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quinta-feira, 25 de junho de 2015

Conversão do olhar

Ricardo Baroja Nessi - Cansaço (1951)

O cansaço não é apenas uma reacção ao excesso de esforço físico ou mental. Quando assim, é um sintoma da necessidade de descanso, para que a mesma actividade possa ser retomada. Há todavia um cansaço mais essencial, aquele que nenhum descanso tem o poder de fazer desaparecer. Esse cansaço é o sinal de que a forma como concebemos o mundo e nos concebemos dentro do mundo está em contradição com aquilo que há de mais fundamental em nós. Esse cansaço é a voz que chama não ao descanso mas à conversão do ponto de vista, à conversão do olhar.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

A morada do cansaço

Escrevo agora da morada do cansaço. É uma casa turva de onde o olhar sai com dificuldade, mas é nela que nasce uma súbita volúpia, como se a quebra física fosse uma porta para uma estranha dimensão metafísica. Exausto o viandante quer descansar, mas é aí que vem a hora de retomar caminho. Caminhemos por entre a astenia e escutemos o que se canta nas novas paisagens que, abertas na morada do cansaço, chegam.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

A tensão do acontecer

Uma noite mal dormida e cheia de peripécias rocambolescas, um dia vago e vazio, como se o espírito, confundindo-se com o corpo, precisasse de descanso. A tensão do acontecer prende em si o pensamento e este apossa-se de todo o ser, impõe-lhe os seus devaneios e inconsequências. Um dia entre a agitação da possessão pela corrente de consciência e um cansaço de quem precisa de dormir e há muito não o faz. Respiro fundo e anseio pela hora em que posso descansar.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Escrevo pelo silêncio

Estou seco. Cheguei a casa vindo do contacto com as gentes, e esta estadia fora do lugar onde o silêncio me pode acolher deixa-me tão gasto que a energia que resta apenas serve para me manter, distraído e em repouso, à tona da vida. O espírito fecha-se em si e o corpo pede-me o abandono que só a preguiça parece poder dar. Agarro-me a estas palavras para resistir. Escrevo-as, na debilidade que me atinge, para ficar um pouco mais forte e mais apto para me entregar ao silêncio e à escuta daquilo que pelo silêncio poderá vir. Escrevo na tarde para ouvir um rumor longínquo, escrevo como se orasse, escrevo para lutar contra a devassidão do cansaço e o brilho negro da morte. Escrevo para recuperar o silêncio que o mundo rouba, como se o mundo não pudesse ser outra coisa senão uma infinita cacofonia, uma torre de babel onde até os mais inanimados dos objectos tivessem uma língua e julgassem por bem fazê-la ouvir a quem passa. Escrevo para recuperar o silêncio das palavras, escrevo pelo silêncio da Tua palavra.