| Gino Severini, Danseuses, 1912-13 |
A súbita música,
em ondulante esquadria,
gera corpo e dança.
| Alfred Sisley, Bank of the Seine in Autumn, 1876 |
Como um
pássaro já ferido canto
uma canção
feita silêncio e dor.
Oiço o ritmo
ancestral na fímbria
das folhas secas,
no vazio da alma.
Trago em mim
cada Outono vivo,
cada Outono
preso aos dias passados,
ao
calendário feito de erva fresca
e de
memórias para sempre mortas.
Deixo que o
ser na luz se revele livre,
na liberdade
do mistério aberto
como um
livro de orações sagradas.
Vou pela
estrada sem destino claro,
sem o fulgor
dos dias de Estio, acesos
no
esquecimento do ardor da noite.
Dezembro de 2023
| Rafael Barradas, Paisaje vibracionista, 1918 |
Vincent van Gogh, Camino con sauces podados, 1889
Nascem
desejos em turvado céu.
As nuvens
correm no silêncio vivo,
anunciam
chuva entre os ramos secos.
Flores e
frutos da memória caem.
Os dias
obscuros, uma fria tristeza,
pálido sol, rosas
de cor amarga,
eis o Outono
no lençol de linho
tecido em
dia de tempestade e fúria.
Soltam-se
ventos sobre as ruas vazias.
Olho a tarde
em abrigo cálido,
deixo correr
ao vento o sal do mar.
Pobres, os lábios
exaltados sopram
velhas
canções de vinho, luz e mágoa.
Eu oiço,
oiço-te, ó voz silente.
Dezembro
de 2023
| Caspar David Friedrich, Autumn, 1826 |
sobre as
ruas vazias da cidade velha.
O tempo
corre entre folhas secas
presas nos
ramos de cansadas árvores.
Ouvem-se
gritos de amargura tensa,
rasgam a
tarde como corvos tintos
pela tristeza
de perdidas guerras,
velhos ardores
dum império findo.
Deixo o
espírito vogar nas sombras,
a tarde as
traz presas ao corpo gélido,
ao abandono da
memória breve.
Passo o cabo
das tormentas, ergo
as mãos aos
astros no licor amargo
dos dias de chuva,
no frio mar da morte.
Novembro de 2023
| Hans Thoma, The War, 1907 |
| Rudolf Schlichter, O mundo inanimado, 1926 |
| Camille Pissarro, Outono, 1876 |
de novos mundos,
novas terras, nova
luz no
orvalho da aurora pálida,
nos desavindos
corações sombrios.
Traz o
fulgor a estes dias cegos,
às noites
frias onde o musgo verde
amadurece na
memória muda
de um
presépio esquecido, morto.
Oiço o
silêncio da floresta viva.
Vejo-o dançar
na cornucópia alegre
destas cidades
de cristal e pedra.
Canto o
devir vão da manhã de bruma,
o abandono do
jardim perene
ao sal de
fogo, aos sinais de Inverno.
Novembro
de 2023
| Karl Schmidt-Rottluff, Lua sobre a costa, 1956 |
Bodil Obberg Pettersson, Early Autumn, 1980 (aqui)As cores de Outonodeslizam na tela fria. São sombras sonâmbulas. |
| Wassily Kandinsky, Autumn in Bavaria, 1908 |
Os corações tão
desejosos cantam
os dias de
Outono, a chegada alegre
do vinho
novo, sangue, sol e água.
No céu, os
pássaros desenham símbolos,
inscrevem letras
na paisagem fria,
presos no
voo entre terra e nuvens,
soltos no fogo
que alastra trémulo.
Oiço o
silêncio no rugir do vento
ou no rumor
das tuas mãos abertas,
leves, na dádiva
da noite escura.
Toco os teus
lábios com o vinho novo,
bebo-te, casta,
no deserto árido.
Viajamos
ébrios na vertigem muda.
Novembro de 2023
| Mario Sironi, Paesaggio urbano, 1942 |
| Hans Baldung Grien, Two Witches, 1523 |
| William B. Post, White Mountains, N. H. from Fryeburg Maine, 1900-1910 |
Folhas de
Outono, caminhamos livres
na liberdade
da floresta rude.
Vamos
curvados no carril do tempo
e levantamos
aos céus olhos lívidos.
Na
cornucópia da abundância vemos
as velhas
árvores caídas, mortas
no desmedido
desejar dos dias.
Sinais do vento
que passou silente.
Estreitas
ruas levam do mar à morte,
onde os
anjos te aguardam cegos
para a
terrível luz das ervas secas.
Pela
penumbra avistamos luas,
pequenos sóis
de gelo e âmbar,
a cintilante
flor de luz e fogo.
Novembro de 2023
| Fernando Calhau, S/título #169, 1974 (Gulbenkian) |
| Emilio Sánchez Cayuella, Silencio, 1985 |
| Camille Corot, Italian Landscape near Marino in Autumn, 1826 – 1827 |
Dias de Outubro. Uma ave canta
e eu medito
na ruína próxima,
a casa pobre,
o nome ferido
por entre
sombras e silêncios secos.
Erguem-se
pássaros de luz e trevas.
Os rios
deslizam devagar, sem rumo.
Subitamente,
o mar cala a voz
nas ondas
frias, no vagar do vento.
Não tenho
herança a deixar na morte,
nem a
memória reterá o nome
por mim
herdado ou talvez roubado.
Oiço-te, pássaro da noite a vir.
És a
renúncia ao fulgor dos dias.
És os
escombros duma vida vã.
Outubro de 2023
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| Fritz von Uhde, By the Window, 1890 – 1891 |
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| Paul Signac, Venice, Grand Canal, 1904 |
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| Dórdio Guimarães, Casas de Malakoff - Paris, 1923 |
Chegou a
hora de dobar o fio
das tardes
calmas pela luz cobertas,
das noites
ébrias no cruel temor
escrito a
negro em coração cansado.
Rompem as
árvores a linha da sombra,
abrem os
ramos outonais ao vento,
as aves
poisam, são crianças de água
abandonadas
no desvão das ruas.
Atravessei
maravilhado o bosque,
ouvi o fogo
crepitar nos campos,
vi uma cruz
de dor na terra rude.
Escuto os
lobos murmurar ao longe,
dentro da
minha carne crua e fria.
As folhas
caem, e eu caio com elas.
2023
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| Júlio Pomar, Mêlée, 1968 |
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| José Manuel Espiga Pinto, Mapa marcado com rasgão para entrada na sala de projecções simultâneas, 1973 (aqui) |
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| Louis Eysen, The Earth Pillars by the Schalderer Bach near Vahrn, 1878 |
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| Georges Rouault, Automne, 1936 |
Ó pura
ascese destes dias de sombra.
Ó pura
glória do devir sem mácula.
Corro
outonal pelo desvão do tempo
e canto
livre das mágoas da vida.
Uma elegia flutua
na voz do vento,
toca na pele
das mulheres nuas,
toca a suave
nostalgia da morte
com a ciosa
luz do puro amor.
Deixo aos
anjos o reger dos dias,
o vão
cuidado com a vida breve,
as horas
presas em sombrio silêncio.
Busco na boca
das mulheres sôfregas,
incendiadas
no furor do fogo,
a água morta
do meu sangue vivo.
2023
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| Felix Vallotton, Landscape in the Jura Mountains near Romanel, 1900 |
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| Johan Christian Clausen Dahl, The Eruption of Vesuvius in December 1820, 1826 |