| António Areal, sem título, 1961 (Gulbenkian) |
Restos de memórias
flutuam num mar vermelho.
Mundos esquecidos.
| António Areal, sem título, 1961 (Gulbenkian) |
Restos de memórias
flutuam num mar vermelho.
Mundos esquecidos.
| W. Eugene Smith, Steelworker, 1955 |
| Pierre de Chevannes, Jóvenes al borde del mar, 1879 |
uma mancha nas noites de
Agosto.
Dias deslizam nos dias, o sol vai,
vem,
inquieto, perdido no horizonte.
Relva verde desdobra-se no
olhar.
Onde eram cabanas acanhadas,
crescem casas de pedra, luz e sal.
Na memória, apenas sol e mar.
A miragem das horas carregadas
com o peso da água, com a cal
das manhãs que de súbito se
calam.
Cativei desses dias os rumores.
Raparigas despidas caminhavam
na rudeza do sol, presas ao mar.
Agosto de 2024
| Antoine Chintreuil, The Rain Shower, c. 1868 |
| Fred Kradolfer, sem título, 1930 (Gulbenkian) |
| José de Almada Negreiros, sem título, 1941 (Gulbenkian) |
a certeza das tardes e das
noites?
Saberemos da Lua a aparência,
quando Julho progride na jornada?
Estações são mistérios ilegíveis,
pelos anjos escritas num
caderno
onde a luz resplandece e nos
cega,
onde a noite cintila no silêncio.
Raparigas perpassam nos meus
olhos,
trazem vestes de Estios muito
antigos,
eram jovens e belas na memória,
eram filhas dum tempo onde
Julho
refulgia nos seus olhos e ardia
na secreta paixão nos meus velada.
Julho de 2024
| Henry Peach Robinson, Atlanta, 1896 |
| Nicolaus Schindler, Puszta-Motiv, 1908 |
| Ana Hatherly, sem título, 1971 (Gulbenkian) |
O livor destes dias faz de
Julho
o mais ímpio dos meses de
Verão.
Claras nuvens no céu são o
prenúncio
do jardim onde as horas se
recolhem.
Escondeu-se o Sol e dardejou
sem clemência os homens impudentes.
Vozes clamam ao longe, fatigadas,
rasgam turvos silêncios em sua
dor.
Escondi o meu corpo na caverna
onde moram os sonhos e dormi,
esquecido dos dardos invencíveis.
É o áspero rumo que me leva
desta terra sem ruas, sem rumores,
ao local onde morre o Sol no
mar.
Julho de 2024
| Rui Filipe, Baixa-Mar, 1973 (Gulbenkian) |
| João Dixo, Quem pinta, pinta-se, 1978 (Gulbenkian) |
| Júlio Pomar, Cegos de Madrid, 1957-59 (Gulbenkian) |
| António Dacosta, Sonho de Fernando Pessoa debaixo de uma latada numa tarde de Verão, 1982 (Gulbenkian) |
caiu lesto nas sombras da
cidade.
No silêncio das tardes
resplandece
luminoso o prenúncio da
revolta.
Tão pesado tributo enlouquece
quem do Norte partiu em busca
plácida
de outras terras sem gelo, de
eternas
noites cálidas, ricas em ardor.
Ocultaram-se os homens no
jardim
onde o tempo ameno abre os
braços
e mitiga a revolta dos perdidos
no frio fogo do Sul, na vã
loucura
de esperar salvação nesses
lugares
onde tudo se perde sem perdão.
Julho de 2024
| Manuel Botelho, Areia e Sal - Igrejas Silenciosas, 1987 (Gulbenkian) |
| Henry Moore, The Artist's Hand III, 1973 (Gulbenkian) |
León Kossoff, Demolition of the Old House, Dalston Junction, Summer, 1974 |
Esqueci os amores de Verão.
Esqueci vendavais e noites quentes.
No oceano está presa a memória
dos incêndios bravios da vida rude.
Oiço o leve bater das horas idas
na janela aberta destes dias,
casa branca agora desprezada,
onde ardia o fogo da esperança.
Oiço a noite rugir na rua vazia
onde os passos que dei ainda ecoam
como sinos feridos na montanha.
Animal sem morada nem destino,
animal sem a luz de cada dia,
abro as mãos e no vento oiço o Estio.
Junho de 2024
Yale Joel, People and vehicles moving about city shrouded in fog. Paris, 1948 |
| Hubert Robert, Roman Ruins, 1773 |
| Ernst Ludwig Kirchner, Fehmarn House, 1908 |
Partirás,
Primavera, apressada.
O
teu noivo espera-te na casa
de
onde não voltarás para rever
a
luz do dia e o frio negro da noite.
As
flores que trouxeste definharam.
Nos
rios, bravias águas adormecem.
São
corcéis sem fulgor, velhos amantes
perdidos
no cansaço do amor.
Jamais
retornarás, mesmo se o tempo
trouxer
nova vitória sobre a noite
do
negro Inverno que virá.
Fantasia
e fulgor, novos amantes
encontrarão
a luz de um desejo
que
outra Primavera soltará.
Junho de 2024
| Bernardo Marques, Tejo (Gulbenkian) |
| Fernando Pissarro Gambôa, Terra Perdida IV, 1982 (Gulbenkian) |
| Mimi Fogt, Spring Time - Serra de Sintra, 1979 (Gulbenkian) |
Na
cilada das ruas, sol ardente
traça
lagos de luz, terras de fogo,
um
mundo no bulício da manhã.
O
espírito canta, é um pássaro.
Tudo
na Primavera dissimula
o
Verão que virá com a sua corte
ouvir
velhas canções de sal e sombra,
para
despertar almas sonolentas.
Ébrio,
bebo a luz, como o fogo,
e
canto, sou um pássaro do Sul,
perdido
entre ruas e desejos.
O
Verão arde puro nos lugares
onde
a Primavera se esconde
e
em mim canta odes e canções.
Junho de 2024
| Charles Clifford, The Armor of Philip III, 1866 |
| Francisco Tropa, sem título, 2014 (Gulbenkian) |
| Eduardo Nery, Estrutura Ambígua IV, 1969 (Gulbenkian) |
| João Queiroz, sem título, 1999 (Gulbenkian) |
Morre a Primavera no calor
desvairado de Junho, nestes dias
sem nome, sem grandeza, nesta hora
onde os anjos se calam temerosos.
Em silêncio, o sol chegou irado,
exausto pelos dramas concebidos
na caverna escura onde o mal
germina como erva impiedosa.
Retiram-se os anjos para longe,
procuram o jardim onde as águas
correm entre a noite e a luz.
A cidade esconde-se nas sombras,
enquanto o mal trabalha sem sossego,
invade as avenidas, nasce o caos.
Junho de 2024
| Jorge Molder, O Fazer Suave de Preto e Branco (da série), 1981 (Gulbenkian) |
| Jorge Pinheiro, sem título, 1977 (Gulbenkian) |
| Adam Elsheimer, Pan and Syrinx, 1610-1620 |
Frívolas fantasias pairam na tarde,
enchem os céus de nuvens e promessas,
rasgam nos corações a esperança,
desenham nas estradas fios de sombra.
A luz cresce ainda pelos campos,
toca o sal da terra com o ardor
do sol primaveril, com o desejo
que desliza dos seios das mulheres.
Águas de Primavera são promessas
trazidas pelas sombras deste dia,
tecidas pelas mãos brancas da tarde.
A natureza é campo de júbilo,
onde o desejo cresce, salga a terra
e dardeja os corpos das mulheres.
Maio de 2024