sábado, 21 de março de 2026

Ecos da Primavera 1

Henri Cross, Arbres au bord de la mer, 1906-1907

Ele é aquele que é e paira

sobre as águas do rio

e as ondas dos oceanos.

 

Ouço-o no tamborilar da chuva,

no ressoar do relâmpago.

 

O mundo ilumina-se na voz

vinda das águas,

no eco do candelabro aceso.

 

Março de 2026

 

quinta-feira, 19 de março de 2026

O Espírito da Terra (47)

Vincent van Gogh, Casa de campo con árboles, 1885
Sob o vermelho do céu ao crepúsculo, a terra prepara-se para adormecer. O seu espírito vacila entre o sono e a vigília, mas já um sonho dela se desprende, para se elevar à morada dos imortais. Espera-o o silêncio dos grandes acontecimentos, o cenário onde todas as viagens se tornam possíveis.

terça-feira, 17 de março de 2026

Biografias 42. A mulher-arbusto

Imogen Cunningham - Dream Walking, 1968

Não chegara ainda aos 20 anos quando, numa visão que nunca conseguiu explicar, lhe foi comunicado que a dor que a habitava nascia da sua falta de enraizamento. Sem raízes, ouviu na intimidade do coração, nenhum lugar será o teu lugar, nenhum lar será a morada onde descansarás dos trabalhos e dos dias. Então, ela procurou o sítio onde lançaria raízes. Por um acaso, encontrou-o numa floresta. Escolheu uma clareira e ali permaneceu noite e dia, até que percebeu que os seus pés se prolongavam por dentro da terra e que ela pertencia ali. A surpresa maior, porém, foi quando viu que do seu corpo nascia uma ramagem que o vento embalava. Dos ramos, nasceram-lhe folhas. Era um arbusto e todas as Primaveras florescia. Encontrara as suas raízes.

domingo, 15 de março de 2026

Câmara discreta (34)

Edward Steichen, Portrait, 1905

As sombras confluem sobre o rosto, desenham uma silhueta onde a vida e a morte se escondem. Presa nessa máscara tecida pela retirada da luz, a mulher deixa os mais secretos pensamento chegar aos olhos, pois não haverá quem consiga lê-los e descobrir o texto que ali se escreve. Nem a dor nem a alegria, nem o desejo nem o cansaço fendem a muralha anunciadora da noite. Tudo é ocultação, um secreto exercício, a marca de um ser que esboça a representação do seu apagamento. 

sexta-feira, 13 de março de 2026

Viagem de Inverno 12

Manuel Filipe, Inverno-Primavera , 1978 (Gulbenkian)

Nuvens no céu tecem-me a nostalgia

do corpo mergulhado na poeira do calor.

 

Virá o espírito na opulência da oliveira

e derramará perfumes do Líbano.

 

O Inverno soletra as últimas palavras.

A voz do tempo abre-se ao júbilo da alvorada.

 

Março de 2026

quarta-feira, 11 de março de 2026

Arqueologias do espírito 39

Anónimo Bizantino, Pentecostes, 1537

Foi uma longa caminhada dos homens até chegarem a Pentecostes e encontrarem no vento impetuoso e nas línguas de fogo a manifestação do espírito. Ao longo de milénios, espantadas pela voz do vento e fascinados pela ondulação do fogo, as suas mentes, no segredo do não dito, foram construindo um porto sem nome. Chegada a hora, o vento que varre e o fogo que queima abriram uma clareira. Nela, aquilo que era particular, pelo dom das línguas, tornou-se universal, e o que era ignorância, sabedoria. O vento varreu o particular e descobriu o comum. O fogo queimou a ignorância e desvelou o sentido. O espírito encontrara o porto que o esperava.

segunda-feira, 9 de março de 2026

Impressões 134. Um olhar

William Henry Jackson, El Capitan, Yosemite, 1889
É um lugar de água ou de sombra. A névoa do mundo dança na música do silêncio. Os olhos abrem-se e, sobre eles, cai um exército de impressões, mensagens de luz que rompem a cerca da escuridão e alumiam, com a sílaba da cintilação, a trémula voracidade do espírito.

sexta-feira, 6 de março de 2026

Viagem de Inverno 11

Miguel Flávio, A cidade ao pôr-do-sol, 1967 (Gulbenkian)

O corpo solicita-me a erva das ruas

e o saibro ígneo do entardecer.

 

A parábola dos vinhateiros abre um tonel

de sangue no caminho da inocência.

 

O mundo respira sob o saibro das ervas

o vinho da morte e o vítreo vento das glicínias.

 

Março de 2026

 

quarta-feira, 4 de março de 2026

Meditação breve (211) O gato

Oskar Kokoschka, Amantes con gato, 1917

Entre os amantes, o amor cedeu ao cansaço, e na luz do hábito o desejo ensombreceu. Então veio o gato, e cada amante passou a amar o talento do felino. E o amor ao animal era tanto que o cansaço e o hábito foram esquecidos. Não era a velha paixão, mas um amor comum que transbordava para o império dos seus corpos.

segunda-feira, 2 de março de 2026

Viagem de Inverno 10

Rockwell Kent, Admiralty Inlet, 1922

Sigo pela luz da árvore do silêncio,

deixo germinar a semente da ciência infusa.

 

A voz terrível da rosa da benevolência

troa sob a tempestade de um mandamento.

 

Um céu quaresmal feito de cinza cobre

os campos onde a tempestade se silencia.

 

Março de 2026