quarta-feira, 15 de junho de 2016

Poemas do Viandante (552)

Georgia O'keeffe - The dark iris nº II (1926)

552. um frio quase

um frio quase
frívolo
desce em mim
trazido no vento
do verão
no sopro
resplandecente
dos lírios irisados
de luz e maio

terça-feira, 14 de junho de 2016

Composição cósmica

Oscar Dominguez - Composição cósmica (1938)

Olhamos o mundo e tomamos aquilo que apreendemos como sendo a realidade objectiva. Não vemos que grande parte do que chamamos real é trabalho do nosso próprio espírito. O mundo para nós não passa de um grande trabalho de tecelagem, a realização das nossa faculdades sob o efeito dos estímulos externos, um exercício espiritual, aparentemente, espontâneo, um trabalho de composição cósmica.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

A grande batalha

Yves Klein - La Grande Bataille

Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá. (João 14:27)

A vida é entendida, muitas vezes, através da metáfora da guerra. É compreendida como uma sucessão de batalhas. Por maiores que sejam os conflitos que um ser humano atravessa na existência, está ainda perante pequenas batalhas. A grande batalha é a da paz que foi doada aos homens, lhes foi deixada em herança. Grandes são os perigos que ela traz consigo, pois o maior dos perigos está ligado ao que é misterioso, e nada é mais misterioso do que essa paz que o homem herdou e que o mundo não compreende.

domingo, 12 de junho de 2016

A dinâmica das formas

Gino Severini - Dinamismo de formas

A arte capta muitas vezes aquilo que é o núcleo essencial da vida do espírito. A dinâmica das formas é o sinal de que a vida espiritual não encontra repousa em qualquer forma em que se manifeste. O espírito instaura uma forma e logo encontra nela um limite que anseia ultrapassar. Incansável, deixa-se guiar, na vida formal que é sempre a sua, pelo desejo daquilo que não tem forma e, dessa a-formalidade, chama por ele.

sábado, 11 de junho de 2016

Poemas do Viandante (551)

Friedl Dicker - Forme négative et forme positive dans un champ de force (1941)

551. sou um sim

sou um sim
ao dizer não
e tudo o que digo
se o digo
se o calo
se o trago em mim
ainda é
um não
que me diz
sou assim

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Um study case

Elmer Bischoff - #1 (1974)

Produz conhecimento, investiga, diz-me. Desculpe o sorriso impertinente. Também eu acreditei que era possível conhecer a realidade. Não, não era uma visão ingénua. Parece, porém, que sou um study case. Como foi, pergunta-me. Que lhe hei-de dizer? Primeiros as cores perderam a constância. Depois, os contornos começaram a desaparecer e as formas, falo das formas das coisas, ficaram fluidas. A realidade - não ligue ao meu sorriso - espacial tornou-se uma amálgama, onde nada é discernível. E agora está aqui e quer saber o meu segredo. Como me oriento? Não me oriento. Ajo ao acaso e espero acertar. Não é isso que acontece também consigo?

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Haikai do Viandante (285)

Lyonel Feininger - Blue Coast (1944)

azul sobre azul
barcos rendidos ao mar
ventos de verão

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Mito e liberdade

Ker-Xavier Roussel - Cena mitológica

Por muito que a razão se esforce, por muito que ela reivindique a supremacia e a legitimidade, uma legitimidade fundada no conhecimento e, não menos, na técnica, o mito acaba sempre por retornar e invadir a cena do mundo. Com ele triunfa, uma e outra vez, a ambiguidade, a pluralidade de sentidos, as múltiplas possibilidades. Muitas vezes pensa-se que a liberdade está ligada à ordem moral da razão. Podemos, porém, contar outra história e vê-la emergir na plurivocidade que nasce do mito, como se este fosse uma fonte, frágil e equívoca, de onde nascem diversos e caudalosos rios, os quais se abrem à livre navegação.

terça-feira, 7 de junho de 2016

Poemas do Viandante (550)

Mario Merz - Alga (1995)

550. na água viva

na água viva
de uma alga
cresce
alucinada
e lenta a luz
das ondas
do mar de vigo
das flores de
verde-verde pino
     ai deus i u é
e ai deus se verrá cedo
     ai deus i u é

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Pregadores da vida beata

Lucio Muñoz - 8-86 (1986)

Tempo lamentável este. Não por ser uma época de desolação, embora o seja. Enquanto a ruína cresce aos nossos olhos, também não param de crescer os vendedores de beatitudes. A cada esquina, até nos lugares mais insuspeitos e outrora dignos de respeito, se ouve apregoar a venda da felicidade, aquela que espera por si ao virar da esquina. Não deixa de ser paradoxal que, no momento em que a actividade espiritual do Ocidente mais se retrai, a pregação da vida beata atinja um insuportável paroxismo.

domingo, 5 de junho de 2016

Construtores de labirintos

Felo Monzón - Construção (1975)

Podemos pensar na vida como uma construção. Não dessas construções que trazem o reconhecimento dos outros, mas a construção de um labirinto. De um labirinto secreto, como o devem ser todos os labirintos. Construímo-lo para podermos encontrar o Minotauro. Para o matar? Não. Para nos reconciliarmos com ele, isto é, connosco.

sábado, 4 de junho de 2016

Europa: escutar os mitos

Fernando Botero - Rapto de Europa (1955)

Nunca devemos deixar de interrogar os mitos. Têm sempre alguma coisa a dizer a quem anda perdido no caminho. Também hoje a Europa está a ser raptada por um deus impetuoso. A Europa é o conjunto de valores espirituais que durante séculos se tornaram uma marca distintiva no reino do espírito. Não sabemos, porém, o que se esconde sob a figura do touro. Será ainda um deus que assim nos fala ou é antes um emissário da morte que nos anuncia um fim e nos vem dizer que os nossos valores caducaram e que o espírito se retirou para outras paragens?

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Poemas do Viandante (549)

Markus Luepertz - Composicón en gris (2001)

549. componho na cinza

componho na cinza
do cinzento
um veneno
feito de cianeto e
líquidas violetas
a escorrer
no violão da tarde

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Haikai do Viandante (285)

Paul Cézanne - Houses on the Hill (1900 -1906)

casas na colina
crescem dentro do verão
sombras tão sombrias

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Caminhar por caminhar

Isabel Villar - Ciclistas llegando a la meta (1964)

Uma boa educação prepara a nova geração para colocar e atingir metas. Ter um objectivo na vida e lutar por ele. E nisto está tudo o que a sociedade pode desejar. É isto, caso se alcance o objectivo, que se chama sucesso. Mas se o essencial não for chegar a uma meta, mas antes dissolver metas, libertar a vida de objectivos, deixar que o vento sopre onde quiser? E se não houver mesmo meta alguma para alcançar? Se a finalidade não passar de uma ilusão? Para que servirá tal educação? Não seria melhor que se aprendesse a caminhar apenas pelo caminhar?

terça-feira, 31 de maio de 2016

Portas e metáforas

Pierre Bonnard - La Porte Ouverte (1910)

A porta aberta funciona muitas vezes, fundamentalmente, na linguagem corrente, como uma metáfora. Esta contaminação pela linguagem quotidiana roubou-lhe o brilho metafórico. No entanto, a expressão continua a ser essencial para compreender a própria metáfora. Esta é interpretada, por norma, na base da analogia. Se dissermos, porém, que a metáfora é uma porta aberta, talvez estejamos mais perto de perceber o que nela se joga. Semeadas no texto, as metáforas são portas por onde entramos num outro mundo, num mundo que a literalidade esconde ao espírito mas que este, através, dos ardis da imaginação abre, para que neles possamos encontrar o nosso lugar.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Poemas do Viandante (548)

Mark Tobey – À Cheval la Nuit (1958)

548. um cavalo cavalga

um cavalo cavalga
a noite
relincha na sombra
escura e estreita
ergue o
peito ao voo
da águia alada
e galopa
com asas de névoa
as
noites de novembro

domingo, 29 de maio de 2016

O jogo do afastamento e do retorno

Giorgio de Chirico - Ritorno del fliglio prodigo (1965)

O jogo do afastamento e do retorno ocupa um lugar central na vida dos homens. O afastamento significa a ruptura com a inocência originária, uma inocência feita de inconsciência, de não conhecimento, de ignorância. A ruptura abre o homem para a experiência e para os limites que esta lhe mostra. Tendo experimentado os limites, o homem retorna a si, à sua inocência. Agora, porém, a uma inocência que conhece a culpa e que se torna continuamente inocente. Uma inocência que sabe o que são as mãos sujas. Uma inocência que, conhecendo a culpa trazida pela experiência, sabe que a bela alma da inocência originária é uma ilusão. A parábola do filho pródigo não trata de outra coisa.

sábado, 28 de maio de 2016

Da animação

Francis Picabia - Animação (1914)

O uso corrente do termo animação liga-o à ideia de alegria e de entusiasmo. Animação, porém, remete para a essência da vida espiritual. Toda esta é um contínuo dar alma e, ao dar alma, dá-se vida. Animação é o acto pelo qual a vida se extrai da não-vida. A alegria e o entusiasmo não são a efectiva animação, mas uma sua consequência, o resultado de uma operação criadora.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Esquecer o nome

Lagoa Henriques - Sem título (1974)

Cheguei aqui, a este lugar vazio, a esta terra de fumo e cinza. Sou um espectro abandonado na margem do rio, na floresta ardida pelos incêndios, os grandes incêndios de Verão. Era um corpo, a gravidade agia sobre mim e a terrível necessidade prendia-me à terra. Agora estou livre, mas já não sei o meu nome. Ao esquecer-me do nome, perdi o corpo. Não o sabia, mas o corpo é uma emanação, uma sólida emanação, do nome. Quem ama o corpo, deve cuidar do nome, pronunciá-lo a cada instante, para não o esquecer. Talvez não amasse o corpo e, por isso, deixei de recitar o nome. Agora estou aqui, leve e livre, na margem do rio, e, calem-se, não, não quero saber como me chamava.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Poemas do Viandante (547)

Paul Klee - Before the Snow (1929)

547. um floco de neve

       um floco de neve
     flutua
na sombra
divina do dia
             sweet snow
           sweet snow
e desce e desce
     no sweet sono
   no sweet sonho
a neve fria

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Haikai do Viandante (284)

Claude Gellée - Seaport at Sunset (1639)

o dia morre lento
e amarelo sobre o mar
noite no horizonte

terça-feira, 24 de maio de 2016

Da leitura

Fernand Léger - A leitura (1924)

O ensino da leitura, por necessidade de eficiência, acaba por matar aquilo que é essencial no acto de ler. Ler é, antes de mais, um acto de decifração, a revelação do que está escrito. A eficiência adquirida no acto de ler naturaliza a leitura (a partir de certo grau performativo, ler parece uma coisa natural) e rouba-lha o sentido de penetração num mistério cifrado. Este não é o único problema. Decorrente dele, está a oclusão da leitura em si mesma, como se ela apenas servisse para a transmissão de uma mensagem ou a fruição de um prazer estético, na leitura literária. A leitura como decifração deve ser, contudo, um modelo ou arquétipo que se deve transferir para toda a realidade, a exterior e a interior. Tomar tudo como signo e cifra implica então que sejamos, de forma consciente, leitores contínuos do mistério do mundo e do enigma que cada um é para si mesmo.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Da simbolização da experiência

Maurice Denis - Le Calvaire (La montée au Calvaire) (1889 )

Em sociedades secularizadas como as nossas tende-se a perder de vista como a simbólica veiculada pelas religiões, metamorfoseada pela arte, fornece modelos fundamentais para compreender a vida e enquadrar a experiência existencial dos homens. Atente-se no quadro reproduzido de Maurice Denis. Na ideia de calvário pensamos o sofrimento e a morte. Tendemos, porém, a esquecer que ele representa uma ascensão. Se dermos atenção a essa ideia de subida, compreendemos então que todo o ultrapassar-se, todo o ascender a uma condição não humana, se faz sob o signo do sofrimento e da morte. O sofrimento de se abandonar o que se conhece e a morte daquilo que, por hábito e convenção social, se julga ser. 

domingo, 22 de maio de 2016

Poemas do Viandante (546)

Franz Ehrlich - Azul e amarelo com um extremo branco (1930)

546. ouve-se o azul cantar

ouve-se o azul cantar
na luz
amargamarela
tão pura
do velho violino
que vibra
no triângulo triste
de um perfume
quasianil quasiazul

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Suspender a gravidade

Saul Steinberg - Gravity Reversed (1961)

Na dança ou no desporto desenha-se uma das grandes ambições da humanidade, a libertação da gravidade. O desejo de se elevar acima da terra é, porém, o símbolo de um outro apelo, o apelo à libertação da necessidade. A terra e a gravidade simbolizam tudo o que nos prende irrevogavelmente à condição humana. Suspender a gravidade é o programa de toda a vida espiritual. 

Uma botânica do espírito

Alexandre de Riquer - La Botànica (1900)

Não seria de todo desapropriado falar de uma botânica do espírito. Uma vida espiritual significativa implica o florescimento e a frutificação de ideias e atitudes que interferem com o mundo e a própria forma como o homem vive a vida que recebe. Também a viagem espiritual precisa de uma taxonomia, de uma anatomia e de uma fisiologia. Se o vento corre onde quer, aquele que está sob o império do vento precisa, mesmo que apenas num ou noutro momento, de classificar o que lhe acontece, perceber a estrutura da sua vida espiritual e de compreender a sua função. Esta botânica do espírito, porém, tem uma natureza muito especial. A sua validade não é universal, mas singular. Radicalmente, singular.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Na sombra da bandeira

Lorenzo Viani  - All'ombra della bandiera (1911)

A verdadeira vida começa onde acaba a pulsão que conduz os seres humanos a refugiarem-se na sombra de uma bandeira, de qualquer bandeira. Não se trata de uma fuga para a subjectividade, mas de encontrar a vida do espírito. Este não tem bandeiras, nem causas, nem objectivos a realizar.  É pura liberdade e sopra onde lhe apraz. Quando alguém se coloca na sombra da bandeira está morto, pois o que ondula é a bandeira, a causa humana, demasiado humana, que sopra através dela. O que aí sopra é a morte da liberdade.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Poemas do Viandante (545)

Jackson Pollock - Ritmo de Outono (1950)

545. o ritmo desregrado

o ritmo desregrado
da solidão
abre-se
numa régua
a regra com que
meço
no outono
o arco da terra
ao dizer não

terça-feira, 17 de maio de 2016

Do discurso profético

Ernst Barlach - Prophet Writing (1919)

Entende-se demasiado rapidamente por profecia uma antecipação do futuro, uma acção que torna presente a expectativa do que virá. Seria então um salto no tempo. Dever-se-á, porém, desconfiar desta propensão para viajar, ainda que por inspiração, no tempo. O essencial do discurso profético não está no que há-de vir mas naquilo que, aqui e agora, já é. Profetizar aquilo que é significa romper com a ilusão que, como um véu, nos desvia o olhar da realidade para o desejo que habita em toda a expectativa.