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quarta-feira, 1 de maio de 2013

Uma lúgubre realidade

Leon Frédéric - A era do trabalhador (1895-97)

Como será possível denominar o quadro com o estranho título de A era do trabalhador? O que vemos, em primeiro plano, são mulheres e crianças e não encontramos vestígio de trabalho nem figuras que possam preencher o conceito de trabalhador. O que nos diz então este quadro sobre a era do trabalhador? Diz-nos que a actividade do homem se reduziu à sua condição natural, à pura corporalidade, à mera estratégia da sobrevivência da espécie, à preocupação com a reprodução da vida. A era do trabalhador é o tempo histórico em que o homem, despido da espiritualidade, se entrega plenamente aos afazeres da reprodução e da sobrevivência. A era do trabalhador é a confissão de uma dificuldade pela qual a espécie passa. Todas as suas forças se concentram nas dinâmicas biológicas ligadas ao corpo. A era do trabalhador, contrariamente ao que se propaga nas diversas retóricas sociais, não é a do reconhecimento da dignidade do trabalho e do trabalhador, mas o tempo em que a actividade do homem perdeu o sentido espiritual que dava dignidade tanto ao trabalho como àquele que o executava. A luminosidade do quadro de Leon Frédéric oculta, na beleza dos corpos e na esperança trazidas por novas vidas, a lúgubre realidade do homem moderno, a sua oclusão na pura corporalidade, o esquecimento daquilo que faz dele mais do que um animal.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

A atenção ao mundo

El Greco - Vista del Monte Sinaí (1570-72)

Insisto: a sede da mística não é na estratosfera, mas sobre esta "terra dos homens", mesmo se o místico tem a audácia de nela escalar os cumes mais altos. Não sonha em ir para a lua, onde não há atmosfera, mas tenta subrir sobre o Tabor, o Sinai, sobre o Meru, sobre o Kailãsa, sobre o Sumbur (Semeru), sobre o Haraberazaiti (Harbuz), etc.: isto é, os lugares terrestres onde céu e terra se encontram. (Raimon Panikkar, Mystique plénitude de Vie. p. 209)

A vida do espírito não é um acto de cobardia e de fuga ao mundo. Pelo contrário, é o modo de vida onde se exige a maior das atenções à vida na Terra, pois esta é a condição do ser humano. Atenção não significa alienação e estranhamento perante sua própria natureza de ser dotado de espírito. Significa, em primeiro lugar, compreender que também a Terra e as coisas na sua materialidade contêm, para não dizer que são, o espírito. Significa, em segundo lugar, que a vida do espírito se alicerça na materialidade do corpo humano, nos poderes e fragilidades da carne. Significa, em terceiro lugar, que qualquer ascensão espiritual implica o reconhecimento de que a materialidade corporal do ser humano está submetida à lei da gravidade.

O místico (ou espiritual) deve então ser o mais desperto dos homens para as realidades terrestres. Sem essa atenção e esse estar desperto, não há monte a que ele consiga ascender, não haverá possibilidade de trilhar o caminho que o leva ao ponto onde a Terra e o Céu se encontram, não encontrará o lugar em que Deus e o homem se tocam. O desprezo pela finitude da terra e pela fragilidade do corpo terá como contrapartida o encerramento na caverna e a prisão no corpo, como já Platão bem o sabia.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O templo do Espírito

Paul Gauguin - Y el oro de sus cuerpos (1901)

A espantosa definição paulina do corpo, como «templo do Espírito», opõe-se radicalmente aos esquemas usuais do helenismo. Herdado do pitagorismo, o famoso jogo de palavras sobre o corpo-túmulo (soma/sema) reencontra-se em Platão, impregnado duravelmente toda a mentalidade ocidental, antes e após Cristo. (Christian Belin, Le Corps Pensante - Essai sur la Méditation Chrétienne, p.118)

A visão negativa do corpo, visão tão espalhada na história do Ocidente, é, na sua essência, anticristã e claramente pagã. Mesmo quando é veiculada pela Igreja - e isso acontece muitas e muitas vezes - essa visão não deixa de ser aquilo que é e não deixa de estar em contradição com o próprio cristianismo. Não se trata, no cristianismo originário, de opor o Espírito ao corpo, mas de uma reconciliação entre ambos. A redenção do homem na cruz de Cristo, o tema central do cristianismo, é também a redenção do corpo humano, a ultrapassagem da visão negativa do corpo proveniente de doutrinas como o pitagorismo. A natureza do cristianismo não é a reactividade ao corpo ou à matéria, mas a sua revalorização e salvação. Ora isso implica que o corpo, onde se inclui a sexualidade, deva ser pensado num contexto emancipatório (o que não é sinónimo de libertino) e moderno, pois só assim a definição de Paulo de Tarso continuará, ou tornará, a fazer sentido.

sábado, 5 de maio de 2012

Da arte da dança

Giorgio Morandi - Natura Morta (1918)

A tensão entre corpo e espírito é o cerne da nossa natureza viva. O desprezo pelo corpo, a sua negação, o ódio ao que ele traz consigo são formas de morte, mas de uma morte onde o próprio espírito morre. Também a eliminação do espírito, dos seus anseios e desejos, é uma forma de solidificar o corpo, torná-lo numa verdadeira natureza morta. Dividir o ser em duas partes é já uma decisão arbitrária, mas à qual não podemos fugir, pois foi assim que o mundo e o estar nele nos foi ensinado. O importante é aprender o jogo que as partes devem uma à outra e jogá-lo. A finalidade desse jogo não é a vitória de uma parte sobre a outra, mas abolir a fronteira onde a divisão se dá. Abolir a fronteira não significa uma decisão jurídica proferida por uma instância independente ou um tratado onde as partes, mantendo-se enquanto partes separadas e distintas, deixam o viandante transitar de um território para o outro sem necessidade de passaporte e paragem na alfândega. Abolir a fronteira significa que já não há juiz que sentencie nem partes que assinem tratados, tão pouco um viandante que as percorra. Significa apenas que corpo e espírito se fundiram e nessa fusão são alimentados pela tensão. Não já a tensão inicial entre corpo e  espírito, mas a tensão que resulta agora da tendência para a separação e o desejo de aprofundar a fusão. A tensão inicial deu lugar ao jogo, e este à dança. O ser dança e não é possível dançar sem que uma tensão percorra cada célula daquele que dança, que a alimente e a impulsione no seu movimento, na sua luta contra a gravidade.

sábado, 21 de abril de 2012

A transparência dos corpos

Pierre Bonnard - Le Paradis Terrestre (1916-1920)

A ideia de um paraíso terrestre poderá ter chegado aos homens através da experiência do seu corpo, da carnalidade do seu corpo. No mito bíblico isso torna-se evidente pela transição da nudez para a necessidade sentida de ocultação dos genitais. Estamos ainda antes da sentença de expulsão proferida pelo Juiz Supremo, mas esta sentença é apenas a confirmação de algo que já tinha ocorrido: Adão e Eva já estavam fora do paraíso. O que está em jogo é a experiência da opacidade da carne. A cobertura dos genitais simboliza essa opacidade e marca a consciência de uma tensão entre a transparência e a opacidade. Por desnudado que esteja, um corpo é opaco, a luz não penetra nele. Se o ilumina, é ainda e só na sua dimensão exterior. A nudez inconsciente anterior à falta de Eva simboliza um ideal de transparência da carne. Esta apresenta-se aí como aquilo através do qual se vê. Mais do que um corpo belo e perfeito na sua materialidade, os homens sonham um corpo transparente, através do qual a luz possa fluir. A beleza e a perfeição de um corpo residiria, desse modo, nessa transparência, o que significa a invisibilidade do corpo. Belos são os corpos que se vêem como se não se vissem. O castigo divino é, em última análise, o tornar visível da carne. O fascínio que esta exerce, por isso, é ambíguo. Ela atrai para si o espírito - como acontece no desejo sexual - mas atrai-o com a promessa de se tornar transparente. O que os amantes aspiram no amor é à fusão, que não é outra coisa senão o desejo de transição do corpo opaco ao corpo transparente, a transição para a invisibilidade corporal. 

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Da dor e do espírito

Se o corpo cede, o espírito, solidário, torna-se frágil e impotente. Sob o efeito de uma virose, as dores do corpo invadem a consciência, ocupam todo o horizonte e tudo se torna nebuloso. Como pensar claro e distinto? Como afundar-se no esquecimento de si? A dor, pequena que seja, é sempre um exercício de narcisismo, um ver-se contínuo ao espelho, agora um espelho deformado que devolve uma imagem lamentável e lamentosa de si mesmo. Talvez um contínuo exercício da dor permita a alguns esquecê-la e deixar o espírito livre da submissão às desventuras da carne. Mas quão longe se teria de ir no caminho para conseguir tal independência espiritual? Talvez a dor não seja o caminho para a libertação do espírito, talvez a dor seja ainda um exercício de submissão do espírito ao império material do corpo.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

De Eros e do Espírito

Van Dick, Eros e Psyche

Tradicionalmente, a paixão erótica é observada como inimiga da experiência espiritual, como um obstáculo ao caminho que cabe aos viandantes. No entanto, é possível que o problema não esteja em Eros, no amor erótico, mas no pathos, no estado de captura e de cativeiro em que os amantes permanecem presos pela paixão, pelo estado de passividade a que ficam sujeitos. Essa passividade é o contrário da livre actividade do espírito, aquele que sopra onde quer. A passividade da paixão impede que os amantes percebam a própria experiência erótica para além da corporalidade e da materialidade dada pela sensibilidade. A generalidade dos que se amam aproximam-se, num primeiro momento, por uma afecção física. Um corpo é tocado por outro corpo, em congruência com os desígnios biológicos da espécie. Raramente, este patamar é ultrapassado. Daí, por exemplo, a moralização da sexualidade feita pelas religiões, concomitante à sua sacralização. No entanto, não é um destino que o amor erótico fique encerrado na dimensão da passividade passional, passe a redundância. Ele pode ser uma via de acesso à experiência espiritual, à quebra da pura imanência dos sujeitos, à experiência da transcendência.

E a experiência contrária? Será possível que aqueles que se atraíram, numa primeira hora, pelo espírito e façam a experiência de uma comunhão espiritual e da transcendência materializem esse seu amor no amor erótico, na experiência dos corpos? Caberia interrogar se esses corpos são corpos idênticos aos daqueles que apenas vivem da atracção física. A perspectiva de quem olha não alterá a natureza daquilo que é olhado? A erotização do espírito poderá ser vista como uma queda, mas também pode ser compreendida como a descida do espírito sobre a carne e um processo de espiritualização desta. Desse ponto de vista, o amor erótico será assumido, à partida, como fazendo parte de uma experiência global dos estados múltiplos do ser, onde o perigo de os amantes ficarem encerrados na paixão e na passividade será muito menor do que no primeiro caso. Tudo, no amor, faria então parte do caminho do espírito. Mais, a própria cisão entre corpo e espírito perderia sentido, não havendo mais que um ser que passa por múltiplos estados existenciais.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Teoria da leitura

Há aquela velha polémica de Platão contra a escrita, contra os livros, contra o silêncio ostensivo com que respondem se forem interrogados sobre o que pretendem significar. O enigma, porém, está do lado de Platão e não dos livros. Por que razão terá escrito tanto? Não é verdade que os livros, no seu silêncio, não respondam. Os livros são um corpo silencioso nas mãos do leitor, e como um corpo precisam de ser tacteados lenta e suavemente, precisam de ser tocados para se abrirem e deixarem ouvir a voz reservada que trazem dentro de si. Ler é um corpo a corpo, um jogo em que as peles se tocam para os espíritos se fundirem. Há porém livros tão especiais, pelo espírito que anunciam, que o leitor se mantém na distância a que se convencionou dar o nome de respeito. Fico sempre perplexo quando vejo alguém excessivamente jovem com certos livros na mão. A profundidade de algumas obras não se compadece com os verdes anos. O respeito, contudo, não é sintoma de ausência de desejo, de falta de vontade de abrir o livro, de o tactear, de deixar correr o corpo que lê pelas páginas que se dão à leitura. O respeito é apenas o sinal de reverência pelo mistério que se pressagia, o sintoma do apreço pela luz que emana do espírito que o corpo do livro suporta. Talvez o respeito esteja ligado ao kairos, esse tempo oportuno que desce do espírito e toca os corpos, que vem do céu para iluminar a terra. O mundo vive um singular paradoxo relativamente à leitura. Ler tornou-se um imperativo generalizado, um indicador de desenvolvimento, um programa de acção. Mas a relação entre leitor e livro não é da ordem da moral, nem da economia ou da política. É uma relação presidida por esse estranho deus a que os gregos deram o nome de eros. O culto do deus – um deus impetuoso e intempestivo – exige essa especial reverência com que um corpo se deve abrir a outro, com que um espírito se funde noutro, com que um leitor se entrega nas mãos de um livro, com que certos livros se abrem para a leitura.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O limite de mim

Por vezes sonho um corpo apenas para o poder desejar, e no desejo daquela pele ou de um olhar, saber-me na verdade do meu ser. À beira da falência, já sem margem ou âncora, o desejo do outro envia-me o limite de mim. Pudera eu perder-me ali e mais perto de me encontrar, ou de Te encontrar, talvez estivesse.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

O mistério do amor

O mistério do amor. Não me refiro ao amor divino, mas ao amor humano, ao amor erótico. O amor divino é uma metáfora humana, demasiado humana, para dar a pensar e a viver a atracção que o espírito sente pela fonte da existência. Mas esta metafórica tem o condão de ocultar a dificuldade de se permanecer perante o próprio amor humano, daquele que serve de termo comparativo para sustentar a metáfora do amor divino. O facto é que há uma obscuridade a envolver o próprio amor humano, como se o amor erótico fosse uma metáfora assente num termo comparativo desconhecido. Quase poderíamos dizer que o amor humano é mais misterioso que o divino. Se quisermos falar da experiência erótica, apenas a dimensão equívoca da metáfora permite o discurso. Um discurso puramente denotativo sobre eros é de tal insipidez que não há amante que nele se reconheça. A presença de um corpo a outro, o jogo dos sentidos, a tensão do desejo, a desordem dos corpos, o fluir hormonal, a atracção dos espíritos, todos esses movimentos que a Física, a Química, a Biologia, a Anatomia e a Psicologia podem descrever, são enquanto tais insignificantes. A sua significância emerge através do poder evocador da palavra, e a palavra só é evocadora se ela se desconvoca da denotação e aceita o desafio de dizer o não dito, o inédito, o não dizível. Dizer o não-dizível, uma impossibilidade lógica, é a face discursiva do jogo erótico, também ele habitado no seu cerne por uma impossibilidade. É este não-possível que é a sua condição de possibilidade. Só o impossível torna possível o amor. A questão remanescente será: mas que impossível é este?

quinta-feira, 11 de junho de 2009

O Corpo de Deus

Dia de Corpo de Deus, dia de afirmação da presença substancial do corpo e do sangue de Cristo na hóstia consagrada. Mas o que de mais fundo agora podemos pressentir, para lá do mistério eucarístico, é a sagração do corpo. Estranha visão esta. Não será o cristianismo a religião adversa do corpo e da carne? Mas como pensar então no corpo de Deus? Como estabelecer a conexão entre Deus e corpo? O corpo de Cristo simboliza o carácter divino do próprio corpo. E o corpo não é apenas corporalidade reduzida à mera extensão, reduzida a uma geometria tri-dimensional. O corpo e o sangue enviam-nos para a ideia de carne, de corpo vivo, mas também aqui não estamos perante uma dimensão puramente biológica. O corpo é mais do que um elemento físico e biológico, o corpo humano, com tudo o que contém, é um mistério e um caminho que leva o homem para além daquilo que é meramente humano, ou, dito de outra forma, sendo humano é, por isso mesmo, sobre-humano.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

O meu corpo

Uma tontura, uma espécie de volúpia a arrastar-me para o chão, um sentimento de estar desabrigado e impotente perante as forças que não controlo. Assim, de forma tão inopinada, um pequeno acontecimento físico não desencadeou apenas a preocupação com o que se está a passar, mostrou também os limites do homem. O próprio corpo é tão estranho que chega a parecer impossível dizer o meu corpo. Recolho-me em mim e não encontro casa alguma que seja a minha casa. Deixo-me e ir sabendo que nada sou e espero que Tu me ampares no caminho.