terça-feira, 24 de novembro de 2015

Ordem e desordem

Paula Rego - A ordem foi estabelecida (1960)

A ordem e a desordem. É sempre o espírito que, sobre o caos, estabelece a ordem, para, logo de seguida, transformar essa ordem em desordem, suprimindo as formas e deixando a matéria livre para que uma nova ordem se possa manifestar. Quem pensar que a vida espiritual é um lugar de uma ordem eterna equivoca-se. O espírito é a pura inquietação que se busca e, nessa busca, erige e destrói infinitos mundos. Como o vento, o espírito sopra onde quer.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Haikai do Viandante (258)

Xavier Valls - Almendrosy montaña al atardecer (1982)

o céu azul desce
e desliza na montanha
árvores florescem

domingo, 22 de novembro de 2015

Em louvor do Inverno

Gabrielle Münter - Breakfast of the Birds (1934)

Os pássaros da manhã vêm até mim, poisam nos ramos despidos pelo frio do Inverno, e cantam as breves canções que trazem na sua alma obscura. E eu? Cantarei com eles? Ah, se a minha alma fosse assim obscura como a deles, cantaria longamente em louvor do frio e da neve, mas tudo em mim é transparente. Chega a manhã e sento-me, olho para além da janela e tomo o pequeno-almoço, como se toda a verdade da minha vida fosse esta ânsia por pão, leite, um rasto de café. Os pássaros olham-me. Não  pedem as migalhas da minha mesa. Olham e cantam. Oiço-os e a minha alma obscurece-se, torna-se leve, cada vez mais leve e secreta. O vento abre a janela, o meu corpo, cheio da leveza obscura da alma, ergue-se e da minha boca soltam-se os primeiros trinados em louvor do Inverno.

sábado, 21 de novembro de 2015

Improvisação e planeamento

Wassily Kandinsky - Improvisação (1909)

O bom senso tende a opor planeamento e improvisação. Naqueles indivíduos ou povos nos quais não floresce a virtude do planeamento, a improvisação surge como uma solução de recurso para disfarçar a ausência do trabalho de deliberação e de organização. A vida do espírito, contudo, mostra que a oposição entre uma coisa e outra é apenas aparente. O carácter espontâneo de toda a verdadeira improvisação só emerge após um longo trabalho planeado e organizado. E toda a improvisação acaba por exigir novos planos. Sim, o espírito é como o vento, sopra onde quer, mas no seu querer não há cisão entre o plano e o improviso, pois são um só.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Poemas para Afrodite (segunda série) 10

Jean François Millet - Nu reclinado

10. Assim reclinada

Assim reclinada,
esperas que o tempo
acenda o Verão.

Na voz magoada.
Na luz do momento.
Na fria servidão.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

O primeiro passo

Frantisek Kupka - O primeiro passo (1909)

A viagem espiritual distingue-se da viagem territorial por não possuir um primeiro passo, um ponto de partida, a linha onde terá começado. Também não tem um destino. Numa viagem onde não há princípio nem fim, nenhum passo é o primeiro e, ao mesmo tempo, todo e qualquer passo é o primeiro e, como tal, inicial.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

O dia seguinte

Edvard Munch - O dia seguinte (1894-95)

Sonho... o que faço aqui, que sono. Ah esta maldita luz. Meu Deus, como bebi. E tudo tão amargo, que cansaço, o corpo dele, o hálito. Não, este é o meu quarto, mas esta luz. Onde está a noite? Acorda, acorda. Ouvi gatos... miau. Gritaram. Agora, esta noite. Esqueci-me do nome e o rosto... tanta água, água fria. Levanto-me. Ele tinha a mão, um cão uivou. Tenho de me levantar, os pés no chão. Água, sim água. Tomar banho e vomitar, o corpo dele dentro do meu, tenho de vomitar. Bebi, bebi-me. Onde está o meu sangue. Sangue do meu sangue e o corpo, quem me ergue? Pesa-me o corpo, pesa-me a noite e um cão ladra. Levanto-me tenho de ladrar à janela. Sou uma cadela e ladro.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

A luz e o fogo

Max Klinger - O roubo do fogo

Como a luz, segundo João, também o fogo foi dado aos homens. A luz resplandece nas trevas, mas os homens não conseguem compreendê-la e, por isso, essa dádiva pura não toca os homens, fechados para o dom. O fogo, que os homens usam, foi o produto de um roubo e esse roubo limita a dádiva de Prometeu. O fogo não ilumina os homens, não porque estes sejam incapazes de o compreender, mas porque ele, devido à sua origem obscura, não traz consigo a luz.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Construtor de pontes

Pierre Bonnard - A ponte (1896-7)

Ao viandante não é pedido apenas que atravesse a ponte, isto é, que se desloque para a outra margem para de lá ter uma outra perspectiva. É-lhe pedido que seja um pontífice (pontifex), um construtor de pontes, que na sua viagem, a cada momento, teça a ponte ente dois lugares que um abismo separa.

domingo, 15 de novembro de 2015

Haikai do Viandante (257)

Vincente Van Gogh - Wheat Field with a Lark (1887)

um pássaro canta
no silêncio da planície
dia de primavera

sábado, 14 de novembro de 2015

Do percurso da vida

Wassily Kandinsky - Composición número 5 (1911)

A vida não é o percurso linear que conduz o homem do nascimento à morte. Ela não mais do que ensaio, tentativa e erro, um processo feito de incoerências, de acasos, de vitórias e de derrotas, de coisas que, inopinadamente, vêm ter connosco e que, sem se saber porquê, se aceitam ou se recusam. Quando começamos a olhar para trás, para o vivido, e vemos uma linha exuberante e coerente, então já estamos comprometidos com a mentira a nós próprios, e a nossa razão já começou a apagar as memórias, para transformar aquilo que foi um caos num mundo organizado, numa mentira cosmética que nos tranquiliza e nos faz estranhos a nós próprios e à voz que nos chama.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Como uma semente

Ismael González de la Serna - A semente (1929)

A vida do espírito é como a semente. Necessita de se ocultar para depois se manifestar em todo o seu esplendor. Tudo o que é grande nasce daquilo que é pequeno e secreto, e no segredo dessa pequenez acumula força e energia para vir à luz.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

A porta aberta

Pierre Bonnard - A porta aberta (1910)

A porta aberta. A vida espiritual seria uma abertura de portas, um franquear um limite ou uma fronteira. A realidade, porém, é que as portas, todas as portas estão desde sempre abertas. A vida espiritual é esse abrir contínuo de portas já abertas, pois o fechamento não está na porta mas naquele que dela se aproxima.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Haikai do Viandante (256)

Egon Schiele - Árvores outonais (1911)

desce o outono
sobre as árvores dos campos
frio e abandono

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Desintegração da memória

Salvador Dali - Desintegración de la persistencia de la memoria (1952-54)

A memória é a persistência do passado, a composição de indícios que acabam por vincular os homens a uma identidade a um ego. A memória é o fundamento desse ego e daquilo que deriva dele. A vida do espírito nasce da desintegração da memória, que não é outra coisa senão o quebrar da ilusão do ego.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Poemas para Afrodite (segunda série) 9

Giovanni Boldini - Alla Toeletta

9. Corpo desvelado

Corpo desvelado,
segredo que se abre,
no frio da manhã,
ao rude prazer,
ao pudor das mãos,
à luz infinita
com que te desejo.

domingo, 8 de novembro de 2015

Para além dos paradoxos

Sonia Delaunay - Contrastes simultâneos (1913)

Os seres humanos, quando ultrapassam um certo limiar da vida animal que tolhe o pleno desenvolvimento do espírito, colocam a si mesmos estranhos paradoxos, põem a razão perante contrastes que, pela sua simultaneidade, parecem irresolúveis. Uma grande energia é gasta na tentativa, sempre decepcionante, de resolução desses paradoxos. Isso deve-nos fazer suspeitar se estamos a interpretar bem aquilo que o espírito nos propõe. Será que ele pretende que vivamos para a resolução de paradoxos? Ou espera, antes, que, ao fazermos a experiência do paradoxal, abandonemos a ilusão que o caminho do espírito é aquele que é determinado pela razão que se enreda nas suas próprias contradições?

sábado, 7 de novembro de 2015

Um ofício sem fim

Salvador Dali - Voyeur (1921)

Mulheres que se despem, casais movidos pelo desejo e que se abraçam como se a morte os espreitasse, nada disso o interessava. Deixava-se ficar não porque estivesse interessado nos múltiplos espectáculos que a vida dos homens lhe traziam, mas porque estar ali fazia parte do ofício. Um café forte e quente iluminava-lhe a alma e deixava-o a meditar naqueles corpos que, no descuido da noite, se ofereciam à sua visão. Seria um voyeur? Claro que não. Por vezes dormitava e, quando a temperatura descia, acordava. Apesar da sua fama, sempre odiara o frio. E lá estavam as mesmas mulheres a despirem-se, os mesmos casais a abraçarem-se, a mesma agonia perante a morte. Olhava. Teria de escolher alguém. Também ele tinha livre-arbítrio. No seu olhar não havia desejo mas apenas o tédio de uma missão cumprida uma e outra vez, numa repetição sem fim.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O ritmo dos objectos

Carlo Carra - Ritmi di Oggetti (1911)

Teme-se muito - e não sem razão - a dependência dos objectos. Uma dependência fascinada, na qual sempre podemos ler um estranhamento de si, uma alienação. Contudo os objectos possuem os seus ritmos. O viandante deve aprender a olhar e a sentir esses ritmos, pois também os objectos fazem parte do caminho que ele deve percorrer. Também eles exigem a ascese do viandante, um prolongado exercício de observação e de aprendizagem. Também eles são manifestações do espírito.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

O fascínio das antiguidades

Karl Schmidt-Rottluff - Antiguidades (1928)

O fascínio com as antiguidades, se já atormentava as mentes na Antiguidade Clássica, teve no Renascimento um notável incremento. A partir daí, à medida que a modernização das sociedades as afastavam da vida tradicional, o culto pelas antiguidades não parou de crescer. Nunca se pensa, contudo, que este fascínio é o sintoma de um vazio espiritual, a confissão de uma impotência de viver plenamente o tempo que nos foi dado, de nele escutar a voz do vento, aquele vento que sopra onde quer e que, perante o feitiço das formas mortas, não pára de nos chamar à vida.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Disciplinar-se a si

Pierre Bonnard - O exercício (1890)

Também a vida do espírito tem uma dimensão militar. Quantas vezes, mesmo na religião, se fala em milícia. Esta dimensão militar da vida espiritual não visa fazer a guerra ao outro, mas aprender a disciplinar-se a si. Também esta disciplina não significa a rigidez do hábito. Pelo contrário, a disciplina do exercício - da ascese - é o caminho para acolher esse vento que sopra onde quer.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Haikai do Viandante (255)

Egon Schiele - Quatro árvores (1917)

árvores perdidas
esperam a luz do outono
um rasto de vida

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

A hora da espera

Carlo Carra - Dopo il Tramonto (1926)

Deixar que o silêncio envolva o murmúrio das águas. Deixar que a luz do crepúsculo seja tomada pelo assalto da noite. Ali, onde toda a luz se apagou e toda a voz se suspendeu, o viandante começa uma nova viagem. Não à procura da sua luz ou da sua voz, mas à espera da voz que, vinda de lado nenhum, o iluminará e indicará o caminho.

domingo, 1 de novembro de 2015

Das artes e das letras

Fernand Léger - A leitura (1924)

Uma das distinções centrais entre a literatura e as artes plásticas pode ser pensada a partir do olhar. Na pintura e na escultura, o olhar concentra-se no objecto artístico. Repousa nele, perscruta-o, observa os jogos da cor, da forma, da luz. A relação entre a obra e o olhar é essencial. Na literatura, porém, essa relação é apenas instrumental. O leitor também fixa o olhar nas palavras do poema ou da narrativa, mas fixa-o aí para poder olhar para além do texto, para o mundo espiritual que é evocado. Nas artes plásticas, o espírito materializa-se e torna-se concreto. Na literatura, o texto é apenas um medium da relação entre o espírito do leitor e o da obra. É tudo isso que o quadro de Fernand Léger torna patente de forma tão ostensiva.

sábado, 31 de outubro de 2015

A terapia da acção

Pablo Picasso - Contemplación (1904)

A contemplação não é propriamente o oposto da acção. Agir arrasta sempre consigo uma qualquer dor. E esta dor transforma-se numa melancolia, a melancolia da acção. Quando a melancolia se torna insuportável, a contemplação emerge como a terapia da acção.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Haikai do Viandante (254)

Dionisio Fierros - Acantilados en Asturias

águas entre montes
espelham o céu de inverno
murmúrio nas fontes

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

As velhas casas

Chaim Soutine - Old House near Chartres (1934)

Há nas velhas casas um estranho encanto. Este nasce-lhe daquilo que elas puderam observar e absorver ao longo de uma vida maior que a dos homens. O espírito destes - as suas venturas, as suas aventuras e as suas desventuras - impregna-se nas paredes, no telhado, em toda o lado. As casas não são coisas inertes. Nelas concentra-se também a aventura espiritual do homem, seja esta grande ou pequena. Seja esta um triunfo ou uma derrota.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Poemas para Afrodite (segunda série) 8

José de Togores - Desnudo de espaldas (1922)

8. Raptada no sonho

Raptada no sonho
Vejo-te perdida
Entre luz e sombras.
Espero que voltes
No fogo da noite
E sobre mim desça
A voz que me ateia.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Entre mundos

Yasuo Kuniyoshi - Between two worlds (1939)

Estar entre dois mundos não é um acidente no percurso do viandante. Viver na fronteira, nesse território equívoco, é a natureza da própria viagem espiritual. De um lado, o mundo que se abandona; do outro, o mundo que espera. E onde é que é essa fronteira? Em todo o lado a que o viandante chegue. Sobre a terra, a fronteira, esse entre mundos, é o único território disponível para o homem, saiba-o ele ou não.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O segredo do amanhecer

Guillermo Trujillo - Amanecer Chocoe (2000)

Há um momento do amanhecer em que tudo parece suspenso. A luz e as trevas travam uma dura batalha pela vitória. Nesse momento de indecisão, aquele que toma a natureza como um símbolo a meditar encontra um segredo. Não um segredo que esteja oculto e que a curiosidade pode revelar. Encontra um efectivo segredo que está velado e sobre o qual não há revelação possível. O segredo é o da estranha fraternidade entre luz e trevas, o das suas núpcias nas horas indecisas dos crepúsculos. Aquilo que não tem revelação é aquilo que dá que pensar, mas o pensar é ainda e só uma preparação para enfrentar o mistério, perante o qual a razão experimenta o seu limite e a sua impotência.