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sábado, 18 de maio de 2024

Diálogos morais 66. Destino

Julia Margaret Cameron, The Parting of Lancelot and Guinevere, 1874

- Chegou a altura.
- De quê?
- De que será?
- Não faço ideia.
- Como hei-de dizer?
- Diz, estou a ouvir.
- De deixar o destino seguir o seu caminho.
- O destino tem um caminho?
- Então, não tem?
- Pensava que o destino fosse o caminho.

domingo, 21 de abril de 2024

Diálogos morais 65. Raízes

Unknown, Cypress Trees on Side of Roadway, 1912

- É estranho ser um cipreste.
- Não mais do que ser qualquer outra árvore.
- Usava apenas a nossa situação como exemplo.
- Exemplo de quê?
- Vivemos ao lado de uma estrada onde as coisas se movem, mas nós somos imóveis, estamos presas pelas raízes.
- Estarmos ancoradas na terra, será uma prisão?
- Não é uma prisão? Como podemos acompanhar quem por aqui passa?
- E quem aqui passa estará seguro do seu lugar? 
- Pode ir a onde queira.
- E nós ficamos a onde pertencemos. Temos raízes.

sábado, 15 de outubro de 2022

Diálogos morais 64. Visão

Paul Strand, Conversation, 1916
- Como?

- É o que te digo.

- Não posso crer.

- É a mais pura verdade.

- Custa a compreender.

- Também a mim custou.

- Como foi possível?

- Foi o que me perguntei na altura.

- Não admira, também me teria feito a mesma pergunta.

- É inacreditável.

- Agora que me disseste, ainda me custa a crer.

- Se não tivesse visto, não acreditava.

- Ah... viste.

- Com os meus próprios olhos.

- E ainda crês naquilo que os teus olhos vêem?

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Diálogos morais 63. A mão

Alfred Eisenstaedt, Couple holding hands, 1948
- Dá-me a sua mão?
- Para quê?
- Preciso de si.
- Precisa de mim ou da minha mão? Decida-se.
- Não brinque comigo.
- Não estou a brincar. Muda muito rapidamente de desejos. É volúvel.
- Não, não...
- Eu não sou a minha mão e esta não sou eu.
- Está a fazer-se desentendida.
- Quer que lhe recorde o que disse?
- Pedi-lhe a mão, é uma metonímia.
- Poupe-me, por Deus. A literatura nunca me interessou.

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Diálogos morais 62. Perfumes

Horst P. Horst, London, 1936
- Está a ver, ali ao fundo...
- Não, mas adoro o seu perfume.
- Adora?
- Imenso, fui eu quem lhe o ofereci.
- Está enganado.
- Como?
- Equivocado. Não me ofereceu o meu perfume.
- Não está a falar a sério. Não se atreveria a...
- Dispenso-lhe a insegurança. O que me ofereceu foi um perfume...
- Sim, isso mesmo, e adoro o seu aroma.
Adora o perfume que comprou, mas esse não é meu. O meu perfume recebi-o de outros.
- De quem?
- Não tem grande queda para distinguir os odores.  A química não é o seu forte.
- Diga-me quem lhe deu o seu perfume.
- É uma herança. Recebi-o nos genes, mas esse não o empolgou. 

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Diálogos morais 61. Um cavalheiro de indústria

Modesto Ciruelos González, Abstracción, 1975
- Olha, estás a ver o que se passa?
- Não estou e não quero ver.
- Apesar de tudo, nunca deixas de ser desagradável.
- De tudo, o quê?
- Do carro, do casaco, do dinheiro, enfim.
- Não te agrada? Podes despir o casaco e ires a pé.
- Tanto esforço e nem um vislumbre de cavalheirismo.
- E depois?
- Um pouco de gentileza e o mundo seria melhor.
- E achas que eu estaria aqui sentado, se fosse gentil?
- Nunca deixaste de ser um cavalheiro de indústria.

quarta-feira, 14 de abril de 2021

Diálogos morais 60. Uma questão prática

Bert Hardy, A young woman talks to a boyfriend after her evening’s work as a cinema usherette, c. 1954
- Muito trabalho?
- Não, hoje havia poucos espectadores.
- Um mau filme.
- Oh não, apenas uma noite má na bilheteira.
- Isso é pior que um mau filme.
- Não, não é. Um mau filme suja a alma.
- Uma idealista, é o que és.
- Serei.
- A vida não se faz de idealidades.
- Não? Também sei ser uma mulher prática.
- Sabes?
- Sei. O mais prático é ires dormir para tua casa. 
- Como?
- Sem mim.

sábado, 13 de março de 2021

Diálogos morais 59. Ateísmo

Josef Breitenbach, Dr. Riegler and J. Greno, Munich, 1933
- Meu Deus, como está desejável.
- Não estará a invocar o santo nome de Deus em vão?
- O meu desejo, espero-o, não será em vão.
- Além disso não estou desejável, apenas estou despida.
- Isso confirma que o meu desejo não será vão.
- Já vi que é um crente no seu desejo.
- Sim, sou-lhe muito devoto.
- Eu, pelo contrário, sou profundamente ateia.

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Diálogos morais 58. Engano

Carl Mydans, Vladimir Nabokov (in mirror) dictating while wife Vera types, 1958
- Parágrafo.
- Parágrafo, tens a certeza? Não faz sentido.
- Quem é o escritor?
- Parece-me que a resposta é clara.
- Então, faz parágrafo.
- Não tem sentido.
- O escritor sou eu.
- Enganas-te.
- Engano-me?
- Tu ditas, és um ditador. Quem escreve sou eu.

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Diálogos morais 57. Na floresta

Deborah Turbeville, Women in The Woods, VOGUE Italia, 1977
- Quem és tu?
- Não sei.
- De onde vieste?
- Não faço ideia.
- Como chegaste aqui?
- Ignoro.
- O que queres deste lugar?
- Não me ocorre nenhum querer.
- Pareces quase transparente.
- Não estás em melhor condição.
- Afinal, tens opiniões.
- E tu, além de opiniões, o que tens? 

domingo, 7 de fevereiro de 2021

Diálogos morais 56. Vir à existência

Tina Modotti, Carnavale, 1926
- Gostava de saber quem foi o idiota que inventou isto.
- É verdade, um idiota.
- Todos os anos a mesma coisa.
- Uma vezes vestem-nos disto, outras daquilo, mas é sempre o mesmo.
- Desfilar, desfilar, para que os papalvos se riam.
- Uns alarves, a rirem-se de boca atafulhada.
- E nós a desfilar, faça sol ou chuva.
- Bem, se não fosse o Carnaval nem tínhamos vindo à existência.
- Se viemos para isto, melhor fora que não tivéssemos vindo.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Diálogos morais 55. Sobre a cidade

Alfred Eisenstaedt, View of Los Angeles by night from the hills above city, 1936

- Não admira que se percam.
- É verdade. O excesso de luz cega-os.
- A noite é tempo para descansar.
- Eles já não sabem o que é isso.
- Andam por ali levados por um movimento sem fim.
- O coração fica tolhido.
- Pior, a vontade perverte-se e está sempre a suceder o pior.
- Estás a ver aquela rapariga, ali à direita.
- Parece exausta e o que pensa não é o melhor.
- Vais tu ou vou eu?
- Ambos, pois um já não tem poder para a salvar.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Diálogos morais 54. A rainha da Primavera

Yale Joel, Salesman is demonstrating a spring hat, 1962
- Magnífico, fica-lhe muito bem.
- Tem a certeza?
- Repare, olhe para o espelho.
- Sim, sim, eu olho.
- Vai ser a rainha desta Primavera.
- Tem a certeza?
- Já viu como combina com os seus olhos, o tom da pele.
- E serei a rainha desta Primavera?
- Claro. Não uma mera princesa, mas a mais bela rainha da Primavera.
- Então, não quero o chapéu.
- Não quer?
- Não. A Primavera passa depressa.

domingo, 20 de dezembro de 2020

Diálogos morais 53. Cala-te

David Seymour, One Child of a Large Family with a Homemade Doll, Vienna, Austria, 1948
- Estou zangada.
- És uma inútil, a quem tenho de transportar.
-
- Nem reages, és má, mesmo muito má.
- Não passas de um monte de trapos e serradura.
-
- Fala comigo!
- Quando preciso de falar com alguém, apareces tu, uma muda.
- Cala-te, não posso ouvir-te.
- Sempre falas.
- Não, mas oiço bem.
- Agora disseste palavras.
- Disse, mas isso não é falar. Cala-te e dorme.

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Diálogos morais 52. Visões

Richard Avedon, Elise Daniels, Turban by Paulette, Pré-Catalan, Paris, 1948
- Estás a ver?
- Estou, estou...
- Como é possível?
- Neste mundo, é de esperar tudo.
- Estás mesmo a ver? Não sejas condescendente.
- Estou a ver, podes crer.
- E não te indignas com aqueles ali, logo eles?
- Eles quem?
- O que estás a ver? Diz-me.
- O teu pescoço, a tua mão...
- Não é isso.
- Ah o resto só posso imaginar. Por enquanto.

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Diálogos morais 51. Não era a mesma coisa

Alejandro Mesonero, Conversación
- Sabes uma coisa?
- O quê?
- A filha da...
- Não me digas nada, soube ontem.
- Fiquei para não viver.
- Também não é motivo para tanto.
- A pobre da mãe.
- São coisas que acontecem.
- Agora, acontecem mais.
- É verdade.
- No nosso tempo, também havia quem.
- Pois havia, mas não era a mesma coisa.
- Não, claro que não. Hoje é tudo bem pior.

sábado, 14 de novembro de 2020

Diálogos morais 50. O princípio da felicidade

Walker Evans, Subway Passengers, New York, 1941
- Ainda não percebi o que te diverte.

- Não me estou a divertir.

- Não?

- Não.

- Esse ar de superioridade.

- Poupa-me, por favor.

- E quem me poupa a mim?

- Eu poupo-te, bem sabes.

- Bem sei? Sempre o mesmo sorriso cínico.

- Sempre os mesmos comentários idiotas.


quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Diálogos morais 49. O prémio

Bruce Davidson, Women with baby carriages. London, England, 1960
- Espera por mim.
- Despacha-te!
- Estou cansada. O carro e o bebé pesam.
- Poupa-me.
- Isto não é uma competição.
- Estás enganada.
- Estou?
- Como sempre.
- Se é uma competição, então qual é o prémio.
- Quanto mais depressa chegar... 
- Sim...
- mais depressa me vejo livre desta peste.

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Diálogos morais 48. O caminho

Paul Gauguin, Dos mujeres bretonas en un camino, 1894
- Aonde vais?
- Não faço ideia.
- Posso ir contigo?
- Sabes o caminho?
- Não.
- Nesse caso, podes vir.
- E se eu soubesse.
- Não poderias vir.
- Não?
- Seria o teu caminho, não o meu.

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Diálogos morais 47. O guia

Hans Baumgartner, Tarragona, España, 1968

- Se saísses de cima das minhas costas, não seria mau.
- Preciso de ver ao longe.
- Para quê?
- Para que não nos percamos no caminho.
- Para isso basta ele.
- Não me faças rir.
- Tu não ris, o mais que fazes é ganir.
- Seja, mas se achas que ele nos pode guiar, tenho pena de ti.
- Ele vai adiante e tomou a rédea da nossa caminhada.
- Que interessa que vá adiante, conheces algum homem que saiba para onde vai?