Expectante, a ave olha o rumor do silêncio, enquanto o tempo, levedado pela brisa, passa em direcção ao futuro. Na ramagem das árvores, sob um céu anónimo, esconde-se a esperança e a mão que há-de pintar de cinza a sombra efémera que a luz sempre consigo traz.
Olho e reconheço-me na imagem que a esfinge me devolve. Se pergunto quem sou, nunca oiço a resposta, apenas o ecoar da pergunta no impenitente vazio do deserto chega aos meus ouvidos, devolvendo-me a angústia da pergunta e a incerteza que me habita.
- Não podes querer o Sol. Está longe, é muito grande e quente.
- Não interessa. Eu não desisto.
- Não desistes? Como assim?
- Vou crescer, vou ser maior que tu e então, este barco maior que o sol leva-me até ele. Quando lá chegar, mergulho-o na água e ele arrefece. Então trago-o comigo. Eu não sou como tu. Eu não desisto.
Jean Dieuzaide, Castelo dos Sarmiento, Ribadavia, 1960s
O murmúrio das pedras foi arrastado pelo vento para o desfiladeiro do silêncio. Feitas ruínas, as muralhas são agora fantasmas mudos que dormem embalados pelo arbusto do esquecimento.
A chuva cai impiedosa, dilacera a terra seca, enquanto a trovoada abre, com o frenesim de um caçador em busca da presa, um buraco no coração dos homens. Uma tempestade é sempre uma ameaça, mas também é uma porta por onde a luz, por breves instantes, relampeja.
Tom McCrea, Pruitt-Igoe complex, St. Louis, Missouri, 1955
Facilmente as cidades se excedem e ultrapassam a dimensão em que uma humanidade, espiritualmente saudável, é possível. Entre a penúria da aldeia e a desmedida urbana, abre-se o território da possibilidade, esse lugar onde o pequeno e o grande, o alto e o baixo, a tradição e o novo podem conviver e abrir as portas para que os homens dêem sentido à existência.
O rigor das pedras alimentava o silêncio das manhãs. Por vezes, passavam mulheres carregadas de pão e frutas. Quando chegava o meio-dia, o sol cintilava no chão, anunciado a estiagem e a luz que a noite traria presa à ondulação das estrelas.
Henri Le Sidaner, Neige, Boulevard de la Reine, 1928
Os flocos de neve lembram folhas envelhecidas perdidas pelo chão. Não há pássaros que sobre eles poisem, mas vindo o sol, uma seiva fresca entrará pelos poros da terra e um hálito de água selvagem subirá aos céus para chamar as primeiras aves da Primavera.
Uma casa construída no frágil reflexo das águas abrigava todas as esperanças. De uma das janelas, via-se o passar do tempo no barco triste dos dias. Na outra, ouvia-se o canto das aves que descia e pousava no coração de quem ali se sentava. Depois, havia quem mergulhasse e deixasse o corpo flutuar na luz do entardecer. Então o vento erguia-se e espirais de poeira agitavam-se no ar para caírem inclementes na trémula memória da casa.
Teria sido uma ave ou um raio de luz, talvez a maçã da árvore do paraíso. Agora, é um manto de silêncio sob a penumbra da manhã, a promessa obstinada do Estio que espera, no murmúrio do olhar, o rumor da água na folhagem dos campos.
Foi lenta a metamorfose. As coisas mais surpreendentes acabam por
parecer banais se o tempo nos habituar a elas. Contrariamente ao hábito, ela
abriu a janela. O facto, por inusitado, provou comentários. Também muito notado
foi o caso de, passados dias, aparecer no parapeito da janela um gato. Demorou
mais de meio ano para que ela, naquela altura ainda muito bela, surgir na
janela. Foi o alvoroço. Depois, tornou-se rotina. Passado um ano, nem ela nem o
gato saíram mais daquele lugar. Murmurou-se, mas o rumor depressa acabou.
Habituamo-nos a tudo e nem sequer foi problemática a descoberta que o
único ser vivo era, apesar de cortado, o ramo preso nas mãos dela. Floresce uma
vez por ano.
Imagino ouvir o canto das cigarras, mas são apenas sílabas
ociosas que retinem nos meus ouvidos, pedaços de som perdidos na vinha agreste
do silêncio, uma mão cheia de terra que se atira para o olival. A noite desce
sobre o meu peito e, a compasso, o coração cúmplice bate ao som do canto que as
cigarras sibilam no sumptuoso palácio da fantasia.
De súbito, em pleno dilúvio, um grupo de homens, sob guarda-chuvas, surge na avenida, atravessa-a em correria desenfreada, e ao chegar ao outro lado elevam-se, como se um vento vindo da terra os arrebatasse para as nuvens negras que cobrem o anil do céu.
Ernest Biéler, Les Caprices. Bergères et chèvres. Sous-bois, 1898
Dóceis rebanhos apascentam sob o olhar sereno da pastora. Ela caminha como se flutuasse e o seu corpo estivesse livre do império da gravidade. Em fogo, os cabelos caem-lhe sobre os ombros, à espera que alguém os apanhe para que a pele se entregue à voracidade dos lábios que a desejam.
Isso foi há mais de um século e meio, exclamei. Não se ria, disse, pois o que conhece da realidade se não as aparências? Combati naquela guerra e naquele lugar preciso, o Vale da Sombra da Morte, como lhe chamávamos. Os ingleses contrataram-me. Era o a que se chama, não sem injustiça, um mercenário. Essa batalha, na Guerra da Crimeia, não foi das mais duras. E com insuspeita seriedade contou pormenores de múltiplas batalhas em que teria participado, ao longo dos séculos. Não há guerra na Europa onde não tenha tomado parte, acrescentou. Olhando para a minha estupefacção e incredulidade, disse: não acredita em mim, mas está enganado. Quem lhe disse que a guerra é um assunto humano?
Francisca Muñoz y Manuel Herrera, Abstracción, 1982-97
Era um mapa de antigos desvarios, uma carta sobre o estado dos campos, o sinal aberto para a devassa dos curiosos. Quem assim falava, não o sei. O que sei, e talvez isso não seja pouco, é que nos olhos dela floriu a luz de um sorriso e a noite iluminou-se, libertando-se das trevas como quem se liberta de uma longa servidão.
Foi assim mesmo que a vi naquele dia, em plena rua. Despida e
com as mãos a taparem os seios. Nunca até aí a sua conduta deixara sequer
suspeitar algum traço, mínimo que fosse, de irracionalidade. Era cordata e em
todos os seus gestos e palavras havia medida. Parecia a perfeita realização do
aforismo grego nada em excesso. O que se terá passado para que saísse de casa
daquele modo, nunca o soube. Vivia sozinha e nunca dei por que tivesse visitas,
a não ser de quando em vez a irmã. A única coisa que sei foram as suas palavras
antes de a levarem: Passa tão depressa. Ajudem-me. Está descontrolado,
descontrolado, cada vez mais rápido e eu tão cansada, tão cansada... o tempo, o
tempo...
Nadar, Marguerite Ugalde, French Mezzo-Soprano, 1880s
Conheci-a muito bem, se é que podemos conhecer alguém que
nunca vimos. Vivia por cima de mim. Nunca me cruzei com ela e a partir de certa
altura encarei a possibilidade com verdadeiro terror. A primeira vez que a ouvi
cantar fiquei paralisado. Aprendi a conhecer-lhe os movimentos da alma conforme
ela cantava. Tristezas e alegrias tornaram-se-me transparentes. A melancolia
preenchia-me o coração com a suavidade de um zéfiro. Isso bastava-me. Depois,
caiu o silêncio. Um dia, dois dias, uma semana, um mês. Não mais ouvi a sua
voz. Perguntei à porteira se ela tinha mudado de casa. Não, respondeu. Viajou,
está doente, interroguei. Também não, disse e, com ar trocista, acrescentou:
casou-se.
Para além da paixão por si mesmo, o homem da modernidade foi assaltado por duas grandes paixões: a da mobilidade e a da máquina, como se o seu destino fosse mover-se cada vez mais depressa e pensar cada vez mais mecanicamente, até que se torne uma máquina que se move à velocidade da luz.
A noite cortada pela luz melancólica dos candeeiros abre uma porta por onde o homem pode sair do tempo e entrar, atónito e confuso, por um momento, nesse lar sempre desejado a que chamamos eternidade.