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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O Filho do Homem

René Magritte - O Filho do Homem (1964)

Naquele tempo, ao chegar à região de Cesareia de Filipe, Jesus fez a seguinte pergunta aos seus discípulos: «Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?» Eles responderam: «Uns dizem que é João Baptista; outros, que é Elias; e outros, que é Jeremias ou algum dos profetas.» Perguntou-lhes de novo: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» Tomando a palavra, Simão Pedro respondeu: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo.» Jesus disse-lhe em resposta: «És feliz, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que to revelou, mas o meu Pai que está no Céu. Também Eu te digo: Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Abismo nada poderão contra ela. Dar-te ei as chaves do Reino do Céu; tudo o que ligares na terra ficará ligado no Céu e tudo o que desligares na terra será desligado no Céu.» (Mateus 16,13-19) [Comentário de Bento XVI aqui]

O texto trata da instituição da Igreja, o momento em que Cristo coloca Simão como fundamento dessa Igreja. Esta acto instituinte, contudo, deve ser recolocado no contexto, e este é o de um inquérito. O Mestre interroga o seus discípulos, e interroga-os não sobre qualquer matéria de natureza teórica, sobre alguma coisa que eles pudessem saber pelo estudo, mas acerca da própria natureza do Mestre.

O inquérito não deixa de ser surpreendente e marcado por clara ambiguidade. A primeira questão interroga acerca da crença corrente na opinião pública. A ambiguidade está na expressão, corrente no Antigo e no Novo Testamentos, com que Cristo se designa a si mesmo, o Filho do Homem (ben Adam). Essa expressão, em hebraico e na cultura judaica, remete para a referência homem e desse modo a questão poderia ser reformulada da seguinte forma: “Quem dizem os homens que é o homem?”, o que permite perceber que a questão se dirige à essência do próprio homem. O que sabem os homens de si mesmos?

Os homens sabiam pouco, pois viam em Cristo um homem puramente particular, mas não aquilo que é essencial em todos os homens. Na verdade, não se reconheciam a si mesmos na figura do Mestre. A segunda parte do inquérito é dirigida aos discípulos, e Simão reconhece o Mestre. O que leva Cristo a tomar Simão como o alicerce da sua Igreja é o reconhecimento da profunda identidade entre o Filho do Homem (bem Adam) e o Filho do Deus Vivo. Este reconhecimento de Cristo por parte de Simão Pedro é, concomitantemente, o auto-reconhecimento de Pedro. Todo o homem é filho de Deus.

Os poderes conferidos a Pedro estão fundados no reconhecimento que tem da própria humanidade, da sua origem, no reconhecimento do modelo pelo qual todo o homem foi criado. Esse reconhecimento não nasce da carne e do sangue, isto é, não nasce de uma sabedoria exterior, não vem pelo estudo ou pelo ouvir dizer de uma tradição. O reconhecimento do Filho Homem nasce da vida interior, da revelação do Espírito. A afirmação da sacralidade da vida humana e a condição de possibilidade da afirmação da sua dignidade residem neste reconhecimento alicerçado na revelação. E é sobre estes alicerces que se funda uma nova comunidade, não uma comunidade natural, de natureza bio-social, mas uma comunidade espiritual e moral que, pelo reconhecimento do Filho do Homem, eleva os homens para lá da mera contingência da animalidade.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Na margem do discurso

Guillermo Pérez Villalta - O discurso da verdade (1978)

Naquele tempo, aglomerava-se uma grande multidão à volta de Jesus e Ele começou a dizer: «Esta geração é uma geração perversa; pede um sinal, mas não lhe será dado sinal algum, a não ser o de Jonas. Pois, assim como Jonas foi um sinal para os ninivitas, assim o será também o Filho do Homem para esta geração. A rainha do Sul há-de levantar-se, na altura do juízo, contra os homens desta geração e há-de condená-los, porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão; ora, aqui está quem é maior do que Salomão! Os ninivitas hão-de levantar-se, na altura do juízo, contra esta geração e hão-de condená-la, porque fizeram penitência ao ouvir a pregação de Jonas; ora, aqui está quem é maior do que Jonas.» (Lucas 11,29-32) [Comentário de Rafael Arnaiz Baron aqui]

O que haverá de reprovável em pedir um sinal? Não é natural que os homens peçam sinais como forma de provar uma pretensão ou confirmar uma alegação? Não será antes reprovável aceitar a palavra do outro apenas fundada no princípio de autoridade que esse outro se arroga, mas que é contestada pela multidão? Talvez fosse estranho já esse pretensão para os homens daqueles dias, mas para nós, homens educados nos princípios do Iluminismo, nada há de mais estranho que a pretensão de Cristo.

O texto dá duas pistas para resolver a questão. Salomão, o rei, foi reconhecido pela Rainha do Sul. Jonas, o profeta, foi reconhecido pelos habitantes de Nínive. Mas Aquele que se apresenta agora – e este agora é um eterno agora – não é reconhecido por ninguém, apesar da sua dignidade real ser maior que a de Salomão, apesar do seu dom de profecia ser maior que o de Jonas. A ausência de reconhecimento significa, neste contexto, que os que pedem um sinal quebraram um laço fundamental, esqueceram alguma coisa que deveriam reconhecer em cada hora. Tornaram-se estranhos, alienaram-se da sua própria natureza, perderam o contacto com a realidade.

O não reconhecimento do Outro é o arquétipo de todos os não reconhecimentos, o do não reconhecimento do próximo e o do não reconhecimento de si mesmo. Não há, porém, a recusa de um sinal, mas a proposição do mais surpreendente dos sinais, o sinal de Jonas, metáfora anunciadora da morte e ressurreição de Cristo, o novo sinal deixado aos que pedem sinais. O carácter surpreendente do sinal reside na sua inverosimilhança. Não é verosímil que aquele que foi engolido por uma baleia seja por ela cuspido com vida, não é verosímil que Aquele que vai morrer na cruz triunfe sobre o sepulcro.

Sobre a inverosimilhança deste sinal foi construída uma religião e edificada uma comunidade de fé que transporta o sinal de geração em geração. Mas o que contém esse sinal? O que sinaliza ele? Claramente, ele sinaliza a perversidade das gerações, a sua incapacidade de reconhecimento, a sua alienação, mas sinaliza a possibilidade de desalienação, a restauração da via do reconhecimento. O sinal, pela sua natureza paradoxal, faz lembrar um koan da tradição do Budismo Zen. Um sinal que ultrapassa a razão e que convoca o homem para a margem do discurso, muito para lá daquilo que as palavras podem dizer, como se o sinal fosse uma convocação ao viver, o que ultrapassaria infinitamente a dimensão cognitiva presente naqueles que exigem sinais.