuel Espiga Pinto, Mapa
marcado com rasgão para entrada na sala de projecções simultâneas, 1973 |
inclino-me para dentro do
inverno
e oiço o grito do anjo da história
o pez da tempestade amainou
mas no lugar das rosas restam
ruínas
não sei se o prenúncio da primavera
me traz frio ou calor ao
coração
os dias navegam em mar incerto
o perigo espreita no silvar do
silêncio
Março de 2025
António Costa Pinheiro, Fernando Pessoa - Heterónimo, 1978 (Gulbenkian) |
Maria Helena Vieira da Silva, Inverno, 1951 |
sento-me no desconforto dos
dias
e bebo a cicuta da incerteza
o inverno estremece e hesita
como uma noiva a caminho do
altar
dormente regurgito a paisagem
o destino afasta-se em silêncio
no ouro da dúvida os dias crescem
são pássaros poisados nas
tílias
Março de 2025
Hashim Samarchi, A Pálida Lua, 1967 (Gulbenkian) |
Santiago Rusiñol Prats, Jardin de Invierno, 1891 |
a estrada devoluta é uma sombra
no degelo da gramática invernal
as primeiras frases ressoam
trazem a luz do bosque arcaico
à solta na cidade sonâmbula
um rebanho de ménades em fúria
dança possuído pelo deus
canta o degelo na estrada vazia
Fevereiro de 2025
Leopoldo Novoa, Aujourd'hui personne n'est venu, 1976 |
Frederick Boissonas, Dans la Montagne, 1905 |
László Meitner, Inverno em Paris (Gulbenkian) |
leio a segunda epístola de
inverno
na neblina nascida pela manhã
os olhos presos na cinza do céu
tremem no temor do cansaço
a cidade é um esboço delido
traçado pelo frio lápis de
carvão
fevereiro corre no coração dos
crentes
escutam a carta que ninguém escreveu
Fevereiro de 2023
John Ruskin, A River in the Highlands, 1847 |
Paula Rego, Ninho, 1972 (Gulbenkian) |
Lucien Clergue, Bullfight, Arles, France, 1970-1979 |
O diestro olha, e nos olhos do touro vê os seus próprios olhos. Chegados à arena, tudo o que separava sacrificador e vítima sacrificial se confunde, como se a cintilação do traje de luces trouxesse não a sombra que cai sobre a praça, mas as trevas mais densas que, na tensão do confronto, o toureiro suspeita existirem antes e depois da vida. Se na praça se ouve um paso-doble, o homem na arena está surdo na sua solidão. O touro vai e vem, e a capa ondeia levada pelo vento nascido das mãos do lidador e da raiva cega do animal. Este, preso no horror, não vive no tempo, apenas naquele instante sem sentido, no frio momento despido de futuro. O tempo pertence àquele que maneja o estoque e decide a hora desse inocente onde se projecta a culpa do matador.