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domingo, 18 de agosto de 2013

Palhaços por natureza

Albert Gleizes - Palhaço (1914)

Sempre que se usa de forma figurada o termo palhaço, esse uso toma uma coloração pejorativa. Chega-se a ver o epíteto como uma ofensa contra a honra. Esta recusa generalizada de se ser palhaço é sintoma de algo muito mais profundo do que parece. Na verdade, lidamos mal com aquilo que em nós é ridículo, risível, volúvel e distorcido. A cada momento compomos a máscara e afivelamos traços de dignidade que, como bem sabemos, estamos longe de poder ostentar. Finitos, frágeis e mortais, nós queremos esconder essa realidade que o palhaço, com os seus jogos burlescos e actos cómicos, torna evidente. O palhaço não é um artista, mas o espelho que devolve a nossa realidade material, a nossa natureza destituída de graça, a qual é insuportável para o orgulho da nossa razão.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Inocência e prudência

Thomas Gainsborough - Study of a Sheep (1755-57)

Envio-vos como ovelhas para o meio dos lobos. Sede, pois, prudentes como as serpentes e simples como as pombas. (Mateus, 10:16)

O texto de Mateus - um único versículo, na verdade - desenha uma complexa rede de analogias para, em última análise, retratar a situação do homem no mundo social e para lhe propor um determinado modo de acção que está, ao mesmo tempo, ligado a um modo de ser. O que é de imediato visível, porém, nessa rede de analogias é que "aqueles que são enviados" são analogados com animais (ovelha, serpente e pomba) e "aqueles para o meio dos quais os enviados são remetidos" são também comparados com um animal (o lobo). Com isso, o texto sublinha de imediato a nossa condição animal e é perante ela que ele se torna significante.

A relação entre ovelha e lobo, entre presa e predador, está fundada também na analogia. O "ser como" de toda a analogia introduz uma ambiguidade na definição que reflecte uma ambiguidade ontológica. Os homens são como ovelhas ou como lobos. Isso significa um estatuto aberto na natureza humana, significa que o homem é dotado de livre-arbítrio. Nem as ovelhas são definitivamente ovelhas nem os lobos têm o destino fechado na lupinidade. E é por isso que as ovelhas, libertadas do rebanho, são enviadas para o meio da alcateia. De certa forma, todos nós somos enviados para o meio da alcateia, essa é a nossa condição.

Ao exercício da predação não é contraposto o sacrifício da presa. Pelo contrário, o texto liberta o homem da praxis sacrificial e propõe como caminho a prudência (a palavra usada para prudentes é φρόνιμοι) e a simplicidade (o termo usado para simples é ἀκέραιοι). Desta maneira, é resgatada a razão prática da filosofia grega, ao mesmo tempo que, com a analogia com a serpente, se dá a ver o seu limite. A prudência pode ser um mero cálculo da serpente e, por isso, não é suficiente para que a ovelha enviada não se transforme em lobo. A prudência deve ser incrustada na simplicidade, na pureza, na inocência. O modo de agir - ser prudente - deve ter a sua raiz nesse tornar-se inocente, simples, puro.

No mundo social, perante o eterno jogo do predador e da presa, perante o ciclo da animalidade e a visão sacrificial da existência, Cristo propõe uma ruptura onde se combina uma natureza inocente - que se inocenta - e uma atitude prudente, um ser puro e uma razão prática dele dependente, como caminho para a instauração de uma comunidade verdadeiramente humana.

domingo, 23 de junho de 2013

O lugar da emoção

Ferdinand Hodler - Emoção (1894)

Encontrar o lugar da emoção será um momento essencial da viagem espiritual. Toda a emoção é uma alteração de uma certa ordem, uma desordenação. Se a razão nos traz uma ordenação do mundo e a desrazão a mais pura desordem, o essencial é encontrar na emoção o lugar onde ordem e desordem se encontram. A efectiva sabedoria joga-se não na razão mas na justa medida da emoção. A emoção deverá ser suficientemente viva para que faça cair a velha ordem do hábito e suficientemente moderada para que, evitando o caos das pulsões inconscientes e dos instintos, propulsione um novo passo para uma outra ordem do cosmos e do sujeito que caminha nesse cosmos.

sábado, 13 de abril de 2013

Razão e Revelação

Copista Anónimo de Rubens - Triunfo da Eucaristia sobre a Filosofia

A tentativa de assumir a teologia cristã no apriorismo filosófico tem que dar-se por fracassada. A filosofia retirou-se, novamente para a sua tarefa de ciência puramente racional, e também desistiu da ambição de transformar o conteúdo da Revelação cristã numa espécie de verdade necessária da razão. (Robert Spaemann, El rumor inmortal - La cuestión sobre Dios y la ilusión de la Modernidad, p.83)

Apesar da existência, nos círculos do cristianismo, de um pensamento que se expressa na arte do copista anónimo de Rubens, que representa o triunfo da Revelação sobre a razão, a verdade é que parte substancial do pensamento moderno, já para não falar no medieval, foi uma tentativa de conjugar as tradições originadas na razão e na Revelação cristã. Robert Spaemann sublinha-o, embora assinale o fim desse projecto ao reconhecer o fracasso da assimilação da teologia cristã pelo apriorismo filosófico e a desistência da intenção da filosofia de transformar o conteúdo da Revelação numa espécie de verdade da razão.

Poderemos perguntar sobre o que, em cada um dos projectos, resiste ao outro. Do ponto de vista da razão, a natureza dogmática da religião revelada parece ser, apesar de uma longa convivência, um obstáculo instransponível. Por seu turno, o carácter crítico da razão parece tornar o princípio de autoridade em que se funda o cristianismo inassimilável pela razão crítica. No entanto, há que questionar a impossibilidade desse projecto de aproximação e de fusão entre razão e Revelação.

Algumas notas sobre essa possibilidade de aproximação que parece ter caído em desuso. Em primeiro lugar, o carácter débil ou frágil da razão autónoma e crítica. A autonomia da razão descoberta pelos gregos e tornada elemento estrutural do pensamento moderno e contemporâneo não foi outra coisa senão um processo de mitificação da razão, que emerge assim como uma potência e princípio de autoridade, de que não se percebe a proveniência nem o fundamento. 

Em segundo lugar, o carácter crítico da razão, pelo qual se rejeita o dogma e a autoridade, não apenas está fundado nessa natureza mítica acima referida, como se funda ele próprio num elemento dogmático, devido à origem e natureza da crítica. Esta deriva de krísis (κρίσις) que significa disputa e julgamento, mas também sentença, decisão, determinação. O elemento dogmático é dado pelo facto da sentença ou decisão terem de se apoiar numa norma a priori não sujeita à crítica.

Em terceiro lugar, se o conceito de dogma remete para uma autoridade, ele contém em si, na arqueologia semântica que proporciona, elementos de dúvida que implicam uma tomada de decisão, o que, surpreendentemente, aproximam o conceito de dogma e de crítica mais do que seria imaginável.

Por fim, convém chamar a atenção, e a leitura dos textos evangélicos é muito susgestiva, para a natureza crítica da Revelação. A Revelação da divindade de Cristo é dada, muitas e muitas vezes, no âmbito de uma crítica do comportamento social e moral e também das ilusões que se têm acerca do mundano. É o próprio Cristo que, no Evangelho de João, é identificado como o Logos divino. A palavra logos que é traduzida por verbo, significa razão uma Razão divina.

Talvez o processo de aproximação entre as duas bases fundamentais da cultura ocidental ainda tenha um destino e uma possibilidade de realização, apesar do ambiente hostil que esse projecto, certamente, encontrará nos dias e hoje.

quinta-feira, 14 de março de 2013

As condições da escuta

Francisco de Goya - No saben el camino

Naquele tempo, disse Jesus aos judeus: «Se Eu testemunhasse a favor de mim próprio, o meu testemunho não teria valor; há outro que testemunha em favor de mim, e Eu sei que o seu testemunho, favorável a mim, é verdadeiro. Vós enviastes mensageiros a João, e ele deu testemunho da verdade. Não é, porém, de um homem que Eu recebo testemunho, mas digo-vos isto para vos salvardes. João era uma lâmpada ardente e luminosa, e vós, por um instante, quisestes alegrar-vos com a sua luz. Mas tenho a meu favor um testemunho maior que o de João, pois as obras que o Pai me confiou para levar a cabo, essas mesmas obras que Eu faço, dão testemunho de que o Pai me enviou. E o Pai que me enviou mantém o seu testemunho a meu favor. Nunca ouvistes a sua voz, nem vistes o seu rosto, nem a sua palavra permanece em vós, visto não crerdes neste que Ele enviou. Investigai as Escrituras, dado que julgais ter nelas a vida eterna: são elas que dão testemunho a meu favor. Vós, porém, não quereis vir a mim, para terdes a vida! Eu não ando à procura de receber glória dos homens; a vós já vos conheço, e sei que não há em vós o amor de Deus. Eu vim em nome de meu Pai, e vós não me recebeis; se outro viesse em seu próprio nome, a esse já o receberíeis. Como vos é possível acreditar, se andais à procura da glória uns dos outros, e não procurais a glória que vem do Deus único? Não penseis que Eu vos vou acusar diante do Pai; há quem vos acuse: é Moisés, em quem continuais a pôr a vossa esperança. De facto, se acreditásseis em Moisés, talvez acreditásseis em mim, porque ele escreveu a meu respeito. Mas, se vós não acreditais nos seus escritos, como haveis de acreditar nas minhas palavras?» (João 5,31-47) [Comentário do Concílio Vaticano II aqui]

Quais as condições subjectivas da recepção da palavra? O que é pertinente notar neste excerto de João é que a grande inimiga da recepção da palavra, da escuta do testemunho, não é a razão crítica mas a vaidade centrada na busca da glória humana. De certa maneira, o texto remete mesmo para uma certa razão crítica que desconstrói as expectativas puramente humanas. Entre o absoluto e o relativo, os homens escolhem o relativo. Entre o infinito e o finito, os homens escolhem o finito. E é a relatividade e a finitude que são elevadas à glória e, dessa forma, se transformam em ídolos, poder-se-ia dizer em ídolos da praça pública.

A recepção da palavra e a audição do testemunho exigem essa distinção crítica entre o relativo e o absoluto, o finito e o infinito, o particular e o universal. A dinâmica crítica que permite compreender aquilo que é essencial não depende, todavia, de um mero exercício lógico efectuado por uma  razão desencarnada. Pelo contrário, a condição de possibilidade do uso da razão crítica reside no amor. É a cegueira do coração que torna a razão fria e impotente, reduzindo-a à esfera do cálculo de oportunidades, tornando-a dependente da egolatria.

As  condições subjectivas da recepção da palavra tornam-se, neste texto de João, bastante claras. Uma razão, com a sua natureza crítica, fundada no amor. Mas este amor não é um mero sentimento subjectivo, a emanação de uma afectividade mais ou menos desregulada, mas um amor absoluto (não há em vós o amor de Deus) que é apenas a operatividade essencial de Deus no seu compromisso com o mundo e os homens. Um amor que convoca coração e razão como os poderes que, ao escutar a convocação, põe o homem a caminho.

domingo, 13 de janeiro de 2013

A etapa geométrica

Benjamín Palencia - Paisaje (1932)

As paisagens cubistas representam um momento importante na vida do espírito. Ao tornar a sensibilidade geométrica, o cubismo permite que esta encontre um caminho para a razão. Não é, todavia, a racionalidade que é a questão importante, mas o processo de desmaterizalição da representação do mundo físico, a espiritualização das sensações, a abertura para lá daquilo que os sentidos nos trazem. O mundo geométrico é um mundo purificado, um universo que perdeu a ganga da matéria e começa a perder os contornos das sensações, que num primeiro momento se tornam mais agrestes. São, contudo, já pura racionalidade, prontas a dissolverem-se numa experiência de luz e fluidez que a matéria sensível nunca permitirá.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Do espírito imaturo

Theo van Doesburg - Counter-Composition VI (1925)

Há um momento na vida que buscamos caminhos claros, marcados por linhas rectas, um exercício de geometria prática. Nessa altura, animados pela razão e pelo seu desprezo pelo sinuoso, julgamo-nos maduros e na via da verdade. Em breve, porém, se descobre que a razão geométrica não passa de um exercício adolescente, o sintoma de uma imaturidade do espírito. As curvas de um rio, os desenhos sinuosos feitos pelo vento nas areias do deserto, o horizonte incerto das montanhas escarpadas simbolizam mais eficazmente a via que espera o viandante. A geometria, a clareza e a distinção, a pura diferenciação do branco e do negro são ainda um armadilha, o exercício de uma sedução a que o espírito, na sua imaturidade, com agrado cede.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Paisagens espectrais

Carlo Carra - Depois do pôr do sol (1926)

Há um momento na história do Ocidente em que, libertando-se de Deus, os homens colocaram na razão toda a sua fé e toda a sua esperança. Em muitos aspectos, a razão não desiludiu os homens e pagou-lhes com abundante generosidade o culto que lhe foi prestado. Onde, porém, os homens mais necessitavam dessa razão, ela foi impotente para os satisfazer. Libertos das narrativas teológicas e dos símbolos ambíguos que um dia tinham dado direcção à vida, esperavam que a razão lhes desse uma orientação e um sentido. Ela multiplicou-se em propostas, programas e projectos, mas o esforço redundou sempre em algo risível. Hoje, apesar do intelecto calculador e científico parecer estar instalado em terra firme, a razão é um astro declinante. Na verdade, ela é um sol que se pôs e a luz que emite tem o condão de transformar tudo numa paisagem espectral e habitada por fantasmas. Para além da submissão ao trabalho, aos interesses dos mercados e à vida material, a razão, na sua autonomia, nada mais tem para propor, a quem nela tanto confiou, do que o vazio do espírito.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Para além da razão, a sabedoria

George Wesley Bellows - Dance in a Madhouse (1917)

Olhar para a vida mundana colocando-nos fora dela é uma experiência que pode desenhar o seu campo de sentido na metáfora do baile num manicómio. Não nos iludamos, porém. O valor metafórico e semântico da expressão não reside no facto de as pessoas que dançam pertencerem a um universo onde a razão está suspensa. O valor da expressão está no facto de haver ainda uma racionalidade apesar daqueles que dançam terem a sua afectada ou suspensa. O baile é um véu de racionalidade depositado sobre  - e nascido de - um universo composto por elementos não racionais.

O manicómio, contudo, é apenas uma figura do mundo da vida quotidiana, um outro exemplo da velha caverna platónica. E nesse mundo quotidiano cada ser humano, por mais racional que se julgue e sinta, não é diferente daquele que, no manicómio, dança. E a razão, esse poder que incensamos como se de um deus se tratasse, não é outra coisa do que o véu tecido pelos movimentos não racionais - nem razoáveis - de todos nós. A razão não é um a priori, mas um a posteriori, uma resultante. E é por isso que ela contém a terrível possibilidade das maiores insanidades.

O caminho da sabedoria começa quando se percebe que há que deixar a razão para trás. Enquanto o homem estiver preso na sedução da razão, ficará fechado na alternativa - falsa alternativa, aliás - entre razão e desrazão. O espírito não é a razão. Esta é discursiva e raciocinadora, implica a temporalidade. Aquele é intuitiva e nasce da suspensão do tempo. A sabedoria é a pura presença em cada momento, a atenção ao enigma do acontecer, o estar para além da alternativa razão-desrazão. Na tradição católica, esta pura atenção ao acontecer tem um nome específico: fé. Ser fiel significa, então, estar presente à realidade, suspender a distracção contida nas considerações da razão, incluindo as que resultam da da razão como suporte da crença em Deus. Esta não passa de uma crença numa ideia projectada pela razão sobre o diverso e irracional da experiência humana. A sabedoria nasce quando se abre mão de tudo isso.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

A experiência da Verdade

Kiss of Judas Iscariot, anonymus of the 12th century, Uffizi Gallery, Florence


O Filho do Homem segue o seu caminho, como está escrito acerca dele; mas ai daquele por quem o Filho do Homem vai ser entregue. Seria melhor para esse homem não ter nascido. (Mt 26:24)

Esta passagem do Evangelho de Mateus coloca um problema de difícil solução, a aporia do livre-arbítrio. A escritura determina o caminho do Filho do Homem, o seu destino: o ser entregue. Esta determinação choca com a pressuposição do livre-arbítrio daquele que O vai entregar. A pena, em forma de ameaça, subjacente à frase "Seria melhor para esse homem não ter nascido" só é compreensível no âmbito da liberdade da vontade. Como conjugar a determinação do destino de Cristo com o livre-arbítrio de Judas Iscariotes? Se este fosse efectivamente livre a entrega do Filho do Homem era meramente ocasional, dependente da liberdade da vontade de Judas. A salvação seria meramente contingente e não decorreria de uma necessidade lógica da história da salvação.

O problema surge da tentativa de interpretar racionalmente o versículo, de submetê-lo à lógica apofântica, onde os juízos devem obedecer aos princípios lógicos da identidade e da não-contradição. O horizonte do nosso entendimento permite perceber a indeterminação quântica, o determinismo presente na física clássica e o livre-arbítrio do agir humano. Estes três estratos do real não são, para o nosso entendimento, incompatíveis. A grande dificuldade sentida reside na compatibilização da sobredeterminação providencial (aquela que determina, segundo a escritura, a entrega do Filho do Homem) e a liberdade humana.

Se dermos um passo para fora da tradição ocidental talvez possamos encontrar um caminho de resposta. Para o Budismo-Zen um koan é uma pequena narrativa ou, mesmo, uma simples questão que, à luz da razão, é impossível de compreender. A resposta racional é sintoma de uma mente não iluminada. Os koans são dados, pelos mestres, aos discípulos como caminho de meditação cuja finalidade é a iluminação. A verdade não é dada pela razão mas pelo transcender dos limites desta. Ora o versículo de Mateus constitui um verdadeiro koan. Isto não significa qualquer tipo de influência de uma tradição sobre a outra. Significa apenas que há algo no cristianismo que não se dirige à nossa razão, a não ser de forma secundária. Esse algo apresenta-se como um caminho de meditação. Esta não significa encontrar uma explicação racional para a aporia, mas fazer a experiência da verdade que ali se revela e, ao mesmo tempo, se oculta. A verdade de Cristo e do cristianismo será menos a verdade de proposições lógicas e mais a verdade de uma experiência existencial. Não disse Ele que era a verdade, a via e a vida?

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Vertigem

Esta indecisão que de tudo se apodera, esta sombra que cai sobre os dias, esta neblina que se cerra sobre o olhar. Como é sombria a luz natural da razão. Estranho lugar é o do homem, a meio caminho entre terra e céu. Os olhos erguem-se para o alto, mas o corpo submete-o à lei da gravidade. A vertigem que de mim se apodera não é mais que a luta entre duas naturezas que há muito perderam a harmonia. Como pode a razão iluminar aquilo que os deuses obscurecem?

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Um espectáculo odioso


A miserável morte de Muammar Kadhafi, mais uma das execuções, pela plebe em delírio, de inúmeros ditadores mais ou menos odiosos, a que tenho assistido ao longo da minha vida, deixa-me, como sempre, um traço de amargura no fundo do coração. Compreendo que numa cultura fundada na lei de talião se possa comemorar com exuberância este tipo de acontecimentos. Mas a minha consciência de ocidental, mesmo que o Ocidente tenha cometido inúmeras atrocidades, sente uma veemente repulsa por estas iniquidades. São duas as fontes culturais da minha repulsa. Por um lado, a ética da justa medida aprendida com os gregos. A justa medida, interpretada nos nossos dias, significa a sensatez da pena, a racionalidade de um processo jurídico a que o réu deve ser submetido, mesmo que ele nunca o tenha permitido aos seus adversários. Mas a lei da razão herdada dos gregos, na cultura Ocidental, foi enriquecida pelo convívio com a grande novidade cristã, o perdão do inimigo, a lei do amor como princípio fundamental das condutas individuais. Este é o núcleo duro dos valores éticos fundamentais do Ocidente. É este núcleo que deve ser cultivado quotidianamente, mesmo, ou ainda mais, numa sociedade que, como a nossa, está a perder o norte. A razoabilidade aristotélica e o sacrifício do Cristo são o suficiente para tudo julgar, condenar e perdoar. O perdão não significa a eliminação da pena, mas a sua razoabilidade e a sua limitação, de forma a que a pena não seja um acto de vingança. Kadhafi tinha direito àquilo que terá negado a muitos, a ser julgado por um tribunal independente, num processo justo.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

A outra floresta

(imagem retirada de a trama)

A floresta é, também, a metáfora do labirinto. Melhor, floresta e labirinto acabam, de forma metafórica, por se interdesignarem, sendo possível utilizar qualquer um dos termos para denotar a referência do outro. Sendo a floresta, tradicionalmente, o produto espontâneo da natureza (embora, há muito isso não seja assim) e o labirinto uma construção humana, o que permite o transporte de uma designação para a referência habitualmente denotada pelo o outro termo é a ideia de caminho. São os caminhos que não são claros, a que falta uma certa luz racional. Os caminhos que atravessam a floresta ou que compõem o labirinto não se deixam iluminar pelo cálculo ou outro tipo de operações do entendimento. Um outro operar do espírito é necessário para encontrar o caminho e persistir nele, seja na floresta ou no labirinto.

Se tomarmos, por outro lado, o labirinto como termo da mediação, sem dificuldade se pode estabelecer conexão entre a floresta e os seus caminhos que conduzem a lado algum e o mundo social em que os seres humanos, apesar da racionalidade com que cada um traça o caminho dos seus interesses (embora esta visão liberal da existência seja puramente utópica),  acabam por andar à deriva e se tornam uma espécie em contínua errância. De facto, o lebenswelt, tomado na sua globalidade, não deixa de ser uma verdadeira floresta, cujos caminhos só na aparência podem ser percorridos segundo a luz da razão. A dificuldade do viandante é suspender o uso da bússola sem perder a orientação ou, dito de outro modo, suspender o uso da razão sem se tornar irracional.