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sábado, 1 de fevereiro de 2014

Liberdade condicional

Ivonne Sánchez Barea - Liberdade condicional (2000)

De certa maneira, o que relativiza já a afirmação, a velha discussão sobre se o homem possui livre-arbítrio ou é completamente determinado na sua acção é ociosa. Talvez seja mais sensato pensar o homem sob a figura da liberdade condicional. Como a liberdade condicional de um condenado, também a liberdade condicional de cada homem pode, a qualquer instante, ser revogada. Não por um qualquer juiz exterior, mas por si mesmo, pela submissão àquilo que, pelo ardil do desejo, o prende. Se a nossa liberdade é sempre condicional, o caminho do homem na Terra é um infinito processo de libertação.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Árvores no inverno

Alex Katz- A Tree in Winter (1988)

Uma e depois outra, e outra, mais outra ainda, num processo sem fim. Quantas vidas - e nós só temos uma - precisamos para aprendermos com as árvores no inverno? Deixar cair folha a folha, despir-se de cada uma das máscaras, das ilusões, de cada desejo, deixando o vento levá-los para longe. Em vez de acumular folhas, certas árvores abandonam-nas e entram na casa da morte, de onde regressam triunfantes. De quantas vidas precisamos para sermos como as árvores no inverno?

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Do caminho e da viagem

Wassily Kandinsky - À volta da linha (1943)

Talvez a viagem que cabe fazer a cada um de nós seja sempre por uma linha recta. Isso significaria que teríamos o dever de a fazer o mais rapidamente possível. Porém, à volta da linha amontoam-se os objectos, as solicitações, as miragens, tudo aquilo que desvia o desejo e torna o caminho perigoso e lento, tão lento que uma vida generosa em anos não chega para o percorrer e consumar a viagem.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

A casa do desespero

Brull Carreras - Desierto de Atacama

O deserto é a casa do desespero. E o desespero, hoje em dia, está por todo o lado. Não vamos pensar, contudo, que a nossa solidão interior consiste na aceitação da derrota. Não podemos escapar de seja do que for por consentir tacitamente em sermos derrotados. O desespero é um abismo sem fundo. (Thomas Merton, Thoughts in Solitude)

Devemos pensar que a relação do homem com o deserto, com o vazio, pode ter uma dupla natureza. O vazio pode ser sentido como a casa do desespero, de um desespero que nasce da multiplicidade dos desejos frustrados, das ilusões desfeitas, da errância onde nos perdemos. Mas o vazio interior - a pobreza de espírito - pode ser o lugar da esperança. Esperança que nasce ao libertarmo-nos de tudo o que é ilusório, irreal e, na verdade, irrelevante. Este vazio é aquele que tem o poder de transformar em lugar de esperança aquilo que a vida contemporânea tem o condão de tornar em casa de desespero.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Tornar-se completo

Edouard Manet - Cristo escarnecido por dois soldados (1865)

Jesus respondeu: «Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me. (Mateus 19:21)

A resposta dada poderia e - deveria -, no seu início, ser traduzida por Se desejas ser completo no lugar de Se queres ser perfeito. A opção por Se queres acentua uma dimensão da razão prática, onde o que é sublinhado é a vontade racional, enquanto a opção por Se desejas (Se estás inclinado) acentua uma dimensão mais funda, enraizada no que há de mais essencial e mais vital em cada ser humano.  Também é preferível traduzir  τέλειος por completo e não por perfeito. Na verdade, são sinónimos, mas no uso corrente da língua portuguesa, completo torna mais acessível o que está em jogo. A resposta de Cristo não deixa de ser surpreendente. Um jovem questiona-o sobre o que fazer para atingir a vida eterna, e ele responde antepondo ao que deve fazer a seguinte condição para a acção: Se desejas ser completo.

O que está em jogo, então, é a realização da completude de si-mesmo. Como é que eu me torno efectivamente naquilo que sou? Que fazer se desejo essa completude? Se eu quiser ser completo, se for esse o desejo radical do meu ser, então encontro uma dupla prescrição dada num movimento de ir e vir. Devo ir para me despojar do que tenho mas não sou. Os bens não são apenas a propriedade material, mas aquilo que eu posso dizer que é meu, pois na possessão o eu já está submetido ao que possui. Este é o momento da emancipação do homem daquilo que lhe é estranho. Este ir que conduz à desapropriação só tem sentido pelo vir subsequente; vem e segue-me. Se desejo ser completo, então devo ir para me despir do que é inútil e devo vir para seguir o Cristo que em mim me chama à completude, isto é, a seguir o seu caminho, a tornar-me nele. Quem é esse Cristo que assim responde? É esse Eu que, sendo já completo, se torna completo nesse movimento de ir e vir.

sábado, 3 de agosto de 2013

A ordem do desejo

Gustavo de Maeztu - A ordem (1918-1919)

No século passado, porventura devido à crescente influência de Nietzsche e ao prestígio da psicanálise inventada por Freud, emergiu a polémica sobre o desejo, se este era carência, falta, ou se, pelo contrário, excesso. Platão foi muitas vezes - e ainda o será - apontado como o pensador do desejo enquanto carência. Nessa carência pensa-se o mundo sensível em que habitamos como imperfeito, marcado pela falta presente em tudo o que é finito e limitado. Seria essa imperfeição do mundo que levava Platão a ficcionalizar o Mundo das Ideias, perfeito e imutável, objecto do desejo de todos aqueles que se dedicam à filosofia.

Esta leitura de Platão acaba por não dar conta da real dimensão da ordem do desejo que se expressa no platonismo. A ordem do desejo é balanceada entre o momento da carência e o momento do excesso. A carência de perfeição do mundo sensível que é o nosso e o excesso que se manifesta na ficcionalização desse mundo inteligível perfeito e imutável. Ficcionalizar o além, instaurar uma ordem metafísica, não é, ao contrário do que pensou Nietzsche, caluniar o real, depreciá-lo, mas encontrar a sua completude, tal como ela se manifesta na ordem desejante.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Da dinâmica do desejo

Max Pechstein - Três nus numa paisagem (1912)

Os objectos mundanos que solicitam o nosso desejo têm uma dupla característica. Inscrevem-se sempre numa dada paisagem, que pode atenuar ou intensificar, por vezes até ao paroxismo, o desejo. São múltiplos e, desse modo, estilhaçam a intencionalidade do desejo, solicitado por múltiplos focos desejáveis. Descobrimos assim que, devido à inscrição numa paisagem, não há, no nosso estar no mundo, um desejo puro, mas sempre um desejo revestido pela ambiência. Descobrimos ainda que a multiplicidade dos objectos desejáveis fragmenta o desejo e cinde a vontade. Impuro e fragmentário, o desejo abre em nós uma brecha que a vida parece incapaz de cerzir.

domingo, 30 de junho de 2013

O olhar retrospectivo

René Magritte - El maestro de escuela (1954)

Disse-lhe ainda outro: «Eu vou seguir-te, Senhor, mas primeiro permite que me despeça da minha família.» Jesus respondeu-lhe: «Quem olha para trás, depois de deitar a mão ao arado, não está apto para o Reino de Deus.» (Lucas 9:61-62)

Há dias, no contexto do Antigo Testamento e a propósito da mulher de Lot, abordou-se aqui a questão do olhar retrospectivo. Com estes versículos do evangelho de Lucas, mas também com os que os antecedem, retorna-se à punição do olhar para trás. A questão é introduzida pelo desejo de se despedir da família ou, noutras traduções, dos que que estão em sua casa. Esta indicação é preciosa, pois permite alargar o grau de compreensão  da resposta dada. Naquele que quer despedir-se da família ainda permanece um desejo do que é familiar, daquilo que pertence ao reino do habitual, à forma convencional de ser, de estar e de olhar o mundo. Não se trata de uma crítica à família, mas de tornar claro que a via proposta (o Reino de Deus) não está no hábito, não está naquilo que se tornou  familiar para a consciência. Ela não é uma convenção mas uma efectiva aventura.

Olhar para trás é o sinal de pertença a este mundo, que a sua imagem ainda move o desejo e o coração, que ainda não se está perante uma consciência pura e uma vontade liberta das seduções que o familiar traz consigo. O uso da metafórica agrícola - deitar a mão ao arado - é de uma grande precisão. Olhar para trás quando o arado sulca a terra implica o enviesamento, o sulco deixa de ser um recto caminho para passar a ser o fruto da distracção e do acaso. Quem olha para trás não vê aquilo que à frente chama por si. Naquele que diz que quer seguir o Senhor e, ao mesmo tempo, deseja olhar para trás, nesse, o coração ainda está dividido entre a segurança do familiar e a incerteza e a aventura de penetrar no não familiar, no inabitual. Todo o olhar retrospectivo é uma confissão de uma vontade que ainda não abriu mão daquilo que a seduz, que ainda não está pronta para o caminho.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Da fonte do amor

Jean Delville - L'amour des âmes (1900)

Na história da humanidade sempre o amor foi sentido como um excesso, não um excesso da natureza, mas um excesso que ultrapassa a natureza, como se esta, em si mesma, fosse incapaz de dotar os corpos de tão sublime sentimento. Um corpo é desejável. No entanto, o desejo é incapaz de explicar o amor, de explicar precisamente o amor que sinto por quem está num dado corpo. É nesta impotência da explicação empírica que o homem compreende que uma outra coisa é necessária para que o amor possa nascer. Esse lugar amoroso é a própria alma e todo o amor tem na alma a sua fonte. Duas almas amam-se e, de súbito, o desejo dos corpos é mais do que um desejo, é uma luz que cai sobre eles e, ao nimbá-los, torna-os sublimes.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

O desejo fragmentado

Kurt Schwitters - Los Angeles (1943)

Será a realidade uma colagem de fragmentos ou a sua imagem fragmentada resulta das múltiplas intencionalidades do nosso desejo? Relativos e finitos, suportamos o peso de uma faculdade de desejar sem limites. Coisas, objectos, uma paisagem, por vezes o sorriso outras um olhar, depois o toque de uma pele, para chegar a vez de um sonho ou de uma ilusão, tudo isto entra por nós, revolve-nos, cria uma dinâmica, estabelece um desequilíbrio no sistema hidráulico que nos liga ao mundo. Cindidos, fracturados, num mundo em estilhaços, desejamos o Absoluto, esse exercício de libertação das tiranias da relatividade. Este, porém, não desarma e sussurra: descobre-me em cada fragmento, naquele olhar que amaste, na pele que desejaste, no objecto que te fez sonhar, na dor a que fugiste. Estou aí, estou em cada lugar onde o mundo se estilhaça e decompõe, sou o ser em tudo o que deixa de ser, o desejável de cada desejo. Sou o teu desejo e a coisa desejada, sou a intenção desejosa e o prazer consumado.

terça-feira, 17 de abril de 2012

O ar da montanha


Demasiado puro o ar da montanha. Esquecido, quantas vezes o viandante passa ao lado do que é essencial. Essa lateralização da vida nem se deve aos deveres que a existência impõe, mas às expectativas que nascem no espírito, essas pequenas e grandes tiranias do desejo. Vivemos numa cultura que incensa o desejo e perdemos a sabedoria de olhar para o que desejamos, de olhar para a nossa faculdade de desejar. Contrariamente ao que o espírito deste tempo supõe e impõe, raramente o desejo nos atira para a montanha, para o ar puro e o céu azul. Numa época onde a única diferenciação que se conhece é a social, não se aprende a distinguir entre desejos, a hierarquizá-los, a eliminar muitos para que se possam cultivar alguns, aqueles que exigem a pureza de espírito, a nobreza de alma, a coragem da abdicação. Mas só o espírito puro e a alma nobre suportam, sob o céu azul, o ar puro e rarefeito da montanha.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Faça-se a Vossa Vontade!

Salvador Dali

Faça-se a Vossa Vontade! Aqui enuncia-se a máxima suprema do cristianismo, a mesma que conduziu Cristo à cruz. Há, contudo, um elemento perturbante nessa enunciação. Quanto nessa enunciação exprime a nossa própria vontade ou, melhor, o nosso desejo que a Vontade de Deus corrobore a nossa própria vontade, que seja um amparo e um legitimador do nosso egoísmo? Mesmo quando a enunciação é feita a posteriori, quando algo contrariou tragicamente o nosso desejo, não estamos ainda perante a enunciação de um desejo de apaziguamento da dor? Os seres humanos são seres desejantes e a sua vontade é inclinada radicalmente pela pluralidade dos seus desejos particulares e egoístas. O escândalo do cristianismo não reside na ideia exterior de que o Filho de Deus morreu na cruz pela salvação dos homens. O escândalo do cristianismo está todo nessa proposta de uma radical crucificação da vontade própria, inclusive dessa vontade que, ao tomar voz, diz: Faça-se a Vossa Vontade. Essa aprendizagem da morte é o desafio mais extraordinário que o cristianismo faz aos homens. Ela significa a extinção do desejo para que algo, nessa morte do ser desejante, se manifeste. Não um outro tipo de desejo, mas um outro tipo de vida. A vida desejante é uma vida cujo centro reside na experiência de finitude e de incompletude. A outra vida surge, no cristianismo, como promessa de Vida plena que, quase de um modo dialéctico, realiza o desejo pela sua morte, pela sua crucificação.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Da Vontade e da vontade própria


Aquele que quer começar uma nova vida ou uma actividade deve ir ao seu Deus e pedir-Lhe, com muito fervor e um completo recolhimento, para regular tudo pelo melhor, tudo ao Seu gosto e como Ele o julgue mais digno; não deve nem querer nem procurar o seu próprio bem, mas unicamente a santa vontade de Deus, mais nada. E seja o que for que Deus então lhe envie, deve aceitá-lo como vindo directamente de Deus, compreendê-lo como o que melhor lhe pode acontecer e ficar inteira e absolutamente satisfeito com isso. (Maitre Eckhart, Entretiens Spirituels, XXII)

O essencial da via reside nesta atitude de total e completa confiança nos desígnios de Deus. Essa confiança, porém, significa o abandono de toda a vontade própria, a morte dessa vontade, e a pura aceitação do provir como palavra e vontade divinas. Este tipo de acção contemplativa, de uma acção que não espera senão o que a Vontade lhe envia é o mais elevado grau de acção. A dificuldade reside, contudo, na erradicação da vontade própria, de uma vontade fundada no medo e no desejo.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Do medo e do desejo


(Imagem daqui)

O medo e o desejo são dois grandes obstáculos à vida do espírito. O medo conduz, muitas vezes, à fuga do mundo, ao retirar-se para um lugar especial onde não se possa, imaginariamente, ser atingido pela torrente da vida, a qual contém em si a própria morte. Temer o outro, o estranho, a exuberância da natureza, as ameaças da tecnologia. São múltiplas as figuras que parecem fundar o medo. Por seu turno, o desejo lança-nos sobre os seus objectos, incentiva a voracidade, o projecto de captura e de dominação da coisa ou da pessoa desejada. Entre o medo e o desejo, o espírito vive aterrorizado pelo fascínio que estas experiências exercem sobre ele. Ora o medo e o desejo contaminam a vida e a realidade com estas projecções da subjectividade, deformam-nas e tornam-nas uma cadeia que se abate inexoravelmente sobre a pessoa. A vida espiritual lida fundamentalmente com este medo e este desejo. Não se trata de eliminar o medo ou o desejo. Trata-se de os reconhecer naquilo que são e de reconhecer como eles pervertem a nossa relação com o mundo e os outros. Na religião, não se trata do medo da condenação eterna nem do desejo do paraíso, mas de fazer a experiência de religação com o absoluto, de  aproximação contínua à realidade tal como ela é, tal como ela nos solicita. Trata-se de uma atenção permanente à epifania do ser que se realiza a cada instante e da qual o nosso medo e o nosso desejo conduzem ou à fuga ou à tentativa de dominação.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O limite de mim

Por vezes sonho um corpo apenas para o poder desejar, e no desejo daquela pele ou de um olhar, saber-me na verdade do meu ser. À beira da falência, já sem margem ou âncora, o desejo do outro envia-me o limite de mim. Pudera eu perder-me ali e mais perto de me encontrar, ou de Te encontrar, talvez estivesse.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Seja feita a Vossa vontade

Seja feita a Vossa vontade. Mas quando ela vem sobre nós tão contrária ao desejo que nos habita, como pode ser tão pesada? É preciso que a Tua vontade seja feita, pois a nossa não é mais do que vontade corrompida. Mas esta corrupção é difícil de aceitar, de compreender, de avaliar segundo um mérito que não está aferido pelos nossos padrões. Agora que as circunstância manifestaram um querer que eu não quero, eu escuto "seja feita a Vossa vontade". Um silêncio dorido abre-se e uma luta entre vontades toma conta de mim.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

O devaneio de uma sombra

Mergulhar em si mesmo e esquecer-se de si. Procurar a vida do espírito não é procurar a satisfação dos seus desejos, nem encontrar um caminho para ultrapassar as suas frustrações, ou para realizar o não realizado dos seus projectos. Mergulhar em si para ver os seus desejos, as suas frustrações, os seus projectos como aquilo que eles são: um devaneio de uma sombra. Quem dará importância ao devaneio de uma sombra? Ao aceitar o devaneio enquanto devaneio, poder-se-á ir mais além no caminho, agora mais substancial.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

O mistério do amor

O mistério do amor. Não me refiro ao amor divino, mas ao amor humano, ao amor erótico. O amor divino é uma metáfora humana, demasiado humana, para dar a pensar e a viver a atracção que o espírito sente pela fonte da existência. Mas esta metafórica tem o condão de ocultar a dificuldade de se permanecer perante o próprio amor humano, daquele que serve de termo comparativo para sustentar a metáfora do amor divino. O facto é que há uma obscuridade a envolver o próprio amor humano, como se o amor erótico fosse uma metáfora assente num termo comparativo desconhecido. Quase poderíamos dizer que o amor humano é mais misterioso que o divino. Se quisermos falar da experiência erótica, apenas a dimensão equívoca da metáfora permite o discurso. Um discurso puramente denotativo sobre eros é de tal insipidez que não há amante que nele se reconheça. A presença de um corpo a outro, o jogo dos sentidos, a tensão do desejo, a desordem dos corpos, o fluir hormonal, a atracção dos espíritos, todos esses movimentos que a Física, a Química, a Biologia, a Anatomia e a Psicologia podem descrever, são enquanto tais insignificantes. A sua significância emerge através do poder evocador da palavra, e a palavra só é evocadora se ela se desconvoca da denotação e aceita o desafio de dizer o não dito, o inédito, o não dizível. Dizer o não-dizível, uma impossibilidade lógica, é a face discursiva do jogo erótico, também ele habitado no seu cerne por uma impossibilidade. É este não-possível que é a sua condição de possibilidade. Só o impossível torna possível o amor. A questão remanescente será: mas que impossível é este?

sexta-feira, 29 de maio de 2009

O inútil protesto

Agir e não desejar o fruto da acção, fazer o que deve ser feito e não esperar recompensa, quebrar a lógica do dom. Doar mas sem expectativa de receber, sem protesto pela ausência de reconhecimento. Entregar tudo nas mãos daquele que tudo superintende, mesmo se Ele não se move, não planeia, não espera. Quem está no mundo deve agir, mas deve agir como se contemplasse, como se não agisse. Mas será o viandante capaz de tal entrega? Quantos protesto inúteis contra o que acontece, como se o acontecer não fosse ainda manifestação de uma vontade que a tudo ultrapassa?

domingo, 18 de maio de 2008

O corpo desejado

O desejo de um corpo é muitas vezes mais do que um desejo corporal, de satisfação dos sentidos, se é que esta expressão descreve seja o que for na paixão erótica. A imaginação trabalha sobre o corpo desejado e, se esse desejo nunca foi consumado, ela abre uma clareira onde tudo se ilumina. Desejo aquela pessoa, pressinto o seu corpo a chegar junto do meu, a sua na minha boca. Mas não é aqui que está a verdade desse desejo. Há qualquer coisa inapreensível que me faz querer aquela pessoa e não outras, ou não muitas das outras que existem. É esse “qualquer coisa” que contém um segredo e é nesse segredo que se inscreve o meu desejo. É um facto que desejo aquele corpo, aqueles lábios, desejo ter a minha mão sobre aquela pele, desejo fundir-me naquela pessoa e amá-la, desejo a perdição do sexo e o fulgor de um beijo, desejo que aquele corpo me solicite e se torne solícito à minha solicitação. Mas nada disso ainda tem sentido, nada disso é relevante, nada disse me mostra a essência do meu desejo que se manifesta no desejar daquela pessoa. Pressinto que, para além do corpo desejado e da fusão desses corpos no jogo do amor, há um espírito que se reconhece, talvez por breves instantes, noutro espírito e que, mais do que os corpos, são eles, esses estranhos habitantes das nossas pessoas, que se desejam e que, mais de que todo o resto, desejam fundir-se. Não são os corpos que se desejam, são os espíritos que se procuram e atraem através da espessura nebulosa dos corpos, esses santuários onde o espírito vive puro e sem mácula. Talvez não exista outro amor para além do platónico, talvez. Mas para que isso se torne compreensível, há que pôr de lado aquilo que popularmente se entende por amor platónico.