segunda-feira, 26 de abril de 2021

Haikai do Viandante (409)

Emérico Nunes, Neve sobre o cais (Paris), 1909

Sobre o cais, a neve.
Olhos param deslumbrados,
esperam sinais.

sábado, 24 de abril de 2021

Histórias sem nexo 25. Urgências, usurpações e usucapião

Júlio dos Reis Pereira, Tarde de Festa, 1925
Urgência, um urso sem humor urina nas urtigas. Úrsula e Urraca urgiam em Unhais e um urubu uivava na Urqueira. Hum! Hum! Ululam os últimos Huguenotes. Humildade, humildade, Ursulina. Humaniza-te. Na hulheira, Humberto usurpa a hulha. Usucapião, usucapião, urrou utópico o Hugo. Uau, ufanou-se a Umbelina.

quarta-feira, 21 de abril de 2021

Biografias 17. Um pai aos olhos do filho

 Wolfgang Suschitzky, Trafalgar Square, London, 1953
Um pai cresce nos olhos do filho. Como um mágico, tira da cartola invisível os pombos visíveis. O filho deixa-se tomar pelo espanto dos animais a voltear por cima deles e pensa que ninguém no mundo a não ser o pai conseguiria tal façanha. O pai alimenta-se do olhar do filho.

segunda-feira, 19 de abril de 2021

Meditação Breve (157) Encarnação

Ernst Haas, Herbert Von Karajan, Salzburg, 1978

Por vezes, embora nem sempre isso aconteça, a arte exige que o artista se desaposse de si. A entrega deverá ser de tal ordem que a pessoa desaparece de si mesma, para que o espírito que se manifesta na arte encarne e se torne realidade pura. Talvez a grande arte não seja outra coisa senão um exercício de encarnação.

sábado, 17 de abril de 2021

A Sarça Ardente - 78

Ianthe Ruthven, Giant Lilly Pads, Kew, 1996
O segredo dos dias de estiagem
sonha sonâmbulo
nos meus passos pela alvorada.

Murmura-me no coração
voa-me nos olhos
adormece-me na noite.

Sou o meu segredo,
enigma herdado
ao entrar no alvor do mundo.

Abril de 2021

quinta-feira, 15 de abril de 2021

Meditação Breve (156) Metáforas práticas

René Burri, French artist Yves Klein directing a model in body art painting. 1961

Metaforizar, seguindo a intuição de Aristóteles, é aproximar coisas que pertencem a realidades diferentes. Camões, num célebre soneto, aproximou fogo e amor. É esta aproximação regida pela a analogia - entre essas realidades haveria, apesar da diferença, uma certa semelhança - que o século XX vai levar até ao paroxismo. O modelo nu desce do pedestal e o seu corpo não serve já para ser copiado, mas como utensílio da própria pintura. O corpo transita de instrumento da visão para instrumento da acção. É a semelhança instrumental que permite o exercício metafórico - uma metáfora prática - de pintar não o corpo, mas com o corpo. Não produzir uma imagem, mas deixar um vestígio.

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Diálogos morais 60. Uma questão prática

Bert Hardy, A young woman talks to a boyfriend after her evening’s work as a cinema usherette, c. 1954
- Muito trabalho?
- Não, hoje havia poucos espectadores.
- Um mau filme.
- Oh não, apenas uma noite má na bilheteira.
- Isso é pior que um mau filme.
- Não, não é. Um mau filme suja a alma.
- Uma idealista, é o que és.
- Serei.
- A vida não se faz de idealidades.
- Não? Também sei ser uma mulher prática.
- Sabes?
- Sei. O mais prático é ires dormir para tua casa. 
- Como?
- Sem mim.

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Micronarrativa (52) Pátria do silêncio

Rui Filipe, Fuencarral , 1953

Há lugares onde acontecem as coisas mais estranhas. Lentamente, quem neles vive vai moderando a vontade de falar, a voz perde o timbre e o ritmo e, por fim, emudece. Então, os contornos do corpo começam a dissolver-se, a figura dilui-se e a pessoa torna-se invisível. Na pátria do silêncio, todos os que a habitam são invisíveis.

sábado, 10 de abril de 2021

Impressões 79. Figuras insones

José Dominguez Alvarez, Casario e figuras de um sonho

Figuras insones e ao mesmo tempo perdidas dentro de um sonho erguem-se no silêncio da praça. Se caminham, fazem-no lentamente, como se o tempo se retraísse na sua marcha. Se param, olham para lado nenhum. Das suas bocas não nascem palavras. Dos seus olhos, não vem qualquer brilho. Reúnem-se e depois separam-se, sem que nenhuma perceba a razão de uma e de outra coisa. Todas pensam estar rodeada de fantasmas. Tremem, se um pássaro poisa no ramo nu das árvores.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

A Sarça Ardente - 77

Eduardo Nery, Estrutura Ambígua, 1969
Descem pela fímbria
dos dedos,
trazem metáforas
de âmbar e fogo.
Sombras e silêncios
de uma paixão
nascida na névoa
da memória,
no fogo da sarça ao arder.

Março de 2021

domingo, 4 de abril de 2021

Meditação Breve (155) Constelações

Kazimir Malevich. Red Cavalry, 1928-32

O mundo compõe-se de linhas e manchas, de estratos onde aquilo a que se chama realidade se esconde, para ser encontrada, milénios depois, por arqueólogos dedicados. Do heteróclito que surge perante a visão, os olhos arqueológicos vão, a pouco e pouco, introduzindo separações arbitrárias, desenhando figuras como as que se descobrem no céu e a que dá o nome de constelações. Aquilo a que, apaixonadamente, chamamos realidade, ou seres individuais ou colectivos tem a verdade de uma constelação.

sábado, 3 de abril de 2021

O sal do silêncio (58)

Eugene Robert Richee, Louise Brooks, 1928
Do alçapão da noite chega a vida. Onde tudo era trevas e silêncio, de súbito emerge um rosto, umas mãos e tudo aquilo que não tendo importância para ser o sal da vida. Não é, mas mesmo as aparência são já um sinal de emancipação da negra escuridão.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Arqueologias do espírito 24

Francisco Metrass, Pastores Guardando o Rebanho, Sec. XIX

Não será das mais arcaicas imagens, aquela que junta numa unidade o pastor e o seu rebanho. A pastorícia, na economia do desenvolvimento da espécie humana, é um acontecimento recente, demasiado recente. No entanto, a sua força é de tal ordem que se tornou metáfora e símbolo com que os homens pensam a relação de uma comunidade com os que têm a função de a dirigir e conduzir salva ao aprisco. No rebanho, simboliza-se a unidade do conjunto dos homens e também a sua necessidade de possuir um condutor. O pastor cedo emergiu como o símbolo daquele que tem por dever conduzir os homens. O bom pastor.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Haikai urbano (67)

Nikias Skapinakis, Quintais de Lisboa, 1956
Quintais de Lisboa,
sombras vindas do passado,
imagens que ecoam.
 

quarta-feira, 31 de março de 2021

A Sarça Ardente - 76

Helena Almeida, sem título, 1972
O ténue tremer do mundo
suspende-se na pétala
de uma rosa,
na sombra da casa
onde o dia nasceu.

Como sibilas, as palavras
chegam cheias
de insinuações
e logo se desfazem
em sílabas trementes de sal.

Março de 2021

terça-feira, 30 de março de 2021

Meditação Breve (154) Tempos modernos

Jeffrey Smart, Autobahn in the Black Forest I, 1979-80

A modernidade é uma imensa cicatriz no mundo. Começou como uma ferida, com o tempo cicatrizou, mas nunca se apagou o rasgão na Terra. Mesmo onde o arcaico e o enigmático persistem, os tempos modernos chegam, rasgando os tecidos, impondo a rasura do que é claro e distinto ao que, por natureza, só pode ser obscuro e sombrio.

segunda-feira, 29 de março de 2021

Impressões 78. Do poente à aurora

Falcão Trigoso, Poente Algarvio, 1913

A espuma do dia dissolve-se na luz do poente. Depois, chegará o pântano do crepúsculo, feito de ardis e equívocos. Por fim, será a hora da noite, onde tudo o que existiu durante o dia se dissolve no nada e espera a vinda da aurora, com as sua promessas de luz eterna, para que ganhe contornos e regresse à ao mar azul da vida.

domingo, 28 de março de 2021

O pelicano

René Burri, Le Pelican de Mykonos, Greece, 1957

Todos as manhãs o homem percorria o cais. Não tinha qualquer traço que o diferenciasse dos outros habitantes da ilha. Nunca esquecia o boné e a flauta. Misturava melodias tradicionais, algumas muito antigas, com improvisações, pois o tempo e o treino deram-lhe um domínio perfeito do instrumento. Era sempre acompanhado por um enorme pelicano. Este surgia quando ele tocava certa composição religiosa inspirada no sacrifício de Cristo. Às primeiras notas, a ave vinha do nada e acompanhava o tocador de flauta até se dissolverem no horizonte. Um dia, curioso, abordei o músico e perguntei-lhe de quem era aquele pelicano. Respondeu-me de modo estranho. O pelicano é aquele que é, e aquele que é não pertence a ninguém. 

sábado, 27 de março de 2021

O sal do silêncio (57)

Dordio Gomes, Casas de Malakoff - Paris, 1923

Imagina-se, ao arrepio da realidade, uma cidade silenciosa. Caminha-se por ela sem destino certo. Quando se chega ao fim de uma rua, esta logo se bifurca. Então, o espírito é obrigado a tomar uma decisão. Quanto mais se caminha, mais decisões têm de ser tomadas, pois o silêncio da cidade não é senão um caminho onde a realidade continuamente se bifurca.

sexta-feira, 26 de março de 2021

A Sarça Ardente - 75

Jaime Burguillos, Ocaso, 1976
Oiço a sarça ao arder
e abrigo-me
no rumor do incêndio.

O sangue sussurra
na errância,
vinho ávido de vida.

Parado, sigo pela rua,
espera-me
a luz do equinócio.

Março de 2021

quinta-feira, 25 de março de 2021

Meditação Breve (153) Pontes

Louis-Mathieu Verdilhan, Pièces d´eau à Mazargues

Uma ponte liga, por norma, dois pontos pertencentes ao elemento terra que a intromissão do elemento água separou. As pontes mostram o estabelecimento de uma comunhão entre aquilo que o tempo e a natureza tornou diferente. Ligar duas margens não é apenas traçar um caminho transitável. É tornar próximo o que estava afastado. Mostram, porém, uma outra coisa mais decisiva, o homem como pontífice, como construtor de pontes. Cada um traz em si o poder de aproximar o que está afastado. 

quarta-feira, 24 de março de 2021

Arqueologias do espírito 23

Yasuo Kuniyoshi, Refugees, 1939

Uma das experiências espirituais mais arcaicas será a do refúgio. Como muitas outras, também esta começou na concretude do corpo. O perigo que sobre ele descia fez com que a humanidade aprendesse a refugiar-se, a circunscrever-se num espaço de tranquilidade. A repetição da experiência levou-a não apenas a procurar o lar num locus amoenus, onde o espírito se poderia desenvolver, mas ainda a fazer da vida espiritual o autêntico refúgio. Todo aquele que a ela se entrega é um refugiado. Foge de um locus horrendus e procura a vida autêntica nessa abertura do espírito para além do mundo. 

terça-feira, 23 de março de 2021

Haikai do Viandante (408)

Henri Edmond Delacroix Cross, Sunset on the Lagoon, 1903-4

Águas da lagoa,
sombreiam crepusculares.
Margens do luar.

segunda-feira, 22 de março de 2021

Impressões 77. Dos objectos mecânicos

Martien Coppens, Textile Machine, 1950s

Há perante tudo o que é mecânico um duplo sentimento. Em primeiro lugar, espanto pelo poder da engenharia, pela precisão da técnica, pela perfeição do movimento, pela geometria com que os artefactos se dão a ver. Depois, a decepção da sua frieza e, mais do que tudo, pela obsolescência que logo se manifesta em qualquer mecanismo.

domingo, 21 de março de 2021

A Sarça Ardente - 74

Salvador Dali, Musa de Cadaqués, 1921
O dardo do dia
trespassa
o coração incauto.

Abre-lhe uma ferida
de água
no crepúsculo da carne.

Um relâmpago arde
no cetim do céu
no repouso das horas.

Como uma seta
o dia voa
na luz dos teus olhos.

Março de 2021

sábado, 20 de março de 2021

O sal do silêncio (56)

André Kertész, Rue Du Cuédic, Le Havre, France, 1948
Entrou dentro da casa do silêncio, sentou-se à janela, pegou no livre de orações e, enquanto o dia deslizava para as trevas da noite, os seus olhos contemplaram, nas palavras tão conhecidas, os mistérios que, no seu enigma inviolável, se furtarão eternamente à astúcia e ao ardil da razão.

sexta-feira, 19 de março de 2021

Haikai do Viandante (407)

Walter Leistikow, Lake Grunewald, 1898

O que permanece
no lago de Grunewald,
velado se tece.

quinta-feira, 18 de março de 2021

Meditação Breve (152) Frivolidade

Janine Niepce, Buffet au champagne, Paris, 1963

Um exercício de frivolidade, não porque seja fútil beber champagne ou leviana a vida social, mas porque se representa que se bebe champanhe e se está num acontecimento social. Toda a frivolidade nasce de um movimento em que o self recua temeroso e se duplica através do uso do corpo como uma máscara protectora.

quarta-feira, 17 de março de 2021

Arqueologias do espírito 22

Kerekes Gábor, Apple, 1991
Dádiva espontânea da natureza, os frutos ter-se-ão inscrito tão fundo no espírito dos homens, que estes não hesitaram em fazer de um deles o símbolo da sua expulsão do paraíso e da queda na vida mundana. De certa maneira, a maçã arrastou os homens na sua viagem para terra. Retirou-os dessa existência fora do espaço e do tempo e fê-los aterrar num corpo sujeito à duração. Da contemplação da viagem da maçã desde os ramos incessíveis até à terra dura, o espírito descobriu um modo para explicar porque se encontro presa na cela do corpo e na caverna do mundo.

terça-feira, 16 de março de 2021

A Sarça Ardente - 73

Aristide Maillol, Dans l'esprit d'une fresque, 1930
O vinho fremente da tua boca
brilha na escuridão
do firmamento.

Bebo-o no copo escuro do corpo,
e fulguro na ferida
a arder no incêndio da fonte.

Março de 2021