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sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Arrependimento e conversão

Cecilio Pla Gallardo - Arrepentimiento (1896)

Na vida dos homens, o arrependimento é uma das experiências mais equívocas. Arrepender-se significa que a consciência moral sente remorso por actos ou faltas passadas. Arrependimento, exigem-no os pais aos filhos, os professores aos alunos, o confessor aos crentes, o juiz aos condenados. E o bom senso diz-nos que o arrependimento é melhor que a contumácia no erro. Este jogo entre o arrependimento da consciência moral e a orgulhosa obstinação no erro encerra, contudo, o problema no âmbito da consciência e oculta a questão essencial. O problema não é moral mas da ordem do ser, daquilo que se é. Mais do que arrepender-se, há que tornar-se outro, deixar de ser aquilo que conduz ao erro e tornar-se um outro ser. É esta alteração que faz da conversão uma experiência radicalmente diferente da do arrependimento. E só esta experiência pode evitar o retorno à errância.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

A dialéctica do arrependimento

Ignacio Díaz Olano - Arrependida (1895-96)

A religião, a justiça, a própria vida comum têm um dos seus alicerces na prática do arrependimento. Contritos, os que se arrependem de alguma coisa, ostentam um firme propósito de não mais tornar a fazê-la. Em tudo isto, porém, há uma perversidade que está longe de ser percebida. Ao arrependimento está subjacente a crença de que se é melhor, uma revolta contra a sua própria condição, uma recusa de aceitação de si, uma afirmação de um poder do eu, poder esse que está na base, e foi a mola propulsora, do próprio acto que conduz ao arrependimento e à contrição.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Convocar os errantes

Oskar Kokoschka - Cavaleiro Errante (1915)

Naquele tempo, Jesus viu um cobrador de impostos, chamado Levi, sentado no posto de cobrança, e disse-lhe: «Segue-me.» E ele, deixando tudo, levantou-se e seguiu-o. Levi ofereceu-lhe, em sua casa, um grande banquete; e encontravam-se com eles, à mesa, grande número de cobradores de impostos e de outras pessoas. Os fariseus e os doutores da Lei murmuravam, dizendo aos discípulos: «Porque comeis e bebeis com os cobradores de impostos e com os pecadores?» Jesus tomou a palavra e disse-lhes: «Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os que estão doentes. Não foram os justos que Eu vim chamar ao arrependimento, mas os pecadores.» (Lucas 5,27-32) [Comentário de Rafael Arnaiz Baron aqui]

A leitura do texto de Lucas deixa pairar uma suspeita sobre aqueles que se apresentam como justos. O primeiro sinal dessa suspeita está com quem Cristo e os seus discípulos fazem comunidade. Os murmuradores sentiam-se excluídos e viam incluídos nela aqueles a quem desprezavam. O segundo sinal está nas próprias palavras de Cristo que diz que vem chamar não os justos, mas os pecadores.

Fariseus e doutores da lei representam uma piedade formal, de onde a tensão da vida parece estar excluída. Eles são justos perante a lei. Mas se a lei for apenas um escudo em que se protegem para não se confrontarem com a própria existência? A vida exige mais que a mera conformação com a lei, exige a turbulência que é suscitada pelo campo experiencial que é colocado à disposição do homem pelo simples facto de estar vivo, de ter sido posto aí.

Se Cristo não parece interessado nos justos, por quem se interesse ele? Por quem veio Ele chamar? A tradução portuguesa, baseada na latina, perde aquilo que está em jogo. De tão utilizada, a palavra pecador perdeu praticamente o sentido original das expressões aramaica e grega. Nestas línguas, as expressões usadas remetem para a ideia de errar ou não atingir um alvo. Antes de uma conotação moral, estamos perante uma descrição existencial. O Cristo veio falar para aqueles que falham na vida o alvo proposto. E é ao falhar esse alvo existencial que se perdem. Neste momento, errar ganha a sua dimensão real, a dimensão da errância, da vagabundagem e do nomadismo existenciais. Significa uma perda de oriente e, em última análise, um perda de si mesmo.

Mas que sentido terá esse arrependimento a que os que falham o alvo, os errantes, são convocados? O que está em causa não é, em primeiro lugar, uma questão moral, mas, fundamentalmente, uma questão existencial. Arrependimento remete para a metanóia, para a mudança da mente, do espírito. Significa elevar-se a um outro ponto de vista, a partir do qual se possa não falhar o alvo, se possa pôr fim à errância do espírito, abri-lo ao alvo que ele próprio é. Não basta a conformação à justiça configurada na lei. É preciso mergulhar no trágico da existência e nele encontrar o alvo que a vida propõe.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Do remorso e do arrependimento

Muitos dizem que não se arrependem de nada do que fizeram. Mas como poderei ser assim e proclamar ao mundo um orgulhoso não arrependimento? Há muitas coisas que não faria efectivamente e ao pensar nelas sinto uma vergonha íntima de as ter praticado. É a essa vergonha íntima a que se poderá chamar remorsos. O curioso, porém, é que essas coisas nunca como hoje chocaram tanto com a minha consciência. Olho para a minha vida e uma multidão de actos, pensamentos, palavras e omissões acusa-me e deixa-me perplexo perante a imagem que de mim faço. Começo a perceber que essas pequenas e grandes inclinações me levaram a um afastamento do absoluto, afastamento esse que fui justificando com razões, como se a razão existisse para justificar o mal que praticamos ou para legitimar a boa consciência. Mas saberei arrepender-me efectivamente? E o que significará esse arrependimento?