quarta-feira, 2 de abril de 2025

A sombra da água (39)

Gustav Klimt, Moving Water, 1898

Os corpos são sombras de água na água do rio. Vão e vêm ao sabor do desejo, pois desejar é entrar numa corrente. Deixar-se balançar pelo ímpeto do caudal, que muda conforme as estações do ano, o poder da meteorologia e um segredo nunca desvendável. Em tudo, também na água do desejo, há um desconhecido a que olhos e ouvidos humanos estão, por um decreto inviolável, proibidos de aceder.

segunda-feira, 31 de março de 2025

Geometrias de fogo (39)

Mário Cesariny, Figuras de sopro, 1947 (Gulbenkian)
Ao fogo, trouxe-o o vento, numa tarde azul. Um sopro violento, saído da boca de um gigante, fá-lo rodopiar e desenhar estranhas figuras geométricas cujas nomes ninguém sabe. Então, ébrio, dança sobre a planície, enraíza-se na terra como uma árvore e estende a ramada das suas chamas para o céu. Das labaredas ergue-se fumo. Os corações tremem. Se for branco, é tempo de paz. Se for vermelho, os cavalos da guerra entregam-se à dor do galope.

sábado, 29 de março de 2025

Pulsar de Primavera (2)

Bernardo Marques, Primavera (Gulbenkian)

nas ruas repletas de gente

queima o sol quaresmal

 

despidas as árvores floriram

num acesso de ânimo

 

espero a luz da ressurreição

na manhã do domingo de páscoa

 

Março de 2025

quinta-feira, 27 de março de 2025

O Espírito da Terra (39)

Gustav E. B. Trinks, Farbige Schatten, 1902

Sombras rasgam a brancura da terra. Ali, onde a neve se depositou, trazendo, no revérbero do sol, a cintilação ao dia, também a escuridão da noite se anuncia, como se as sombras fossem mensageiras do Reino da Noite. Mudas, dizem: o dia, sobre a terra, não é eterno. Também as trevas têm o seu lugar e a noite nunca, neste mundo, pode ser esquecida.

terça-feira, 25 de março de 2025

Biografias 34. O profeta

James Van Der Zee, Barefoot Prophet: Elder Clayhorn Martin, Prophet Martin, 1929

Tem o futuro guardado dentro dos olhos e o passado oculto no coração. Alimenta-se de palavras e passa os dias em serena meditação. Como explicar os sinais e que sentidos infinitos se ocultam nos símbolos? Que presságios inscreve a ave, com o seu voo misterioso, no tecido transparente dos ares? Quando chega a hora, o profeta, descalço, sai de casa e procura a multidão que o aguarda. Então, a sua voz troa e os corações tremem. O mundo e os seus males infinitos são despidos sem pudor nem inocência. A arrogância dos grandes e a inveja dos pequenos recebem na miséria da sua pele a visite rude do chicote das palavras. Rendida a multidão, o profeta exausto volta para casa. Espera-o o calor do lar, as longas meditações sobre o futuro que dará um sentido ao passado.

domingo, 23 de março de 2025

Diálogos morais 68. Fantasia

Eugene Robert Richee, Betty Grable, 1930s

- Encosto-me a ti e sinto o teu corpo, quente e suave. 
- Eu, pelo contrário, sinto a tua imagem fria e metálica.
- É uma conquista.
- Uma conquista?
- Pensava que, qualquer imagem, apenas fosse visível, afinal também me sentes.
- E...
- Terei também um corpo, ainda que frio e metálico.
- Não, não passas de uma imagem no espelho, uma fantasia.
- Estás enganada.
- Eu...?
- Sim, tu. Sou uma fantasia, mas...
- As fantasias não têm realidade, não há lugar para qualquer mas.
- Pelo contrário, sou uma fantasia e sonho-te.
- A mim.
- Sim, a ti. Sonho-te para te possas ver no espelho e eu possa existir.

sexta-feira, 21 de março de 2025

Pulsar de Primavera (1)

John Constable, Spring, East bergholt common, 1809-16 (?)

prendo as mãos nas águas

descidas de um céu sitiado

 

a memória embriaga-se

sob os vestígios do vento

 

sentado espero os pássaros

perdidos da primavera

 

Março de 2025


quarta-feira, 19 de março de 2025

Câmara discreta (26)

Ray K. Metzker, City Whispers, Los Angeles, 1981
A geometria do espaço ergue-se como uma barreira invisível entre os olhos do espectador e o drama que sempre se desenrola no espaço público, como no palco de um pequeno teatro de província. O rigor das placas que cobrem a terra, a pureza formal do mobiliário e a própria racionalidade com que as sombras se projectam no chão, tudo isso forma uma cortina tão opaca que ninguém dá por ela. Os mais atentos ouvem sussurros e murmúrios vindos não sabem bem de onde, mas ninguém vê a dor que se espelha nos rostos dos actores ou o tormento que se abate sobre os corpos dobrados ao peso da luz. 

segunda-feira, 17 de março de 2025

Arqueologias do espírito 31

Cruzeiro Seixas, O Quarto do Gatuno, 1972 (Gulbenkian)
O espírito nasce de um lento movimento de deserção. Movido pela coragem, abandona uma a uma as coisas onde repousou e tomou como disfarce, a máscara de um baile numa noite de Carnaval. Consciente do turbilhão, exausto pelo rodopiar das coisas no tempo, aparta-se e procura refúgio na solidão. Descobre-se, então, como aquele que é, a única realidade vivaz, o centro silencioso de onde tudo emana, mesmo as máscaras que usa na peregrinação pelos universos que dele nasceram.

sábado, 15 de março de 2025

Pintura e haikus (44)

Sol Lewitt, Irregular Vertical Color Band, 1991

solstícios de cor
sobre caminhos sem nome
chega a primavera

quinta-feira, 13 de março de 2025

Inclinação de Inverno (12)

Ricardo Asensio, Atardecer, 1968

destilo o álcool do entardecer

no alambique da paisagem

 

a chuva cai de um céu sem cor

privado de anjos e de estrelas

 

uma angústia de âmbar soa

nas cordas cruzadas do tempo

 

oiço ao beber o vinho da noite

o inverno na voz muda dos mortos

 

Março de 2025


terça-feira, 11 de março de 2025

Impressões 126. A gramática da paisagem

Giorgio Morandi, Paisaje, 1913

A beleza de uma paisagem nasce da gramática dos elementos: da sintaxe da orografia, da morfologia da vegetação, da fonologia do canto das aves ou do uivo dos lobos. Então, o todo rodopia num vórtice, mescla os elementos e entrega-se, perante o olhar incrédulo, a um jogo de impressões. A iminência de um novo mundo surge como num oráculo, para logo se dissolver em novas promessas de outros mundos, numa dança sem fim.

domingo, 9 de março de 2025

Histórias sem nexo 33. Correrias e competições

Rafael Estrany, Cursa de cavalls
Correm cavalos como cães caídos no curso quente dos campos. Coligações de cavaleiros  compram os caros quesitos do campeonato. Cantam quebrados pelo calor. Compõem canções como se costurassem compostos químicos. Cumprem o calendário que do quebranto do Carnaval conduz à comoção da Quaresma: cavalos, cães, carros de competição no carbúnculo cravado na cruz do coração.

sexta-feira, 7 de março de 2025

Inclinação de Inverno (11)

José Manuel Espiga Pinto, Mapa marcado com rasgão para entrada na sala de projecções simultâneas, 1973

inclino-me para dentro do inverno

e oiço o grito do anjo da história

 

o pez da tempestade amainou

mas no lugar das rosas restam ruínas

 

não sei se o prenúncio da primavera

me traz frio ou calor ao coração

 

os dias navegam em mar incerto

o perigo espreita no silvar do silêncio

 

Março de 2025


quarta-feira, 5 de março de 2025

Meditação breve (203) O tempo da indiferenciação

Robert Doisneau, Cour Carrée du Louvre, 1969

O segredo da infância reside na indiferenciação. Nesse tempo, ainda as múltiplas distinções estão longe de ser claras, apesar de família e escola as declinarem com energia e rigor. A criança resiste e, num animal, vê ainda um irmão - um igual que lhe permite sonhar com a eternidade de um mundo a que, em breve, será posto um fim irrevogável.

segunda-feira, 3 de março de 2025

Micronarrativa (73) Cansaço

António Costa Pinheiro, Fernando Pessoa - Heterónimo, 1978 (Gulbenkian)

Cansei-me da homonímia, de transportar pela ruas, como quem caminha pelo infinito, o mesmo nome. Ser esse nome a cada hora não é apenas infausto, mas traz uma sonolência que, a partir de certa hora, é impossível resistir. Não criei outros eus, mas dei-me outros nome, para poder resistir ao sono e ter todas as horas à minha disposição. Se um eu dorme, os outros estão de vigília. A vida é demasiado pobre para quem tem apenas um nome.

sábado, 1 de março de 2025

Inclinação de Inverno (10)

Maria Helena Vieira da Silva, Inverno, 1951

sento-me no desconforto dos dias

e bebo a cicuta da incerteza

 

o inverno estremece e hesita

como uma noiva a caminho do altar

 

dormente regurgito a paisagem

o destino afasta-se em silêncio

 

no ouro da dúvida os dias crescem

são pássaros poisados nas tílias

 

Março de 2025

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Signo sinal 26. A rosa semântica

Hashim Samarchi, A Pálida Lua, 1967 (Gulbenkian)

De que génio será a Lua signo? De que dança transportará ela, em seu dorso, o sinal? De que graça será, no seu curso, o símbolo? Homens e mulheres espreitam-na, noite após noite, seduzidos por um mistério, arrastados pelo enigma, incapazes de decifrar a mais pura rosa semântica que, sempre virginal, se abre, sem pudor, diante de seus olhos sonâmbulos.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

Haikai do Viandante (443)

Edvard Munch, Winter Night, 1900

Noite de inverno.

No prazer da solidão,

núpcias de neve.

domingo, 23 de fevereiro de 2025

Inclinação de Inverno (9)

Santiago Rusiñol Prats, Jardin de Invierno, 1891

a estrada devoluta é uma sombra

no degelo da gramática invernal

 

as primeiras frases ressoam

trazem a luz do bosque arcaico

 

à solta na cidade sonâmbula

um rebanho de ménades em fúria

 

dança possuído pelo deus

canta o degelo na estrada vazia

 

Fevereiro de 2025


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

O sal do silêncio (122)

Leopoldo Novoa, Aujourd'hui personne n'est venu, 1976

Um rasgão no rude tecido da realidade. Aberta a fenda, por ela chega o sal e o silêncio. O sal preserva o espírito e purifica-o do cansaço dos dias; o silêncio abre-se como uma clareira para que o corpo se deixa contaminar pela luz desse espírito preservado e puro.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

A memória do ar (38)

Frederick Boissonas, Dans la Montagne, 1905

É da montanha que chega mais viva a memória do ar, a sua tessitura delicada, suspensa do frio que se eleva dos cumes nevados e toca os céus, antes de se misturar nos ventos e varrer o mundo, como se cuidasse de uma galáxia perdida no turbilhão dos universos, que nascem e morrem, enquanto na Terra o vento sopra onde quer.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Inclinação de Inverno (8)

László Meitner, Inverno em Paris (Gulbenkian)

leio a segunda epístola de inverno

na neblina nascida pela manhã

 

os olhos presos na cinza do céu

tremem no temor do cansaço

 

a cidade é um esboço delido

traçado pelo frio lápis de carvão

 

fevereiro corre no coração dos crentes

escutam a carta que ninguém escreveu

 

Fevereiro de 2023


sábado, 15 de fevereiro de 2025

A sombra da água (38)

John Ruskin, A River in the Highlands, 1847

Um rio corre nas terras altas. Nascido no silêncio das montanhas, arrasta, sobre o espelho das águas, as sombras caídas do céu. Transporta, na cadência do fluir, um segredo que o oceano revelará, numa noite tempestuosa, quando os relâmpagos descerem sobre as ondas e os raios se perderem na espuma da noite.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

Geometrias de fogo (38)

Paula Rego, Ninho, 1972 (Gulbenkian)

Pássaros de fogo dançam na geometria de um ninho em chamas. Esperam o tumulto do vento para se lançarem em pleno voo e levarem consigo um incêndio que ateará o silêncio nos campos e o rugir dos oceanos. São aves a dançar sobre as consciências, labaredas do espírito para sagrar, no prado do tempo, o nascimento da Primavera.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

O Espírito da Terra (38)

Adolfo Guiard, Camino Rural, 1912-1915

Um caminho rasga a terra, para que esta se abra ao lento labor de homens e animais, cumpra a missão inscrita no silêncio do espírito que a anima e descubra, na seiva e no sangue, as cores das estações: a solitária cinza invernal ou o rubro tumulto primaveril.

domingo, 9 de fevereiro de 2025

Inclinação de Inverno (7)

Salvador Dali, Cadaqués, 1917

o turvo alumínio do céu

cobre de sombras o domingo

 

deslizam gentes pelas ruas

sem nome sem destino

 

nas árvores das avenidas

não se prediz a primavera

 

os olhos poisam no inverno

vêem o dia no alumínio do céu

 

Fevereiro de 2025


sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Biografias 33. O matador

Lucien Clergue, Bullfight, Arles, France, 1970-1979

O diestro olha, e nos olhos do touro vê os seus próprios olhos. Chegados à arena, tudo o que separava sacrificador e vítima sacrificial se confunde, como se a cintilação do traje de luces trouxesse não a sombra que cai sobre a praça, mas as trevas mais densas que, na tensão do confronto, o toureiro suspeita existirem antes e depois da vida. Se na praça se ouve um paso-doble, o homem na arena está surdo na sua solidão. O touro vai e vem, e a capa ondeia levada pelo vento nascido das mãos do lidador e da raiva cega do animal. Este, preso no horror, não vive no tempo, apenas naquele instante sem sentido, no frio momento despido de futuro. O tempo pertence àquele que maneja o estoque e decide a hora desse inocente onde se projecta a culpa do matador.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

Diálogos morais 67. Desejo

Sergio Larrain, Bar, Valparaiso, Chile, 1963

- O que deseja?
- É uma questão de desejo?
- É sempre uma questão de desejo.
- Se assim é, então desejo...
- Não disse que satisfazemos todos os desejos.
- Também não especificou quais.
- Não me deu tempo.
- O tempo é uma coisa muito preciosa para ser dado.
- Compreendo, mas preciso dele para especificar que objectos oferecemos ao desejo.
- Sim, mas neste momento, olhando-a, só desejo uma coisa.
- Sim, eu sei, uma limonada, que é a única coisa que temos. A cerveja esgotou-se.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

Câmara discreta (25)

André Kertész, Old Gentleman, Paris, 1926
Um súbito sobressalto abriu o coração do fotógrafo à perplexidade. Será justo conjugar para a eternidade a banalidade da velhice e a altivez do estatuto social? Terei direito a tornar manifesto um rosto marcado pelas intempéries trazidas pelo tempo, pelos desvarios da imaginação, pela sombra de um porte levedado na educação e construído na necessidade de parecer aquilo que se pensa ser? E perante o dilema a dançar no palco na consciência, deixou a câmara captar apenas a sombra de uma existência, a marca inominável de um estatuto que a morte se prepara a diluir no pó a que todos regressam.